O Espírito Santo, que é muitas vezes esquecido na Igreja Católica, sopra onde quer, e a eleição de Bergoglio foi uma surpresa tão grande que mesmo os mais céticos observadores do Vaticano, e vários não católicos, perguntaram-se se realmente havia um novo Pentecostes no ar. […]

Quando chegou a sua vez, [no conclave que o elegeu] o cardeal Bergoglio foi direto ao ponto, usando menos dos cinco minutos destinados a ele, num discurso simples, mas eletrizante, que chamava a Igreja a “sair de si mesma” e curar-se de um “narcisismo teológico” que deixou o catolicismo incapaz de evangelizar. “No Apocalipse, Jesus diz que está à porta e bate”, disse Bergoglio a seus companheiros eleitores. “Obviamente, o texto refere-se a ele batendo do lado de fora para entrar. Mas penso nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro para que o deixemos sair. A Igreja autorreferencial mantém Jesus Cristo dentro de si mesma e não o deixa sair.”

 

 

Cinco anos de Francisco: os pontos-chave do seu papado

Por David Gibson

(Tradução: Luísa Flores Somavilla)

O Papa Francisco tem sido um pontífice notável em quase qualquer aspecto, podendo ser considerado um dos mais significativos da longa e colorida história do papado. Até mesmo seus detratores podem compartilhar dessa avaliação, por razões diferentes das do grupo – muito maior – de apoiadores, que acolhem bem a promoção apaixonada de Francisco a um catolicismo mais pastoral e menos legalista.

Mas cinco anos depois da eleição clamorosa de Francisco, a fonte dessa aclamação continua sendo uma questão que suscita muita discussão. E, nesse marco, talvez surja uma pergunta mais importante: Há alguma coisa além deste apelo pessoal que possa durar mais do que o próprio Francisco? O que ele realmente mudou, e como prevenir que outro papa desfaça essas mudanças? É relativamente fácil detectar muitos dos fatores que têm impulsionado o fascínio do público com Francisco, a começar pela novidade e surpresa causada por sua eleição em 13 de março de 2013.

 

As chaves de Pedro

Nós amamos tudo o que pareça sem precedentes, e o conclave de 2013 teve muitas “primeiras vezes”. O cardeal de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio, por exemplo, foi o primeiro papa na história a se chamar Francisco, o nome de São Francisco de Assis, um dos santos mais populares e conhecidos, cuja vida de pobreza e amor aos pobres, à paz e a toda a criação fizeram dele um ícone muito querido — ainda que não seja exatamente um modelo de papel papal tradicional.

Francisco também foi o primeiro papa de fora da rota europeia, o primeiro do hemisfério sul, “do fim do mundo”, como ele disse em seu direto discurso de posse para a multidão reunida numa noite de chuva fina na Praça de São Pedro. Ele também foi o primeiro papa jesuíta, um grande milagre para quem conhece a história das relações entre a Sociedade de Jesus e o papado. E Francisco seguiu o primeiro papa a renunciar a cadeira de São Pedro em cerca de seis séculos. É muita novidade; e mesmo num mundo moderno viciado em surpresas regulares nas “notícias de última hora” e nas manchetes sensacionalistas, esses acontecimentos destacaram-se como verdadeiramente memoráveis.

A narrativa de mudança não terminou quando Francisco apareceu na noite da eleição, mas continuou quando o novo papa foi fotografado pagando a própria conta de hotel e depois se mudando permanentemente para a modesta residência do Vaticano, em vez de morar no sumptuoso Palácio Apostólico. Outras histórias reforçaram o enredo: o fato de Francisco ligar para o seu sapateiro na Argentina para pedir que ele consertasse seu velho par de sapatos batidos; de ir a uma óptica romana para mandar fazer um novo par de óculos, e não de esperar que ele viesse até o Papa; de ligar inesperadamente para pessoas do mundo todo; de dar entrevistas, querendo ou não, e assim por diante. Reza uma lenda urbana que Francisco chegou a escapar silenciosamente do Vaticano para ajudar os sem-teto de Roma à noite. Não é verdade, mas isso não importa.

