Introdução

Para que uma ética seja cristã, necessita ir à fonte, que é Jesus. Pelos relatos neotestamentários e pelo testemunho da Igreja, constata-se que a ética de Jesus se pautava na defesa da vida digna e da liberdade de todos os seres humanos. Jesus dedicava especial atenção e tempo aos pequeninos, aos caídos à beira do caminho, aos que não tinham voz nem vez na sociedade do seu tempo.

Jesus sempre surpreendia: “Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: ‘De onde vem tudo isso? Onde foi que arranjou tanta sabedoria? E esses milagres que são realizados pelas mãos dele? Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria?’ […] E ficaram escandalizados por causa de Jesus” (Mt 13,53-57).

Jesus fez ver que a religião, a política e a economia do seu tempo não eram capazes de suscitar dignidade para todos. Seu olhar e sua atenção privilegiada voltavam-se para os preteridos pelas instituições oficiais.

Ser cristão implica praticar a ética ensinada e testemunhada por Jesus. É isso que vem ocorrendo hoje?

Ainda que não nos seja possível resolver todos os problemas do mundo, a (não)vida do outro deveria tocar a nossa vida. Sempre há condição de ser presença para o outro. Quem age assim faz que o mundo seja melhor. O compromisso com o próximo necessitado é razão de ser de quem defende a ética cristã.

Enquanto estivermos voltados para nós mesmos, seremos sacerdotes e levitas, no máximo pessoas cumpridoras do dever que, porém, passam longe do outro necessitado – identificado com Cristo (Lc 10,29-37). Quem abraça a ética de Jesus se volta necessariamente para fora: “quando foi que te vimos com fome e sede?” (Mt 25,38s). “Todas as vezes que fizestes isso a um de meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).

Nosso tempo é fortemente marcado pelo narcisismo autorreferencial, oposto à alteridade. Propagar o valor do dom e do serviço, eis o desafio de quem crê na ética de Jesus!

 

  1. Pontos de destaque da ética de Jesus

Jesus causava inquietação por onde passava. Era sinal de contradição: felizes os pobres, os que agora têm fome; os que agora choram; os que são odiados, insultados e amaldiçoados por causa do Filho do homem… (Lc 6,21s).

O apóstolo Paulo expressou em profundidade esse sinal de contradição ao bendizer a Deus, afirmando: “Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação! Ele nos consola em todas as nossas tribulações, para que possamos consolar os que estão em qualquer tribulação,através da consolação que nós mesmos recebemos de Deus” (2Cor 1,3ss).

São João Crisóstomo é, igualmente, incisivo na defesa da coerência entre a vida prática e as celebrações dos cristãos: “Não era de prata aquela mesa, nem de ouro o cálice com o qual Cristo deu seu sangue aos discípulos. […] Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que ele esteja nu: e não o honres aqui, na igreja, com tecidos de seda, para depois tolerar, fora daqui, que ele morra de frio e nudez. Aquele que disse: ‘Isto é o meu corpo’, disse também: ‘Tive fome e não me destes de comer’; e: ‘O que deixastes de fazer a um destes pequeninos, o deixastes de fazer a mim’. Aprendamos, portanto, a ser sábios e a honrar o Cristo como ele quer, gastando as riquezas pelos pobres. Deus não precisa de cabedais de ouro, mas de almas de ouro. Que vantagem há em que sua mesa esteja cheia de cálices de ouro, quando ele mesmo morre de fome? Primeiro ele mesmo, o faminto, se sacia, e então, com o supérfluo, ornarás sua mesa!”

Os apóstolos e os Padres da Igreja são excelentes mestres em interpretar e ensinar a ética de Jesus. Beber desse poço é saudável para a vida cristã.

A ética de Jesus propõe a generosidade como pauta de vida: “ninguém tem maior amor do que quem dá a vida” (Jo 15,13). A essência da proposta de Jesus é o amor! As primeiras comunidades cristãs compreenderam perfeitamente isso até mesmo na vida do dia a dia: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles” (At 4,3).

 

  1. Insistências éticas do papa Francisco à luz da ética de Jesus

Em 2013 a Igreja foi surpreendida pelo sopro vivificador – não sempre e por todos logo reconhecido – do Espírito Santo com a chegada de um papa “vindo de longe”: Francisco. A ética de Jesus vem sendo insistentemente lembrada em palavras e ações por este papa.

“Jesus, o evangelizador por excelência e o Evangelho em pessoa, identificou-se especialmente com os mais pequeninos (Mt 25,40). Isso recorda-nos, a todos os cristãos, que somos chamados a cuidar dos mais frágeis da terra. Mas, no modelo ‘do êxito’ e ‘individualista’ em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida” (EG 209).

À nossa volta não têm faltado iniciativas nos campos social, político e econômico para aprofundar o quadro de marginalização. Em nome da “ética”, subterfúgios têm sido praticados para fazer valer ações marginalizadoras de contingentes enormes da população. O alerta do papa Francisco chega em muito boa hora, também ao propor um dia do ano a todas as pessoas de boa vontade para refletirem sobre a ética do evangelho na defesa efetiva dos pobres. Em sua mensagem (n. 5) para o Primeiro Dia Mundial dos Pobres, celebrado em 19/11/2017, lê-se:

Sabemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, para se poder identificar claramente a pobreza. E todavia esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos vincados pelo sofrimento, a marginalização, a opressão, a violência, as torturas e a prisão, pela guerra, a privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e o analfabetismo, pela emergência sanitária e a falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e a escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!

Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes setores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade.

