“A Igreja, que prega a igualdade, ainda é um dos últimos bastiões da discriminação sexual”

Uma denúncia publicada no caderno mensal Igreja Mundo Mulher do jornal L’Osservatore Romano apresenta depoimentos “sob sigilo” de Irmãs tratadas como servas por cardeais e bispos.  Assunto seríssimo, por tocar a vida e missão da Igreja e seu testemunho no mundo, tanto o clericalismo quanto o machismo necessitam ser vistos de frente. Isso se a Igreja quiser, de fato, radicar seus passos de hoje nas pegadas do Peregrino de Nazaré.

Por Paolo Rodari

Tradução: Luisa Rabolini

No dia em que Francisco se declara “preocupado com a persistência de uma mentalidade machista” na Igreja, a revista dirigida por Lucetta Scaraffia escreve que nas casas dos bispos e outros prelados as religiosas realizam “um serviço doméstico realmente pouco reconhecido”. “Elas se levantam de madrugada para preparar o café-da-manhã”, e vão dormir depois de “servir o jantar, arrumar a casa, lavar e passar a roupa”, trabalhando “sem horário regulamentado”, com uma “retribuição aleatória, muitas vezes bastante modesta”. “Elas não trabalham com contrato”, acredita-se que ficam ali “para sempre, que não devem ser estipuladas condições”. Enquanto, “raramente são convidadas a se sentar à mesa que servem”.

Há bastante tempo ouviam-se vozes denunciando o machismo das hierarquias. “A Igreja, que prega a igualdade, ainda é um dos últimos bastiões da discriminação sexual”, afirma a irmã Joan Chittister, colunista do Huffington Post. “Uma maior presença feminina não subordinada poderia rasgar o véu de silêncio machista que por muito tempo no passado cobriu a denúncia dos crimes”, escreveu a própria Scaraffia sobre a pedofilia no clero. Anuradha Seth, conselheira econômica do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, falou sobre o “maior roubo da história”. Qual? A discriminação salarial que atinge as mulheres em geral. Para a revista do Vaticano suas palavras descrevem bem o que está acontecendo na Igreja, uma situação que tem origem em raízes profundas: “Muitas pessoas religiosas têm a sensação que esteja se fazendo muito para revalorizar as vocações masculinas, mas muito pouco para as femininas”.

A Irmã Marie fala protegida pelo anonimato. Ela chegou a Roma há vinte anos vinda da África. Explica que as irmãs muitas vezes têm “medo” de falar porque trazem na bagagem “histórias muito complexas”. Há, por vezes, “uma mãe doente cujos cuidados foram pagos pela congregação da filha, um irmão mais velho que teve a possibilidade de realizar seus estudos na Europa graças à superiora”. Em suma, as religiosas “se sentem em dívida, amarradas, e então se calam”. Algumas “tomam tranquilizantes para suportar esta situação de frustração”.

Claro, a culpa não é só dos cardeais e dos bispos. Às vezes, são as próprias superioras que se dobram a essa lógica. Continua a Irmã Marie: “Eu falei com um reitor de universidade impressionado com a capacidade intelectual de uma freira que tinha uma licenciatura em teologia. Ele queria que continuasse seus estudos, mas a superiora se opôs porque, segundo ela, as Irmãs não devem se tornar orgulhosas”.

“O clericalismo mata a Igreja”, afirma a irmã Paule, religiosa com cargos importantes, que apresenta a mais incrível denúncia: “Eu conheci irmãs que tinham servido durante trinta anos em uma instituição da Igreja e que, quando ficavam doentes, nenhum dos sacerdotes que serviam ia visitá-las. De um dia para o outro eram mandadas embora sem uma única palavra”. Isso confirma que as religiosas são vistas como “voluntárias das quais é possível dispor à vontade” em favor de “verdadeiros abusos de poder”.

Para uma renovação real, como escrevem em As mulheres e a reforma da Igreja Cettina Militello e Serena Noceti (EDB), as mulheres são um motor indispensável. No entanto, o machismo ainda está presente. Mesmo exegetas ilustres se aventuraram eminterpretações machistas dos textos bíblicos. Entre tantos exemplos, pode ser citado o de uma exegese da Carta aos Romanos, onde Paulo fala de “Andrônico e Junia”, “apóstolos insignes”. Em várias versões Junia foi traduzido como Júnias, para descaracterizar a ideia de que uma mulher fosse um apóstolo de Cristo. Um bom exemplo, escreve L’Osservatore “de como as mulheres com as autoridades tenham sido tornadas invisíveis”.

FONTE: IHU

 

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