João Paulo II havia sido papa por 26 anos no momento da sua morte, e seu braço direito doutrinal, o cardeal Joseph Ratzinger, foi eleito para sucedê-lo em 2005 com o nome de Bento XVI. Juntos, os dois pontificados representaram 35 anos de uma reorientação tradicional na Igreja, e esses dois papas haviam nomeado todos os 113 cardeais que entraram no conclave de 2013.

Porém, o Espírito Santo, que é muitas vezes esquecido na Igreja Católica, sopra onde quer, e a eleição de Bergoglio foi uma surpresa tão grande que mesmo os mais céticos observadores do Vaticano, e vários não católicos, perguntaram-se se realmente havia um novo Pentecostes no ar.

 

‘Francisco, reconstrua minha Igreja’

Mas a marca do papado de Francisco, e a origem da atração gravitacional de sua personalidade, não se trata de nenhuma mudança tectônica na Igreja. Pelo contrário, é um compromisso de reformar a Igreja primeiro para servir ao rebanho verdadeiramente e dar um testemunho genuíno e convincente dos ensinamentos de Cristo.

Nas reuniões a portas fechadas que levaram à votação na Capela Sistina, cada cardeal tinha cinco minutos para falar sobre o que considerava necessidades da Igreja e, por extensão, o tipo de papa que deveria ser eleito para liderá-la. Mais de 200 homens podiam fazer essas breves manifestações. Claro, muitos ultrapassaram o tempo e por vezes o discurso se tornou um tanto entediante.

Quando chegou a sua vez, o cardeal Bergoglio foi direto ao ponto, usando menos dos cinco minutos destinados a ele, num discurso simples, mas eletrizante, que chamava a Igreja a “sair de si mesma” e curar-se de um “narcisismo teológico” que deixou o catolicismo incapaz de evangelizar. “No Apocalipse, Jesus diz que está à porta e bate”, disse Bergoglio a seus companheiros eleitores. “Obviamente, o texto refere-se a ele batendo do lado de fora para entrar. Mas penso nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro para que o deixemos sair. A Igreja autorreferencial mantém Jesus Cristo dentro de si mesma e não o deixa sair.”

Em suma, disse ele, a Igreja tem uma escolha à frente: sair de si mesma e evangelizar, sendo fiel ao imperativo do Evangelho, ou permanecer fechada em si mesma e “doente”.

Após 24 horas de conclave, a grande maioria dos cardeais-eleitores escolheu Bergoglio para ser o próximo papa e colocar em prática o plano que ele apresentou. E é isso que ele tem feito, chegando às margens, aos que sofrem ou estão de fora do poder — na Igreja e no mundo mais amplo. Ele enfatizou a ação em detrimento da fala, evocando a advertência do homônimo (provavelmente apócrifa) aos seus seguidores: “Pregue sempre o Evangelho. Se necessário, use palavras.”

 

Um Papa que os tempos exigem

O cardeal Kevin Farrell — que Francisco, em uma de suas várias ações surpreendentes, chamou da Diocese de Dallas a Roma para assumir um importante cargo curial em 2016 — fez um discurso na faculdade de Boston, em 2017, caracterizando os três últimos papas como “tríptico” de estilos. Cardeal Farrell, que lidera o recém-criado Dicastério do Vaticano para os Leigos, a Família e a Vida, disse que João Paulo “trabalhou na descrição e codificação do que a Igreja ensina e vive”. João Paulo queria um novo catecismo, por exemplo, e uma reforma do Código de Direito Canônico. Bento XVI “queria descrever aquilo em que acreditamos e por que acreditamos nisso”, disse Farrell. Quanto a Francisco: “acredito que Francisco trabalha incansavelmente todos os dias não para codificar, nem para explicar no que acreditamos, mas como devemos viver o que acreditamos. É isso que Francisco tenta viver.”