 

  1. O essencial e o porquê de ser tão difícil praticar a ética de Jesus

Jesus causava inquietação por onde passava. A tendência do ser humano é lutar para conquistar posições para si, pouco lhe importando o que se passa com os outros. Nesse trajeto, os mais capazes, os mais competentes, os mais espertos reservam seu lugar ao sol. Quanto aos demais, constroem-se muros, para deixá-los do outro lado, ou fica-se na indiferença. Na época de Jesus, o império romano havia estendido tentáculos mundo afora; enquanto alguns viviam muito bem, a grande maioria passava necessidades. Jesus, anunciando o reino de Deus, traz inquietação aos que usufruem desse tipo de situação.

No reino de Deus, anunciado por Jesus, há lugar para todos – a começar pelos mais fragilizados. A condição para fazer parte desse reino é estar disposto a ser dom para os outros.

Jesus é e ensina a ser sinal de contradição. A ética por ele defendida – que ajuda a iniciar a concretização, já agora, do reino de Deus – sustenta princípios de justiça que atendam às necessidades concretas das pessoas. Não é uma moral que defende a justiça retributiva, mas a justiça equitativa. Não a cada um segundo o tempo de seu trabalho, mas a cada um segundo o atendimento de suas necessidades. Mateus 20,1-16 é lapidar: os trabalhadores recebem (todos) o mesmo salário, suficiente para atender às necessidades de cada um.

Outra viga mestra que sustenta a ética de Jesus é a compaixão. Na parábola do Pai amoroso, vê-se com nitidez isso: “O pai disse (ao filho mais velho): ‘Filho, você está sempre comigo, e tudo o que é meu é seu. Mas era preciso festejar e nos alegrar, porque esse seu irmão estava morto, e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’” (Lc 15,31s).

Para Jesus é a misericórdia que conta. A parábola do bom samaritano traduz com perfeição essa proposta. Os personagens que vão se sucedendo ao longo da narrativa de Lc 10,30-37 têm estas atitudes éticas: assaltantes – o que é teu é meu; sacerdote e levita – o que é meu é meu; samaritano (estrangeiro) – o que é meu é teu também. O ensinamento que emana dessa parábola ressalta que o amor é prática concreta.

Nosso tempo é marcado por uma sociedade líquida e defensora de comportamentos leves e superficiais, na qual o pensamento é débil. Somos continuamente bombardeados por um modo de ser hedonista. Necessitamos de permanentes novidades, alimentadas pela publicidade. O modo de vida pautado em fundamentos que exigem fidelidade ao longo do tempo é questionado pela velocidade da contínua mudança de (des)valores.

Prega-se a ética para fora, enquanto na vida privada há hedonismo a comandar as ações. As belas teorias não correspondem às práticas de quem as enuncia. Exige-se com facilidade o bom comportamento alheio, sem a preocupação de vivenciar antes, pessoalmente, o que se requer dos outros.

Em tempos mais recentes, à falta de ética de uns soma-se o fingimento oportunista de outros, reverberado pelos grandes meios de comunicação, o que leva ao agravamento da situação de grandes contingentes da população. Propaga-se destemidamente a importância de ser gestor eficiente em vez da defesa do exercício do serviço generoso, no atendimento às necessidades básicas das pessoas, por parte de quem governa.

A lei que prega o “levar vantagem em tudo” tem feito largo caminho, passando a integrar o dia a dia da maior parte das pessoas. No dizer do papa Francisco: “Quando as pessoas se tornam autorreferenciais e se isolam na própria consciência, aumentam a sua voracidade” (LS 204).

A história da humanidade registra esse tipo de comportamento já em tempos bem distantes do nosso. Veja-se, por exemplo, a passagem da vinha de Nabot (1Rs 21,1-16), traduzindo a ganância que produz injustiça.

A tão propalada meritocracia legitima a moral da desigualdade. A lógica do evangelho é a da vida para todos – e não apenas para os que acham ter mais méritos. A ótica do filho mais velho, da parábola há pouco lembrada, é a do mérito: “Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua; e nunca me destes um cabrito para eu festejar com meus amigos” (Lc 15,29). Ele despreza o irmão mais novo por considerá-lo fracassado e por ter merecido o que lhe aconteceu. O pai apresentado nessa parábola, ao contrário, defende que nenhum de seus filhos é passível de desconsideração, seja qual for seu passado. A ética de Jesus desperta a alegria em todos os que estavam perdidos e foram reencontrados.

Em tempos de valorização do vazio, do efêmero e da leveza superficial – temas tão bem estudados na obra de Gilles Lipovetsky –, o que se tem como ético facilmente transforma-se em bolha de sabão. Decisões duradouras e exigentes são logo preteridas.

Hoje há a tendência de valorizar comportamentos mercantilizadores da vida. A conversa regeneradora em casa acaba sendo substituída pela ida ao psicólogo, a caminhada diária para a manutenção da saúde é, não raro, trocada pela academia – ao menos para os que têm condições financeiras. Da gratuidade passou-se ao que é pago! Nesse caminho, a ética do evangelho acaba tendo grandes obstáculos diante de si.

Alguém poderia pensar: mas, então, quem consegue viver esse tipo de ética proposta por Jesus?

Felizmente há os que creem ser possível e, malgrado as dificuldades, dedicam-se a cultivar valores que ajudam a construir esse caminho. Afinal, Jesus deu o exemplo e convida os que desejam segui-lo a fazer o mesmo, prometendo-lhes assistência: “Ide e ensinai a observar tudo o que vos ordenei. Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

 

Sobre o autor:

Pe. Darci Luiz Marin é presbítero da Congregação dos Paulinos. Mestre em Teologia Moral (pela Academia Alfonsiana de Roma) e coordenador de conteúdos dos periódicos da Paulus Editora.

 

Fonte:

Vida Pastoral

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