Dentro e fora da Igreja percebe-se um desconforto com este “Dia Mundial dos Pobres”. Por um lado, incomodam-se pessoas engajadíssimas em lutas sociais e que admiram profundamente as palavras e ações do atual Bispo de Roma, das quais se ouve expressões de estranhamento em relação à criação de “um dia” destinado àqueles que devem ser foco de nossas atenções cotidianas. Por outro, exasperam-se aquelas que querem distância de tudo o que lembra o excluído, que não desejam refletir sobre a realidade circundante, e, menos ainda, que o Papa provoque, novamente, reflexões de cunho sócio-político-econômico sobre o papel do cristão.

Desde o início de seu pontificado, Francisco tem buscado se aproximar de todo tipo de excluído.

Há cerca de um ano, em Roma, no Festival da Alegria, novamente Francisco se encontrou com os pobres e percebeu que havia necessidade de momentos específicos para esse “estar com” que faz bem aos dois lados. Tocar de perto a fragilidade dos irmãos nos humaniza, percebeu o Papa, que questiona o fato de haver mais quem queira ser a voz dos que não têm voz do quê pessoas que, de fato, os escute e lhes conceda o lugar que têm direito a ter: “protagonistas dos seus próprios projetos de vida”. Há que se contribuir para combater “a indiferença em relação àqueles a quem chamam descartáveis da sociedade atual” e promover a “cultura do encontro”.

No encerramento do Jubileu da Misericórdia, pois, Francisco instituiu O Dia Mundial dos Pobres, com o desejo que a Igreja fomente encontros verdadeiros em cada realidade entre os diferentes tipos de pessoa e, a partir de então, as pessoas possam forjar a mudança do estilo de vida comum aos nossos tempos: de famílias fechadas, pessoas individualistas, passemos a nos abrir ao encontro com o diferente, à partilha, “prova da autenticidade evangélica”.

Há outra data mundial, criada pelas Nações Unidas, que proporciona a ponderação acerca das causas da pobreza, suas consequências e modos de erradicá-la. Trata-se do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, 17 de outubro.  Estar com os pobres, como pede o Papa aos cristãos não-pobres, propicia a criação de uma nova consciência pela possibilidade da mudança de lugar; do colocar-se “no lugar” do outro, ao se familiarizar com ele. As datas se somam. A uma Igreja em saída o que se pede é não só refletir sobre a pobreza. Estar com os pobres é olhar nos olhos do outro e deixar-se tocar, internamente, pela realidade do outro. Mas isso não significa absolutamente assistencialismo cômodo.

Francisco nos ensina pelo exemplo: ele próprio busca estar com os empobrecidos, ouvi-los, senti-los, mas também denuncia em alto e bom tom as causas da injustiça social, como fez, por exemplo, na Bolívia*, quando bradou contra “a imposição de medidas de austeridade que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres” e, ainda, contra “o colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matéria prima e mão de obra barata, engendra violência, miséria, migrações forçadas”. Contundentemente, fez-se ouvir:

Quando o capital se converte em ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez pelo dinheiro tutela todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, coloca povo contra povo e, como vemos, até põe em risco esta nossa casa comum.

Essa voz profética não é a de quem engendra um “Dia Mundial dos Pobres” para apaziguar consciências, mas a de quem, humilde e corajosamente, assume um pontificado com resistências inimagináveis dentro da própria Igreja por buscar, radicalmente, ser fiel ao Evangelho de Jesus Cristo. E por isso pode-se posicionar dizendo: “Peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América”. É profética a voz que pede “terra, teto e trabalho” para todos: “São direitos sagrados. É preciso lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja ouvido na América Latina e em toda a Terra”.

Além da profética denúncia, também anuncia que um novo mundo é, sim, possível. E anima à multidão que ouve sua voz e reconhece nela a de seu amado Pastor:

Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos trabalhistas? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado?

Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas?

Muito! Podem fazer muito. Vocês, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podem e fazem muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas suas mãos, na sua capacidade de se organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto, terra), e também na sua participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem.

Por que um “Dia Mundial dos Pobres”? Porque “necessitamos de uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança redentora.” E convivendo com os pobres, sentindo seu corpo, seu cheiro, sua voz, talvez possamos nos dar conta que o Peregrino de Nazaré, de fato, escolheu vir como um pobre e é no mais pequenino que Ele se faz presente. Diz ainda o nosso Papa: “Necessitamos de uma mudança real. Esse sistema já não se sustenta. E os mais humildes, os explorados, podem fazer muito. O futuro da humanidade está em suas mãos”.

Professora Tânia Jordão.
 *Papa Francisco – Discurso no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, Bolívia, 2015.
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