E é por isso que Francisco exige que ele próprio, e o clero que o acompanha — bispos e cardeais primeiro — deem o exemplo. É também por isso que este pontífice gentil, avuncular e divertido é firme ao se dirigir a outros membros da hierarquia. Eles devem evitar “rivalidade, ciúme e facções” e rejeitar os “hábitos e formas de atuação típicas de um tribunal: intriga, fofoca, panelinhas, favoritismo e preferências”. E em todas as coisas não devem ser moralistas rígidos, usando a doutrina para punir um rebanho em cativeiro, mas pastores humildes, misericordiosos e abnegados que saem para encontrar a ovelha perdida, que vão até a periferia para acompanhar os que necessitam. Não é apenas a tarefa dos pastores; é o que vai salvá-los e salvar a Igreja.

Com efeito, outra maneira de olhar o tríptico dos três últimos papas é ver João Paulo como um grande evangelizador, muito parecido com Francisco, que foi a todos os lugares para atender a todos de forma agradável e calorosa. Na verdade, os que atingiram a maioridade sendo católicos no pontificado do papa polaco podem achar engraçado ver a grande novidade associada a Francisco, assim como os que recordam o enorme afeto e aclamação pelo “Bom Papa João” na geração anterior deve ter se perguntado o que “a geração de João Paulo” estava fazendo com suas hosanas pela novidade de sua humanidade.

No entanto, em todos os esforços de proximidade, João Paulo sempre levou a própria Igreja como algo dado. Tendo crescido na época do nazismo e depois do comunismo soviético, Karol Wojtyla acreditava que uma Igreja forte seria unida e inatacável, uma base de operações segura para evangelização. Uma Igreja que enfrentava um mundo hostil não podia mostrar suas diferenças internas. Mas essa mentalidade de fortaleza indiscutivelmente encobriu abusos e desculpou práticas que acabariam minando a própria testemunha que João Paulo fez tanto para aperfeiçoar.

Bento XVI foi mais sensato em relação à necessidade de a Igreja se renovar, mas insistiu que já tinha todas as ferramentas e tradições. Ele não tinha nem a energia nem a habilidade administrativa para abrir a Igreja para reforma e, em vez disso, procurou destacar a tradição, a beleza e a liturgia como o que poderia irresistivelmente ofuscar as falhas óbvias da Igreja. Ou seja, tanto João Paulo como Bento XVI viam-se como pastores que saíram para trazer outros de volta para a sua congregação, do seu próprio jeito.

Francisco, por outro lado, sabe que a prática e a identidade católica já não podem ser consideradas como algo dado, e as instituições da Igreja e a mentalidade estabelecida podem atrapalhar mais do que ajudar. Hoje a Igreja precisa ganhar discípulos através da evangelização de bases, e Francisco acredita que a própria Igreja deve abrir-se e sair, não apenas para ensinar, mas também para ouvir e aprender. Seu pensamento segue o modelo de autoesvaziamento de Cristo na cruz: da mesma forma, a Igreja só se torna verdadeiramente Igreja, e realmente cumpre sua missão, se sair de si mesma e doar-se livre e integralmente — uma renúncia que, paradoxalmente, constrói a Igreja.

As pessoas têm sede de “autenticidade” e principalmente de líderes que falem a verdade ao poder, ainda mais quando são os que têm esse poder…. Por muito tempo, os líderes da Igreja foram vistos como os que apontavam o dedo para todos os outros primeiro — em tendências como o secularismo, o relativismo e o modernismo. Agora temos um papa que parece olhar para si mesmo e para sua Igreja como os primeiros que precisam transformar-se. Principalmente nos Estados Unidos, onde o cristianismo tem sido associado aos piores aspectos da cultura política do país, esse autoexame é convincente.

Onde Francisco nos levará?

