Todo gesto de amor é um ofício divino, mas como seres humanos temos necessidade de expressar em linguagem simbólica e ritual o que somos, cremos e fazemos. É uma oração preferencialmente comunitária, de louvor e intercessão que organiza de modo peculiar elementos comuns a toda celebração cristã, tais como: leituras bíblicas, salmos, hinos de meditação, orações, músicas e tempos de silêncio, gestos e símbolos, tudo isso em determinadas horas do dia, levando em conta a semana e o tempo litúrgico.

O ofício divino das comunidades cristãs tem sua origem nas comunidades judaicas que fazem suas orações cotidianas três vezes ao dia: de manhã, à tarde e ao meio dia. Por exemplo, de manhã, “antecipar-se ao sol para agradecer e adorar o Senhor” (Sb 16,28); de tarde, a ação de graças a Deus que transformou o caos primitivo e fez surgir a manhã depois de cada noite. Mas vem também da prática de Jesus que orava como judeu e que ensinou ser preciso vigiar e orar sempre com perseverança (Lc 18,1).

Nas primeiras comunidades cristãs (I século), os seguidores de Jesus colocaram os ensinamentos do mestre como ideal. Como encontramos no livro dos Atos dos Apóstolos, eles às nove horas (hora terceira) (cf. Atos 2,1.15) faziam a oração da manhã; depois, às três horas (hora nona) (cf. Atos 3,1-2) faziam a oração da tarde; e, por fim, faziam também a vigília noturna, na comunidade de Jerusalém (cf. At 12,12,5.12), na prisão em Filipos (cf. At 16,25), em Trôade, a liturgia habitual do domingo (cf. At 20,7-11).

Nas comunidades cristãs do II século podemos testemunhar o apelo para o orar sem cessar: ao levantar-se, às nove horas, ao meio dia, às três da tarde, ao cair da tarde e à noite, em particular e também em comunidade, fazer uma oração de louvor a Deus e intercessão por meio de salmos, hinos e cânticos espirituais (cf. At 3,16). A cada hora um sentido em memória da paixão e ressurreição de Jesus. Há gestos simbólicos: voltar-se para o oriente; mãos levantadas; lucernário.

Nas comunidades do IV século reconhecemos a prática de assembléias cotidianas, com o povo (crianças), especialmente de manhã e à tarde, com salmos, antífonas, hinos e orações… Associavam o mistério pascal à hora, tempo… Atuação de ministros… O rito do lucernário. Além disso, vigílias noturnas cotidianas e ocasionais (páscoa, natal, pentecostes, e do domingo).

Aos poucos a prática deixa de ser feita pelo povo e passa a ser feita, apenas, pelo clero, quase sempre de forma recitada, individual, sem a presença do povo e sem qualquer relação com as horas. Alguns fatores contribuíram criar uma barreira entre ofício divino e o povo. Primeiramente, a fixação da liturgia em latim; Em segundo lugar, uma sobrecarga de conteúdos, pela multiplicação de livros e ofícios. Em terceiro lugar, a recitação individual pelo clero sem povo e desligado da hora. Com o tempo, o povo entregou-se às devoções: o Ângelus, três vezes ao dia; o rosário, com 150 ave-Marias;  e o  ofício de Nossa Senhora com hinos da liturgia oficial. Mas a tradição de celebrar em comum foi preservada pelas comunidades monásticas.

Um pouco antes do Concílio Vaticano II, surgiu o movimento litúrgico consciente da necessidade de voltar às fontes da experiência cristã. Esse movimento fará a redescoberta da liturgia das horas. Como exemplo, merece destaque a experiência ecumênica concretizada pela Comunidade de Taizé que resgatou a prática das orações das horas com multidões.

O Concílio Ecumênico Vaticano II valorizará e oficializará, no documento Sacrosanctum Concilium, o resgate da liturgia das horas ou ofício divino. Assim, em 1971, acontece a publicação da primeira versão reformada da Liturgia das Horas e, logo depois, da Instrução Geral à Liturgia das Horas (IGLH), explicitando os princípios teológicos e pastorais.

Fica claro que o específico do Ofício Divino = Liturgia das Horas é fazer memória da páscoa nas horas do dia especialmente manhã, tarde e noite. Nas horas do relógio recordamos as horas de Deus na vida de Jesus e em nossa vida. A interrupção do trabalho pela oração, regularmente, é salutar, liberta o tempo, para que não seja preenchido apenas com o trabalho Somos lembrados/as pelas horas que todo o tempo pertence a Deus. Voltando nossa atenção ao mistério de cada hora, associada às horas de Jesus, permitimos que a vida se ordene segundo os passos de Jesus:

  • De tarde, com o sol poente, fazemos memória da Páscoa de Cristo na ceia e na cruz. Ofício de Ação de graças. Rendemos graças pelas vitórias conquistadas e intercedemos pelas necessidades do mundo.
  • De manhã, com o sol nascente, fazemos memória de Jesus Cristo em sua ressurreição. Ofício de Louvor. Dirigimos a Deus nossa prece de louvor pela luz do novo dia… Renovamos nossa adesão ao Cristo assumindo nossas responsabilidades na preservação do mundo.

O Ofício divino, como todas as ações litúrgicas da Igreja, é memória da Páscoa de Cristo e da páscoa do povo. Ao fazer memória participamos “da mesma piedade do unigênito do Pai, daquela oração que ele dirigiu durante a sua vida terrena e que agora continua, sem interrupção, em toda Igreja e em cada um de seus membros, em nome e pela salvação da humanidade” (IGLH 7).

O Ofício Divino é oração do Povo de Deus: de toda comunidade cristã (cf. IGLH 270). Não é algo reservado aos clérigos e monges, mas pertence a cada comunidade, ou um pequeno grupo, ou mesmo uma pessoa, o faz como Igreja, em nome de Jesus, pela humanidade (IGLH 7). É fonte de piedade e alimento da oração pessoal (cf. SC 90 e 14)

A Reforma da Igreja promovida pelo Concílio Vaticano II tem dimensões teológica, pastoral e espiritual. Suscita, portanto, uma reorganização dos diversos elementos que compõem o rito, que tem como finalidade levar o povo de Deus a participar do mistério pascal de Cristo, nas horas do dia. A Sacrosactum Concilium fala de uma participação: ativa; interna e externa; consciente; plena e frutuosa.

A Sacrosanctum Concilium deixa claro que a Igreja não deseja e nem pretende impor uma forma rígida e única de liturgia (cf. SC 37-40) devido a necessidade da inculturação. Aplicando este princípio ao Ofício Divino: foi elaborado na Igreja da América Latina o Ofício Divino das Comunidades levando em conta três referências:

  1. A TRADIÇÃO DA IGREJA, de celebrar em determinadas horas, uma oração de louvor e intercessão, com salmos, leituras bíblicas, hinos e orações.
  2. A REALIDADE DA AMÉRICA LATINA que, sobretudo a partir de Medellín, forjou um novo jeito de ser Igreja pelas Comunidades Eclesiais de Base, ligando de forma inseparável liturgia e vida.
  3. A PIEDADE POPULAR, buscando realizar a “mútua fecundação” entre liturgia e piedade do povo, correspondendo “aos anseios de oração e de vida cristã”.

O ponto de partida para a elaboração do Ofício Divino das Comunidades foi a experiência da Comunidade de Ponte dos Carvalhos em Pernambuco, por iniciativa de um padre diocesano, Geraldo Leite, compositor, artista e, acima de tudo, pastor.

Fonte:

Rede Celebra

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