A sinodalidade marca um estilo de viver a comunhão e a participação nas igrejas locais que se caracteriza pelo respeito à dignidade e igualdade de todos os batizados e batizadas, pelo complemento dos carismas e ministérios, pela alegria de reunir-se em assembleias para discernir juntos a voz do Espírito. Este Sínodo nos dá a oportunidade de refletir sobre a forma de estruturar as igrejas locais em cada região e país, e de avançar em uma conversão sinodal que aponte caminhos comuns na evangelização… As formas de exercício da sinodalidade são variadas e devem ser descentralizadas em seus diversos níveis (diocesano, regional, nacional, universal), respeitosas e atentas aos processos locais, sem enfraquecer o vínculo com as outras Igrejas irmãs e com a Igreja universal. Elas estabelecem uma sincronia entre a comunhão e a participação, entre a corresponsabilidade e a ministerialidade de todos, dando especial atenção à participação efetiva dos leigos no discernimento e na tomada de decisões, potencializando a participação das mulheres.”

Pela importância para a ação evangelizadora de toda a Igreja, o processo do Sínodo para Amazônia, sua preparação, sua dinâmica fraterna e participativa de realização, sua produção, sua sinodalidade…, precisa ser bem conhecido, pois foi uma experiência inovadora e com muitos elementos originais na vida da Igreja. Ele pode inspirar e fecundar de beleza toda a caminhada da Igreja. 

O Observatório da Evangelização, com esta última, completa a publicação de todo o Documento final do Sínodo para a Amazônia: 

  • Introdução
  • Capítulo 1 – Amazônia: Da escuta à conversão integral
  • Capítulo 2 – Novos caminhos de conversão pastoral
  • Capítulo 3 – Novos caminhos de conversão cultural
  • Capítulo 4 – Novos caminhos de conversão ecológica
  • Capítulo 5 – Novos caminhos de conversão sinodal
  • Conclusão

Publicamos cada uma das partes que compõem o documento aprovado no final do Sínodo e que foi entregue nas mãos do papa Francisco. Agora é esperar pela Exortação Pós- Sinodal que sairá em breve. 

Confira:

CAPITULO V

NOVOS CAMINHOS DE CONVERSÃO SINODAL

“Eu neles e Tu em Mim, sejam assim consumados na unidade” (Jo 17,23)

86. Para caminhar juntos, a Igreja precisa de uma conversão sinodal, sinodalidade do Povo de Deus sob a guia do Espírito na Amazônia. Com este horizonte de comunhão e participação, buscamos novos caminhos eclesiais, especialmente na ministerialidade e na sacramentalidade da Igreja com rosto amazônico. A vida consagrada, os leigos e entre eles as mulheres, são os protagonistas antigos e sempre novos que nos chamam a esta conversão.

A sinodalidade missionária na Igreja amazônica 

a. A sinodalidade missionária de todo o Povo de Deus sob a guia do Espírito Santo 

87. “Sínodo” é uma antiga palavra venerada pela Tradição; indica o caminho que os membros do povo de Deus percorrem juntos; refere-se ao Senhor Jesus, que se apresenta como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6), e ao fato de que os cristãos, seus seguidores, foram chamados “os discípulos do caminho” (At 9, 2); ser sinodais é seguir juntos “o caminho do Senhor” (At 18, 25). A sinodalidade é o modo de ser da Igreja primitiva (cf. At 15) e deve ser o nosso. “Todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo” (1Cor 12,12). A sinodalidade também caracteriza a Igreja do Vaticano II, entendida como povo de Deus, na igualdade e na dignidade comum diante da diversidade de ministérios, carismas e serviços. Ela indica o modo específico de viver e agir (modus vívendí et operandi) da Igreja do povo de Deus, que manifesta e realiza de maneira concreta seu ser “comunhão”, no caminhar juntos, no reunir-se em assembleia e na participação ativa de todos os seus membros em sua ação evangelizadora” (…), isto é, na “corresponsabilidade e participação de todo o povo de Deus na vida e missão da Igreja” (CTI, Sinodalidade…, n. 6-7). 