Mas a verdadeira pergunta é: será que vai durar? Será que um movimento tão identificado com um homem em particular consegue resistir quando ele sair de cena?

Ainda que pareça prosaico, parte da resposta está nos números. Até o final de 2017, Francisco tinha nomeado quase metade dos 120 cardeais que podem votar na próxima eleição papal. É necessária uma maioria absoluta de dois terços para eleger um papa, então o colégio dos cardeais não está lotado de apoiadores de Francisco. Na verdade, muitos dos cardeais nomeados por Bento XVI e João Paulo estão contentes com a direção na qual Francisco está levando a Igreja. Mas alguns estão consternados, para dizer o mínimo, e outros talvez estejam passivos diante do tumulto causado pelas críticas a Francisco e podem querer como sucessor um candidato com menor oposição, alguém com menor probabilidade de mudar as coisas de lugar. Por outro lado, ainda perdura uma das principais dinâmicas em jogo no conclave de 2013 — um esforço de grande parte dos cardeais, independentemente de sua orientação, de reequilibrar a equação de poder entre as dioceses locais e o Vaticano — e poderia ter um papel importante novamente.

Mas a razão mais convincente para acreditar que o caminho empreendido por Francisco vai continuar depois dele é que na verdade não foi ele quem o definiu, e esta mudança não é exclusivamente para ele, apesar de parecer uma novidade interminável. Quando João XXIII lançou o Concílio Vaticano II, em 1962, ele denunciou os “profetas da desgraça” e aclamou a história como “o grande mestre da vida”, convocando um concílio de natureza profundamente pastoral, mas que também plantou questões teológicas que estavam fermentando há décadas — e isso continuou depois que ele morreu.

Paulo VI, sucessor de João XXIII, é sem dúvida o modelo mais próximo de Francisco como papa, e Francisco demonstrou isso por citar Paulo VI por diversas vezes, em particular louvando sua exortação “Evangelii Nuntiandi” (1975), na qual Paulo VI escreve que “a Igreja é evangelizadora, mas começa evangelizando a si mesma”.

“O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, dizíamos ainda recentemente a um grupo de leigos, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas”, escreveu Paulo. “Será pois, pelo seu comportamento, pela sua vida, que a Igreja há de, antes de mais nada, evangelizar este mundo; ou seja, pelo seu testemunho vivido com fidelidade ao Senhor Jesus, testemunho de pobreza, de desapego e de liberdade frente aos poderes deste mundo; numa palavra, testemunho de santidade.”

 

O caminho do peregrino

Nessa narrativa, Francisco afirmou que os católicos hoje precisam perceber que “não estamos vivendo uma era de mudança, mas uma mudança de era” e que esta mudança e a resposta pastoral dada pela Igreja não começaram em 13 de março de 2013 nem vão acabar na partida de Francisco, agora com 81 anos, por demissão ou morte. “Estamos no meio do caminho da conversão pastoral”, disse Francisco, uma frase que mostra como ele percebe o seu próprio lugar e o sentido de história que muitas vezes havia sido obscurecido desde o Vaticano II — história não como nostalgia por uma tradição, mas como base a partir da qual nos movemos para o futuro com fé.

Francisco, bem como o concílio, não representa uma “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, como advertiu Bento XVI em seu discurso de Natal para a Cúria Romana em 2005. Pelo contrário, é um homem do Vaticano II, que representa o que Bento XVI chamava de “hermenêutica da reforma” e “renovação na continuidade” do Concílio. Como disse Francisco em uma homilia um mês após a sua eleição, os católicos devem ter cuidado ao tentar “acalmar” o Espírito Santo, porque ele “nos incomoda” quando empurra a Igreja para frente. A reação contra o espírito do Concílio é um grande exemplo desse medo e resistência, disse.

Francisco nos lembra de que a Igreja está sempre imersa em história. O próximo papa não pode ser outro Francisco, mas a Igreja que ele lidera e à qual ele serve continuará sua peregrinação.

Fonte: Ihu

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