O elogio da sede

(Síntese da 1ª meditação do P. José Tolentino Mendonça no retiro do papa)

 

O papa e os colaboradores da Cúria Romana, chegados na tarde deste domingo à Casa Divino Mestre em Ariccia, próximo do Vaticano, escutaram o pregador português P. José Tolentino Mendonça comentar a primeira parte do excerto do Evangelho segundo João dedicado ao encontro entre Jesus e a samaritana no poço de Jacó (4, 5-24).

Jesus que, sentado no poço, pede à samaritana «dá-me de beber», maravilha-nos, deixa-nos desarmados pelo espanto. Um judeu que fala com uma mulher da Samaria, habitada por dissidentes com os quais os judeus não estavam de acordo, surpreende-nos como Jesus que se dirige a nós para nos pedir: “Dá-me aquilo que tens. Abre o teu coração. Dá-me o que és”.

Na primeira meditação do retiro, dedicado ao tema “Elogio da sede”, o poeta e biblista sublinhou que o pedido de Jesus provoca em nós perplexidade e desconcerto, porque «somos nós aqueles que vão beber» do poço, e sabe-se que a sede é fadiga e necessidade. Jesus está cansado da viagem e está sentado junto ao poço. E no Evangelho aqueles que estão sentados para pedir são os mendigos. Também Jesus mendiga, o seu corpo «experimenta o cansaço dos dias: desgastado pelo cuidado amoroso pelos outros». Não é só o ser humano que é mendigo de Deus. «Também Deus é mendigo do ser humano

O P. Tolentino prosseguiu a introdução, intitulada «Aprendizes do espanto», assinalando que, com a sua debilidade, Jesus «veio procurar-nos». «No mais abissal e noturno da nossa fragilidade, sentimo-nos incluídos e procurados pela sede de Jesus». Que não é uma sede de água, é maior: «É sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contacto com as nossas feridas». Ele pede-nos: «“Dá-me de beber”. Dar-lhe-emos? Daremos o bem uns aos outros?», questionou.

Reconheçamo-nos chamados porque é Deus que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro. «Por muito grande que seja o nosso desejo, ainda maior é o desejo de Deus.» E quando Jesus diz à mulher a verdade da sua vida, «isso não a humilha nem a paralisa. Pelo contrário, sente-se encontrada, visitada pela graça, libertada pela verdade do Senhor».

Sintamo-nos abraçados, concluiu o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, porque «Deus sabe que nós estamos aqui». E nestes dias, «desaprendamos, para aprender essa graça que tornará possível a vida dentro de nós». No nosso íntimo digamos: «Senhor, estou aqui à espera de nada». Que é como quem diz: estou somente à tua espera, «à espera daquilo que Tu me dás».

A partir desta segunda-feira até sexta-feira os dias do papa e dos seus colaboradores abrem às 7h30 com a celebração da missa, seguida de uma primeira meditação, às 9h30. Pelas 16h00 decorre a segunda meditação (exceto no último dia), que precederá a oração litúrgica de Vésperas e a adoração eucarística.

Retiro quaresmal ao papa Francisco e à Cúria Romana | Ariccia, Itália | 18.2.2018 | D.R.

 

 

Alessandro Di Bussolo
In Vatican News Trad.: SNPC
Imagem: P. Tolentino Mendonça prega retiro quaresmal ao papa Francisco e à Cúria Romana | Ariccia, Itália | 18.2.2018 | D.R.
Publicado em 23.02.2018
(os grifos são nossos)
Fonte:

Primeira meditação da Quaresma 2018: “Aprender a ‘desaprender'”

De autoria do sacerdote português José Tolentino de Mendonça, e intitulada “Aprendizes do estupor”, a reflexão propôs citações de Simone Weil, Eduardo Galeano, Tolstoi e Fernando Pessoa.

Cidade do Vaticano

Como anunciado por ele mesmo após a oração do Angelus e com seu tuíte do dia, o Papa Francisco deixou o Vaticano domingo (18/02) e se dirigiu a Ariccia, sudeste de Roma, aonde por uma semana, permanecerá em retiro espiritual.

O micro-ônibus do Vaticano deixou a Casa Santa Marta às 16h, levando o Papa e seus colaboradores mais próximos para a casa dos padres Paulinos ‘Divino Mestre’, aonde até sábado, (24/02) serão feitos os exercícios espirituais de Quaresma.

A primeira meditação, por obra do sacerdote português José Tolentino de Mendonça, teve como título “Aprendizes do estupor”, sugerido pelo Evangelho de João. No texto, Jesus diz à samaritana apenas três palavras: “Dá-me de beber”. Assim como ela se surpreende com tal pedido, nós também ficamos desconcertados – antecipou o pregador – porque estas são as palavras que Jesus dirige a nós:

“ Dá-me o que tem, abre seu coração, dá-me o que é ”

O cansaço de Jesus

Deste estupor, a meditação passa ao ‘cansaço de Jesus’ e ao nosso. Podemos entender o diálogo de Jesus com a samaritana somente se mantivermos diante dos olhos o dom sem limites que Jesus faz de si na cruz. Em ambas as circunstâncias, sobre o sol diz-se que é meio-dia, a hora sexta. É a hora central do dia, o meio do tempo, que marca o antes e o depois. Não é simplesmente a indicação cronológica, mas o símbolo da passagem de Jesus em nós. Por isso, explicou o sacerdote, mesmo que o relógio assinale outro horário, muitas vezes é meio-dia em nossas vidas. Cada vez que nascemos é meio-dia.

 

Ele veio nos procurar

Quando Jesus pede ‘Dá-me de beber’, a sua sede não se materializa na água. É uma sede maior. É sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contato com os nossos desertos, com nossas feridas. Nós devemos nos comportar com confiança. Temos que nos reconhecer como ‘chamados’.

 

Conhecer o dom de Deus

É o Senhor que toma a iniciativa de vir ao encontro de nós. Ele chega antes ao poço. Quando a samaritana entra em cena, Jesus já está lá, sentado. Quanto maior é o nosso desejo, o de Deus é sempre maior. Citando um trecho do ‘Livro dos abraços’ do escritor uruguaio Eduardo Galeano, Padre Tolentino completou:

“Deus sabe que nós estamos aqui”

Nossa oração sobe até Deus

Com novas citações, de Tolstoi a Fernando Pessoa, a meditação sugeriu os participantes a “desaprender”:

Desaprendamos para aprender aquela graça que tornará possível a vida dentro de nós. Desaprendamos para aprender até que ponto Deus é a nossa raiz, o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa contemplação, a nossa companhia, a nossa palavra, o nosso segredo, a nossa escuta, a nossa água e a nossa sede”.

Concluindo, Pe. Tolentino exortou os participantes:

Digamos no nosso íntimo, com toda a verdade de que somos capazes: ‘Senhor, estou aqui à espera do nada’. Ou seja, estou apenas à espera de ti, à espera do que és, à espera do que me dás’.

(os grifos são nossos)

Fonte:

Vatican News

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