Quem são os millennials? Quais são seus valores e anseios?

(Um relato simplificado)

Trata-se, sem qualquer pretensão abrangente e rigorosa, dos jovens nascidos nos anos 1980 e que se tornaram maiores de idade depois do ano 2000, jovens que têm cerca de 25-35 anos. São medianamente instruídos, leem muito, estão muito conectados, mas não são necessariamente dependentes da web, sabem usar as potencialidades da internet. Cosmopolitas, sentem-se cidadãos do mundo, falam e escrevem em uma ou mais línguas estrangeiras, consideram a viagem como uma oportunidade de conhecimento, e a mobilidade, como um recurso.

Salvo algumas exceções, eles não são competitivos e têm uma ética social muito forte: opõem-se às injustiças, experimentaram por primeiro os desastres do capitalismo selvagem. Alguns caíram na tentação e começaram a imitar os seus pilares na própria vida, muitos tomam distância dele. A precariedade é um fato constitutivo da vida, muitas vezes sofrida, às vezes procurada: eles não conhecem postos fixos, tutelas e garantias.

Possuem uma sensibilidade ecológica profunda, porque a Terra é um bem precioso e porque, na sua vida, as mudanças climáticas são o presente e o temível futuro.

Muitos têm relações sentimentais com pessoas originárias de outras regiões ou de outros países, conhecidas muitas vezes longe de casa. Muitos coabitam, uma parte tem relações temporárias, alguns constroem laboriosamente relações à distância. Pouquíssimos são casados. Menos ainda são aqueles que têm filhos.

A ética social, muitas vezes, é acompanhada por um forte subjetivismo: grande tolerância à diversidade, defesa da acolhida, eles configuram e vivem a vida como acham certo, de acordo com a própria visão de mundo, a liberdade é absoluta e tem como único limite a liberdade do outro.

A fé é um fenômeno subjetivo: a maioria acredita em Deus, mas de acordo com uma concepção própria que, frequentemente, exclui uma teologia e que beira quase abordagens deístas ou agnósticas: uma divindade provavelmente existe, provavelmente é boa, mas não se sabe realmente quem ou o que seja. Jesus foi um homem bom, um modelo moral. Mas, se fosse filho de Deus, não se sabe. É provável, mas não é certo. No entanto, a religião diz pouco respeito à vida.

Quase todos seguiram os percursos clássicos da iniciação cristã, mas abandonaram mais cedo ou mais tarde a prática da fé, e, em nível de cultura religiosa, a confusão não é pouca. Se, na concepção da sociedade, eles estão substancialmente próximos da doutrina social da Igreja (muitas vezes sem saber), no campo sexual, eles não vivem mais a distância ou a contestação contra a moral tradicional, porque simplesmente não se colocam mais esse problema.

A Igreja é objeto de críticas duras, tanto pelo escândalo da pedofilia, quanto pela incoerência de muitos de seus filhos, e ainda por experiências pessoais pouco felizes. Estimam o Papa Francisco pela atenção ao ser humano ferido e pela insistência que ele usa ao falar de pobreza necessária à Igreja, mas muitas vezes param naquilo que a mídia relata, sem aprofundar. As figuras religiosas, especialmente os sacerdotes, não são consideradas com benevolência.

As exceções são representadas por poucos membros de movimentos eclesiais, que têm identidades mais marcadas e que são objeto (de forma certa ou errada) de juízos pouco generosos por parte de quem não convive com eles.

Para conhecer a geração Millenneals:

Diante desse quadro: do ponto de vista da fé cristã, devemos considerar os millennials” como uma “geração perdida”?

O que fazer para aproximá-los da experiência cristã? Como aproximá-los, sabendo que muitos se deslocam frequentemente? Portanto, os instrumentos tradicionais não serviram e não servem. A hemorragia juvenil continua e a geração pós-millennials, por enquanto menos móvel apenas por razões de idade, não parece estar encaminhada para outros destinos.

A Igreja, entre atividades e encontros pouco úteis e documentos jamais lidos por eles, pode se limitar a alguns retoques no caminho de iniciação cristã. Ou será capaz de ousar, de derrubar velhas práticas, modos, esquemas que levaram a resultados substancialmente tão pífios? Há um papa que impulsiona a tentar novas estradas, mas por que temos tanto medo de percorrê-las?

Existe alguém que se interessa pela geração millennials, ou a resignação é tal que não resta nada mais do que a resistência no forte, talvez lamentando os bons velhos tempos? É possível experimentar linguagens novas, meios novos, que saibam minar planos pastorais detalhados que permanecem como letra morta ou que são tremendamente ineficazes?

E se a ação não é possível, ou não se quer tentá-la, na convicção de que é tarde para os millennials, como evitar que tudo isso aconteça com os adolescentes de hoje, jovens de amanhã? No entanto, não se reapresentam cansativamente as mesmas fórmulas, as mesmas propostas?

E se a inação não tem alternativas, por que não fazer, ao menos, um sério, profundo, verdadeiro exame de consciência que permita entender o que, nas últimas décadas, deu errado, sem simplesmente acusar a secularização, o bem-estar, o mundo, o Concílio e afins?

Dir-se-á: o testemunho pessoal é o melhor meio. Certamente, mas ele não é mais suficiente. O campo é vasto demais. É preciso outra coisa. Há o Espírito Santo e, no fim, Ele vem de qualquer forma, onde quer que seja e para quem quer que seja.

Como pessoas de fé e comprometidas com a caminhada de seguimento de Jesus e o anúncio-testemunho do Reino, estamos dispostos a nos aproximar da geração millennials?

(Baseado no texto do professor Sergio Di Benedetto, no qual analisa o contexto italiano da geração millennials, e que foi traduzido e publicado pelo IHU em 2016. Adaptação livre e grifos do prof. Edward Guimarães.)

Fonte:

IHU

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