Este encontro responde a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza cada vez mais longe da maioria: terra, teto e trabalho. É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista. Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a doutrina social da Igreja. (Papa Francisco)

 

O Dia Internacional do Trabalhador, celebrado ontem, desde suas origens é marcado por lutas pelo reconhecimento da dignidade do ser humano.  Nada mais cristão que essa luta, pois a práxis de Jesus de Nazaré se dá assim: retirando a Lei do centro e colocando em seu lugar a pessoa, sobretudo a marginalizada, a excluída.

É neste contexto que trazemos à baila a luta de pessoas por Terra, Teto e Trabalho em Nova Serrana – MG.

Na última quinta-feira, 26 de abril de 2018,  mais de cem famílias foram arrancadas de suas casas por centenas de policiais militares, que, segundo o relato dos moradores, chegaram em carros, caminhões, retroescavadeiras, helicóptero, fortemente armados, utilizando drones e amedrontando os trabalhadores. Idosos e crianças assustados, mulheres grávidas, todos, sem qualquer alternativa, tiveram seus pertences levados, sem que soubessem para onde. Ouvimos relatos de uma senhora diabética afirmando terem levado inclusive seus medicamentos, o que fez com que ela tivesse complicações sérias… Outra, uma jovem senhora grávida de oito meses, afirmou que o bercinho do bebê foi jogado no caminhão com todas as suas coisas e, agora, não tem nada para acolher o neném que está para chegar.

Por não terem outra alternativa, após o despejo essas famílias acamparam como puderam às portas da fazenda, de onde foram tiradas. Entretanto, novamente foram despejadas. Tiveram que marchar até a beira da rodovia. Novo despejo. O terceiro em dois dias! Covardemente, sem qualquer alternativa digna, as pessoas eram enxotadas como cães sarnentos.

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As famílias em questão integram a Ocupação Nova Jerusalém, comunidade que se constituiu na fazenda Canta Galo, em Nova Serrana/MG. Um casal de moradores nos contou que há cerca de cinco anos, estando desempregados e sem ter como pagar o aluguel, resolveram fazer um barraco perto do local onde esse senhor pescava. Com crianças pequenas, foram ficando por ali em um terreno que nem era cercado. Aos poucos, outras famílias vieram. Atualmente, alguns trabalhavam em Nova Serrana, mas as famílias plantavam diversos tipos de hortaliças, que vendiam na feira da cidade. Trabalhadores sem teto, sem terra e sem trabalho em busca de dignidade foram criminalizados, porque neste país a pobreza é muitas vezes criminalizada.

Sinal disso é o arrombamento sofrido em suas casas, em suas vidas; em oposição à ordem judicial. Os relatos ouvidos vão, pouco a pouco, derramando a história e a dor, a humilhação. Uma senhora bastante idosa nos contou que desde criança trabalha com os pais na lavoura. Agora, quando já nem consegue se levantar muito bem, tem que dormir no frio, no chão, mas o pior de tudo, “o pior, minha filha, é a gente ser xingado de vagabundo!” e quanta dor rola dessas palavras, de uma senhora já velhinha, que nunca, nunca!, pode gozar de férias!

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Toda essa violência, moral e física, ocorreu por decisão liminar de reintegração de posse da juíza da Vara Agrária de MG. Segundo as narrativas ali colhidas, em tempos do governo Anastasia (PSDB), essa área – belíssima, aliás, circundada pelo Rio Pará, afluente do São Francisco, na qual brotam cinco nascentes – foi entregue a um consórcio formado por sete prefeituras para que ali se construísse um aterro sanitário! Área – como vimos! – que deveria ser de preservação permanente, com mata nativa. Acontece que o atual  Governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), autorizou a liminar em apoio ao Prefeito de Nova Serrana, Euzébio Lago (PMDB) e aos demais prefeitos do centro-oeste mineiro que formam o Consórcio Intermunicipal de Aterro Sanitário.

No primeiro momento, ao serem retiradas as famílias, o cunhado do prefeito de Nova Serrana, conforme os depoimentos, chegou ali com um caminhão de gado bovino, que devastou suas plantações. E o lamento que se ouvia era “boi vale mais que gente”. Depois, quando lhes foi asseverado que na área em que conviviam em harmonia com a natureza, buscando cuidar do meio ambiente e produzir sem agrotóxicos, seria instalado um aterro sanitário, o clamor foi ainda maior: “lixo vale mais do que gente”.

Encontramos essas famílias agrupadas ao lado do Rio Pará. Não havia sequer barraca para todos, apesar das doações que vão chegando das pessoas de bom coração e boa vontade. Grávidas dormem em velhos carros, que alguns possuem, para ter um pouco de comodidade. Crianças e idosos tem prioridade nas barracas. Os outros, mesmo doentes, se ajeitam como podem…

A situação de vulnerabilidade social extrema em que essas pessoas se encontram, tão perto de nós, clama aos céus e à terra. E o pior é saber que essa é só uma gota no oceano de injustiças que inunda nossas vidas.

Professora Tânia Jordão.

 

 

Outras informações, inclusive sobre a ação de pistoleiros amedrontando as famílias, pode-se obter no vídeo abaixo, retirado do youtube:

 

 

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