O papa Francisco pediu aos jovens que falassem com sinceridade, dando-lhes carta branca para enfrentar os temas que quisessem e enfrentá-los da maneira que quisessem. E os 300 jovens de todo o mundo que vieram a Roma para participar do encontro pré-sinodal (como parte dos preparativos para o grande momento de outubro), além de outros 15 mil contemporâneos que participaram através de grupos no Facebook, não se fizeram de rogado.

 

“Queremos uma Igreja menos moralista e que admita seus erros”, afirmam os jovens reunidos em Roma

 

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O documento final redigido no final do encontro que começou no dia 19 de março de 2018 tem 15 páginas. Nele os jovens não hesitaram em expressar suas preocupações e desejos, suas expectativas e necessidades e também suas críticas a uma Igreja que “parece muito severa” e “frequentemente associada a um moralismo excessivo”, da qual esperam não receber “respostas diluídas ou pré-fabricadas”.

O texto foi entregue ao Papa no dia 25 de março de 2018 por dois jovens do Panamá, local onde acontecerá a próxima Jornada Mundial da Juventude, em janeiro de 2019. Ele foi concebido como um resumo de todas as contribuições dos participantes, com base no trabalho dos 20 grupos linguísticos e outros seis grupos formados nas redes sociais.

O texto “foi compartilhado e redigido com um método completamente sinodal que é uma das fontes que contribuirão para a elaboração do Instrumento de trabalho para o Sínodo” de outubro, explicou o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário geral do Sínodo dos Bispos, em uma entrevista coletiva.

Os signatários do documento esperam que “a Igreja e as outras instituições possam aprender com o processo deste encontro pré-sinodal e ouvir as vozes dos jovens”, que, por exemplo, admitem a “grande discordância” que há entre eles, “tanto na Igreja como no mundo, em relação aos ensinamentos” que estão no centro dos debates contemporâneos.

Há “um debate aberto” sobre as diversas questões, “independentemente do nível de compreensão dos ensinamentos da Igreja”. Há, por um lado, aqueles que de qualquer jeito desejam fazer “parte da Igreja”, mas gostariam que “mudasse seus ensinamentos ou, pelo menos, oferecesse uma maior explicação e formação sobre essas questões”. Por outro lado, há muitos jovens católicos que “aceitam esses ensinamentos e encontram neles uma fonte de alegria”, razão pela qual “desejam que a Igreja não apenas se mantenha firme em seus ensinamentos, apesar de serem impopulares, mas que os proclame também com maior profundidade”. Essa “divisão”, apesar de se enfrentarem em relação aos ensinamentos da Igreja, encontra um ponto de união no “estilo” da Igreja que desejam:

“Os jovens de hoje anseiam por uma Igreja autêntica. Com isso queremos externar, particularmente à hierarquia eclesiástica, o nosso pedido de uma comunidade transparente, acolhedora, honesta, comunicativa, acessível, alegre e interativa. Uma Igreja credível é precisamente aquela que não tem medo de mostrar que é vulnerável. Por isso, a Igreja deve ser rápida e sincera em admitir seus próprios erros do passado e do presente, apresentando-se como sendo formada por pessoas capazes de cometer erros e mal-entendidos”.

 

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Entre esses erros, os jovens pré-sinodais mencionaram “os diferentes casos de abusos sexuais e a má gestão das riquezas e do poder”.

A Igreja deveria continuar reforçando sua política de tolerância zero dentro das próprias instituições e, assim, reconhecendo-se humilde e humana, poderá aumentar sua própria credibilidade e a capacidade de entrar em empatia com todos os jovens do mundo”.

De acordo com os jovens, “tal atitude” distinguiria a Igreja de todas as “instituições e autoridades em relação às quais os jovens de hoje alimentam, na maioria dos casos, alguma confiança”.

Os jovens têm muitas perguntas, mas nem por isso pedem respostas diluídas ou pré-fabricadas. Nós, jovens da Igreja, pedimos aos nossos guias que falem com uma terminologia específica sobre argumentos desconfortáveis, como a homossexualidade e o debate sobre a teoria de gênero, sobre os quais os jovens discutem livremente sem inibições. Alguns a percebem como “não científica”, dado que o diálogo com a comunidade científica também é importante, já que a ciência é capaz de iluminar a beleza da Criação”.

Nesse sentido, “a Igreja também deveria tratar das questões ambientais, particularmente do problema da poluição”, e ser “solidária e próxima daqueles que lutam nas periferias, daqueles que são perseguidos e pobres”. Porque, e o primeiro a afirmar isso é o próprio Papa, “uma Igreja atraente deve ser necessariamente relacional”.

