Evangelizar e converter-se cotidianamente ao Evangelho do Reino são faces distintas da mesma dinâmica de ser Igreja, sacramento vivo do Reino de Deus no meio de nós. O cristão é chamado a ser testemunha viva do Evangelho que anuncia, assumindo uma caminhada de fé libertadora e de crescimento espiritual, centrada na busca de concretizar, no contexto em que se vive, a vida nova – vida de intimidade amorosa com Deus e com os irmãos do caminho. Vida nova que é animada pela mesma lógica da vida de Jesus, amar e servir, e pela exigência ética de participar, de mãos dadas com os movimentos populares, da construção diária de outra sociedade possível, a partir dos mais pobres.

Vale a pena conhecer de perto a experiência da Igreja Povo de Deus em Movimento, da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, da Diocese de São Miguel Paulista, que tem como pároco o Pe. Paulo Sérgio Bezerra:

Igreja Povo de Deus em Movimento

1 «Igreja – Povo de Deus – em Movimento» é encontro de cristãos – leigos e leigas, religiosos e religiosas, padres e membros de outras confissões – que animados pelo Evangelho do Reino, revelado plenamente por Jesus de Nazaré, o Senhor Ressuscitado, busca atualização desse mesmo Evangelho nas inspirações fundamentais do Concílio Vaticano II, nas conclusões das 5 Conferências do Episcopado Latino-Americano, no conjunto dos documentos da Conferência dos Bispos do Brasil e nos planos pastorais. Temos plena e total consciência do chamado do Senhor Jesus, para que sejamos construtores e participantes da «vinha do Senhor» (Mt 20,3-4).

2 «Nos nossos dias, a Igreja do Concílio Vaticano II, numa renovada efusão do Espírito de Pentecostes, amadureceu uma consciência mais viva da sua natureza missionária e ouviu de novo a voz do seu Senhor que a envia ao mundo como «sacramento universal de salvação» (CL, 2 apud LG, 48). Passados 50 anos da realização do Concílio Vaticano II, que significou «uma nova primavera» para a Igreja – Povo de Deus – a aplicação do Concílio em sua trajetória encontra desafios interna e externamente. Hoje, o conjunto e a complexidade desses desafios se traduzem naquilo que se chama de «mudança de época».

3 «Igreja – Povo de Deus – em Movimento», portanto, vem para reassumir as novas perspectivas teológicas e, consequentemente, as suas propostas pastorais:

  • a ‘opção pelos pobres’ (Medellin, 1968);
  • a ‘comunhão e participação’ (Puebla, 1979);
  • o ‘protagonismo dos leigos’ e a ‘inculturação da fé’: (Sto. Domingo, 1992);
  • uma ‘igreja em permanente estado de missão’ que deve ser protagonizada pelos ‘discípulos missionários’ nesta ‘mudança de época’ (Aparecida, 2007).

4 – É preciso sempre mais «olhar para trás» e ver a caminhada histórica, mas e – ao mesmo tempo – «olhar para frente» e redescobrir no conjunto da caminhada do Povo de Deus, as experiências acumuladas pelos protagonistas em sua diversidade. Os grandes desafios do mundo contemporâneo devem ser enfrentados com realismo e profetismo. É a coragem de renovação, única garantia de futuro.

5 – A «Igreja – Povo de Deus – em Movimento» vive nos atuais tempos uma «hora magnífica», mas ao mesmo tempo dramática. Novas situações, tanto eclesiais como sociais, econômicas, políticas, tecnológicas e culturais, reclamam hoje, de todos com força, toda particular, ações articuladas, estratégicas, fecundantes, transformadoras. Se o desinteresse foi inaceitável, os desafios do tempo presente não toleram ócio e inércia.

6 – «Igreja – Povo de Deus – em Movimento» pretende, no pluralismo cultural e religioso, contribuir na construção de uma ética voltada para a sustentabilidade socioambiental do Planeta.

7 – A dinâmica e o conteúdo de «Igreja – Povo de Deus – em Movimento» vão-se construindo ao longo de sua caminhada.

