Contemplando Maria Fernanda, minha filha, fazer carinho no Menino Jesus, lembrei-me de que a São Francisco de Assis é atribuída a criação do primeiro presépio de Natal. Ao fazer a experiência de Deus no encontro com a pessoa de Jesus de Nazaré, experiência provocada pelas narrativas do Evangelho, Francisco percebeu imediatamente que os cristãos de seu tempo não tinham clareza da beleza transformadora da fé cristã (e nós hoje, será que já temos?).  Contemplando o Mistério da Encarnação como o grande sim de Deus à humanidade, Francisco criou o presépio para que todos, especialmente os mais pobres, tivessem acesso à centralidade da mensagem cristã: Deus tem fé-amor para com a humanidade e é sempre estradeiro conosco. Deus é um Deus pertinho de nós! Ninguém está sozinho por mais que pense estar!

Ao criar a humanidade e acompanhá-la amorosamente em seu longo processo evolutivo, na plenitude dos tempos envia-nos o seu próprio Filho que se torna em tudo igual a nós, Deus se faz um de nós assumindo em totalidade a nossa condição. Assim, Deus revelou definitivamente o seu amor e a sua eterna e gratuita aliança de amor para com toda a humanidade.

Em sentido antropológico, creio podermos dizer que o Natal carrega, em seu Mistério Maior, a “fé de Deus” na humanidade. Explico-me. Deus “acredita” na força do amor como fonte de transformação. Trata-se o Natal, portanto, de uma boa notícia para todo homem e mulher independente de etnia, cultura, religião, sexo… Como nos ensina o grande teólogo brasileiro Leonardo Boff, em cada criança que nasce, Deus reafirma o seu sim amoroso e esperançado para com toda a humanidade. O nascimento de Jesus, naquele contexto de total exclusão – não havia lugar para sua família – revela-nos, com incomensurável alegria, que cada criança que vem a este mundo carrega um Mistério Maior e participa da concretização do projeto salvífico de Deus: o amor é mais forte que as forças da exclusão e da morte. Podemos viver confiantes, esperançados e comprometidos com a construção de outra sociedade possível, pois o destino último da vida é participar da plenitude amorosa de Deus.

O espírito do Natal é ainda melhor captado, entendido e saboreado quando somos capazes de contemplar na singeleza do presépio a totalidade da vida de Jesus de Nazaré. O homem demasiadamente humano, que era capaz de compadecer-se dos últimos e esquecidos, dos pobres, dos pecadores e dos excluídos da mesa da dignidade. O homem, carpinteiro pobre de Nazaré, filho de Maria e de José, que se tornou profeta da Galiléia, dedicando-se totalmente a fazer a vontade divina, sendo fiel ao Reino de Deus até o extremo de sua condenação, política e religiosa, à morte de cruz. O Messias condenado e crucificado, mas ressuscitado por Deus, que se tornou definitivamente Caminho de salvação para todos os homens e mulheres que cultivam a centralidade do amor, da justiça, da misericórdia e da paz.

Que minha filha, Maria Fernanda, e todas as crianças que vem a este mundo experimentem o amor de Deus revelado no Natal e encontrem em nós adultos, homens e mulheres comprometidos com o Caminho que revelou a fé-amor de Deus para toda a humanidade, caminho da justiça, da misericórdia e da paz.

Um feliz e abençoado Natal e Ano Novo cheio da experiência da fé-amor de Deus por cada um de nós. Que a fé de Jesus transforme e dê conteúdo a nossa fé em Jesus. Amém!

 

Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães

Secretário Executivo do Observatório da Evangelização PUC Minas

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