88. Para caminhar juntos, a Igreja precisa hoje de uma conversão à experiência sinodal. É necessário fortalecer uma cultura de diálogo, de escuta recíproca, de discernimento espiritual, de consenso e comunhão para encontrar espaços e caminhos de decisão conjunta e responder aos desafios pastorais. Assim, se comentará a corresponsabilidade na vida da Igreja num espírito de serviço. Urge caminhar, propor e assumir as responsabilidades para superar o clericalismo e as imposições arbitrárias. A sinodalidadeé uma dimensão constitutiva da Igreja. Não se pode ser Igreja sem reconhecer um efetivo exercício do sensus fidei de todo o Povo de Deus.

b. Espiritualidade da comunhão sinodal sob a guia do Espírito Santo 

89. A Igreja vive em comunhão com o Corpo de Cristo pelo dom do Espírito Santo. O chamado “Concílio Apostólico de Jerusalém” (cf. At 15; Gal 2, 1-10) é um acontecimento sinodal no qual a Igreja Apostólica, num momento decisivo do seu caminho, vive a sua vocação à luz da presença do Senhor ressuscitado em vista da missão. Este acontecimento tornou-se a figura paradigmática dos Sínodos da Igreja e de sua vocação sinodal. A decisão tomada pelos Apóstolos, com o acompanhamento de toda a comunidade de Jerusalém, foi obra da ação do Espírito Santo que guia o caminho da Igreja, assegurando-lhe a fidelidade ao Evangelho de Jesus: “Nós decidimos, o Espírito Santo e nós” (At 15,28). Toda a assembleia recebeu a decisão e a fez sua (Atos 15, 22); depois a comunidade de Antioquia fez o mesmo (Atos 15, 30-31). Ser verdadeiramente “sinodal” é avançar em harmonia sob o impulso do Espírito vivificador. 

90. A Igreja na Amazônia está chamada a caminhar no exercício do discernimento, que é o centro dos processos e eventos sinodais. Trata-se de determinar e percorrer como Igreja, através da interpretação teologal dos sinais dos tempos, sob a guia do Espírito Santo, o caminho a seguir no serviço do plano de Deus. O discernimento comunitário permite descobrir um chamado que Deus faz ouvir em cada situação histórica particular. Esta Assembleia é um momento de graça para exercitar a escuta recíproca, o diálogo sincero e o discernimento comunitário para o bem comum do povo de Deus na Região Amazônica, e depois, na etapa de implementação das decisões, continuar caminhando sob o impulso do Espírito Santo nas pequenas comunidades, paróquias, dioceses, vicariatos, prelazias e em toda a região. 

c. Rumo a um estilo sinodal de viver e trabalhar na região amazônica 

91. Com ousadia evangélica, queremos implementar novos caminhos para a vida da Igreja e seu serviço a uma ecologia integral na Amazônia. A sinodalidade marca um estilo de viver a comunhão e a participação nas igrejas locais que se caracteriza pelo respeito à dignidade e igualdade de todos os batizados e batizadas, pelo complemento dos carismas e ministérios, pela alegria de reunir-se em assembleias para discernir juntos a voz do Espírito. Este Sínodo nos dá a oportunidade de refletir sobre a forma de estruturar as igrejas locais em cada região e país, e de avançar em uma conversão sinodal que aponte caminhos comuns na evangelização. A lógica da encarnação ensina que Deus, em Cristo, se vincula aos seres humanos que vivem nas “culturas próprias dos povos” (AG 9) e que a Igreja, povo de Deus inserido entre os povos, tem a beleza de um rosto pluriforme porque enraizado em muitas culturas diferentes (EG 116). Isso se realiza na vida e na missão das igrejas locais presentes em cada “grande território sócio-cultural” (AG 22).