8 – «Igreja – Povo de Deus – em Movimento», na perspectiva de sua dinâmica e conteúdo, deseja animar e estimular seus participantes a atuar firme e corajosamente em 3 amplos campos da vida humana:

  • No campo de vida da pessoa promover sua dignidade em suas diversas situações;
  • No campo da comunidade quer combater todo tipo de ações que fragmentam a vida e suas relações internas, conduzindo-a, geralmente, a comunidades fechadas em si mesmas, desarticuladas e isoladas. Quer também promover o diálogo como ferramenta e meio essencial tanto no interior das comunidades e grupos assim como com as forças políticas e os diversos Movimentos sociais locais.«Abertas ao Espírito, as comunidades se abrem ao diálogo com as forças vivas da sociedade, construindo parcerias e enriquecendo-se mutuamente» (DGAE – 2008-2010, 165). Urge novas formas de articulações entre os diversos grupos de cristãos para um «planejamento comum» e definições de ações que promovam a comunhão e a participação de todos;
  • No campo da sociedade colaborar com a construção de «outro mundo possível» marcado pela solidariedade, banindo o escândalo da exclusão e da violência. A opção pelos pobres não pode ficar restrita a um plano teórico e emotivo (Cf. DA, 394). Por isso, combater a «cultura da morte» presente em todos os níveis da sociedade; em contrapartida, promover a «cultura da vida» que liberta.

9 – Assim, a «Igreja – Povo de Deus – em Movimento» quer se traduzir em ações verdadeiramente comprometidas com Movimentos sociais e políticos legítimos empenhando-se por políticas públicas, segundo as diretrizes e afirmações da Doutrina Social da Igreja, para o desenvolvimento de uma «economia solidária». – A «Igreja –Povo de Deus – em Movimento» quer ser também compromisso em formar missionariamente seus participantes para atuarem nos «novos areópagos». Diante da crescente urbanização nos últimos 30 anos que – rápida e violentamente – vem alterando e configurando com novos cenários desafiadores a realidade brasileira, inclusive culturalmente, urge pensar na criação de comunidades em ambientes especializados, em meio à complexidade da vida urbana, como o universo da educação e dos meios de comunicação, sobretudo as novas mídias e tecnologias.

10 – Assim, a «Igreja – Povo de Deus – em Movimento» roga: «Fica conosco, Senhor!» (cf. Lc 24,29):

Fica conosco, Senhor, acompanha-nos ainda que nem sempre tenhamos sabido reconhecer-te. Fica conosco, porque ao redor de nós as mais densas sombras vão se fazendo, e Tu és a Luz; em nossos corações se insinua a falta de esperança, e tu os faz arder com a certeza da Páscoa. Estamos cansados do caminho, mas tu nos confortas na fração do pão para anunciar a nossos irmãos que na verdade tu tens ressuscitado e que nos tem dado a missão de ser testemunhas de tua ressurreição.

Fica conosco, Senhor, quando ao redor de nossa fé católica surgem as névoas da dúvida, do cansaço ou da dificuldade: tu, que és a própria Verdade como revelador do Pai, ilumina nossas mentes com tua Palavra; ajuda-nos a sentir a beleza de crer em ti.

Fica em nossas famílias, ilumina-as em suas dúvidas, sustenta-as em suas dificuldades, consola-as em seus sofrimentos e no cansaço de cada dia, quando ao redor delas se acumulam sombras que ameaçam sua unidade e sua natureza.

Tu que és a Vida, fica em nossos lares, para que continuem sendo ninhos onde nasça a vida humana abundante e generosamente, onde se acolha, se ame, se respeite a vida desde a sua concepção até seu término natural.

Fica, Senhor, com aqueles que em nossas sociedades são os mais vulneráveis; fica com os pobres e humildes, com os indígenas e afro-americanos, que nem sempre encontram espaços e apoio para expressar a riqueza de sua cultura e a sabedoria de sua identidade.

Fica, Senhor, com nossas crianças e com nossos jovens, que são a esperança e a riqueza de nosso Continente, protege-os de tantas armadilhas que atentam contra sua inocência e contra suas legítimas esperanças.

Oh bom Pastor, fica com nossos anciãos e com nossos enfermos! Fortalece a todos em sua fé para que sejam teus discípulos e missionários! (DA, 554). Fortalece sempre mais a caminhada de tua «Igreja – Povo de Deus – em Movimento».

 

Coordenação Geral IPDM, 2010.

Fonte:

www.teologiadalibertacao.wordpress.com

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