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E, uma vez que grande parte das relações de hoje se desenvolve nas redes sociais e na internet, os jovens advertiram que

as relações on-line podem tornar-se desumanas. Os espaços digitais podem nos tornar cegos à fragilidade do outro e impedir a nossa introspecção. Problemas como a pornografia pervertem a percepção que os jovens têm da própria sexualidade. A tecnologia, neste contexto, cria uma realidade paralela enganosa e que ignora a dignidade humana”.

Portanto, os jovens fazem um apelo à Igreja para que preste “maior atenção a esta praga, incluindo os abusos na internet contra menores, o ciberbullying e a salgada fatura que representam para a nossa humanidade”. Claro, não se pode colocar em dúvida que

a internet oferece à Igreja uma oportunidade nunca antes vista na evangelização, especialmente através das redes sociais e dos conteúdos multimídia on-line. Sendo jovens, somos nativos digitais capazes de seguir por esse caminho. É também um lugar onde é possível relacionar-se com aqueles que vêm de uma tradição religiosa diferente ou mesmo não a têm. A série de vídeos do papa Francisco é um bom exemplo de como a internet pode expressar um potencial de evangelização”.

No seu documento, os e as jovens do pré-Sínodo reivindicam também uma maior inclusão nos “processos de decisão” da Igreja, que deve “oferecer-lhes papéis de liderança”, que podem ser identificados nas “paróquias, dioceses, em nível nacional ou internacional, e mesmo ao nível das comissões do Vaticano”. “Estamos firmemente convencidos de estar prontos para ser guias, capazes de amadurecer e aprender com membros mais experientes da Igreja, religiosos ou leigos”, afirmam.

Neste âmbito, não poderia faltar a denúncia da “ausência de figuras femininas dentro da Igreja”, uma realidade percebida com tristeza pelas jovens mulheres que gostariam de “oferecer seus talentos intelectuais e profissionais”. Ao mesmo tempo, os jovens consideram que “os seminaristas e os religiosos, com maior razão, deveriam ser muito mais numerosos”.

Os jovens também se declaram “interessados nas atividades políticas, civis e humanitárias”. Como católicos, afirmam querer ser “mais ativos na esfera pública para melhorar a sociedade comum” e ser levados “seriamente em consideração como membros responsáveis da Igreja”. E, enfatizam que a Igreja “deveria tentar desenvolver criativamente novos caminhos para ir ao encontro das pessoas exatamente onde elas se encontram, nos lugares que mais lhes convêm e nos quais geralmente se socializam: bares, cafés, parques, academias de ginástica, estádios e qualquer outro centro de agregação cultural ou social”.

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De acordo com os autores do documento, seria preciso levar em consideração também “espaços menos acessíveis, como ambientes militares, o ambiente de trabalho e áreas rurais”. Mas também é importante que “a luz da fé chegue a lugares difíceis, como orfanatos, hospitais, periferias, zonas de guerra, prisões, comunidades de reintegração e zonas vermelhas”. “Se, por um lado, a Igreja já vai ao nosso encontro através das numerosas escolas e universidades espalhadas pelo mundo, gostaríamos de vê-la muito mais presente e eficaz”.

Neste movimento de saída, a Igreja deveria “adotar” uma linguagem “capaz de relacionar-se com os usos e costumes dos jovens, para que todos possam ter a oportunidade de ouvir a mensagem do Evangelho”. E talvez repensar, nesse sentido, seu raio de ação, já que “fora da Igreja muitos jovens vivem uma espiritualidade disputada”. A Igreja, portanto, “poderia relacionar-se com eles por meio de instrumentos adequados”.

Boa parte do documento final refere-se também à “vocação”, tema sobre o qual o Sínodo de outubro irá refletir. A vocação, esclarecem os jovens, não é “sinônimo de chamado à vida sacerdotal ou religiosa”. “A ideia geral de que a vocação é um chamado não está clara para os jovens”, explicam eles mesmos, motivo pelo qual se necessita “de uma melhor compreensão da vocação cristã (à vida sacerdotal, à vida religiosa, ao apostolado leigo, ao matrimônio e à família etc.) e do chamado universal à santidade”.

Ao mesmo tempo, necessita-se de uma ajuda durante o processo de discernimento da vocação, levando em consideração todos os diferentes “fatores” influenciadores: “a Igreja, as diferenças culturais, a oferta de trabalho, o mundo digital, as expectativas da família, a saúde mental e o estado de ânimo, a pressão social dos próprios pares, os cenários políticos, a vida de oração e as devoções, a Sagrada Escritura, a sociedade e a tecnologia”.

(A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 24-03-2018. A tradução é de André Langer.)

Nota: A íntegra do documento, em português, pode ser lida aqui.

Fonte:

IHU

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