92. Uma Igreja com rosto amazônico precisa que suas comunidades estejam impregnadas de um espírito sinodal, sustentadas por estruturas organizativas segundo esta dinâmica, como autênticos organismos de “comunhão”. As formas de exercício da sinodalidade são variadas e devem ser descentralizadas em seus diversos níveis (diocesano, regional, nacional, universal), respeitosas e atentas aos processos locais, sem enfraquecer o vínculo com as outras Igrejas irmãs e com a Igreja universal. Elas estabelecem uma sincronia entre a comunhão e a participação, entre a corresponsabilidade e a ministerialidade de todos, dando especial atenção à participação efetiva dos leigos no discernimento e na tomada de decisões, potencializando a participação das mulheres.

Novos caminhos para a ministerialidade eclesial 

a. Igreja ministerial e novos ministérios 

93. A renovação do Concílio Vaticano II situa os leigos no seio do povo de Deus, em uma Igreja toda ela ministerial, que tem no sacramento do batismo o fundamento da identidade e da missão de todo cristão. “Os leigos são fiéis que, pelo batismo, foram incorporados a Cristo, constituídos no povo de Deus e, a seu modo, tornados participantes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, exercendo assim o seu papel na missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo” (LG 31). Desta tríplice relação, com Cristo, com a Igreja e com o mundo, nasce a vocação e a missão do laicato. A Igreja na Amazônia, em vista de uma sociedade justa e solidária no cuidado da “Casa comum”, quer fazer dos leigos e leigas atores privilegiados. Sua atuação tem sido e é vital, tanto na coordenação das comunidades eclesiais, no exercício dos ministérios, como em seu compromisso profético em um mundo inclusivo para todos, que tem em seus mártires um testemunho que nos interpela. 

94. Como expressão da corresponsabilidade de todos os balizados na Igreja e do exercício do sensus fidei de todo o Povo de Deus, surgiram as assembleias e os conselhos pastorais em todos os âmbitos eclesiais, assim como as equipes de coordenação dos diversos serviços pastorais e os ministérios confiados aos leigos. Reconhecemos a necessidade de fortalecer e ampliar os espaços de participação do laicato, tanto na consulta como na tomada de decisões, na vida e na missão da Igreja. 

95. Embora a missão no mundo seja tarefa de todo batizado, o Concílio Vaticano II sublinhou a missão dos leigos: “a esperança de uma Nova Terra, longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra” (GS 39). É urgente que a Igreja na Amazônia promova e confira ministérios para homens e mulheres de maneira equitativa. O tecido da Igreja local, também na Amazônia, é garantido pelas pequenas comunidades eclesiais missionárias que cultivam a fé, escutam a Palavra e celebram juntas a vida do povo. É a Igreja de homens e mulheres batizados que devemos consolidar, promovendo a ministerialidade e, sobretudo, a consciência da dignidade batismal. 

96. Além disso, o Bispo pode confiar, por um mandato por tempo determinado, diante da ausência de presbíteros nas comunidades, o exercício da sua solicitude pastoral a uma pessoa não revestida de carácter sacerdotal, membro da comunidade. Os personalismos devem ser evitados e, portanto, será um serviço rotativo. O Bispo poderá constituir este ministério em nome da comunidade cristã com um mandato oficial através de um ato ritual para que a pessoa responsável pela comunidade seja também reconhecida a nível civil e local. Fica sempre o presbítero com o poder e faculdade de pároco, como responsável da comunidade. 

b. Vida consagrada 

97. O texto evangélico – “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois Ele me ungiu para anunciar o Evangelho aos pobres” (-Lc 4,18) – expressa uma convicção que anima a missão da vida consagrada na Amazônia, enviada a proclamar a Boa Nova no acompanhamento junto aos povos indígenas, aos mais vulneráveis e aos mais distantes, a partir de um diálogo e anúncio que possibilitem um conhecimento profundo da espiritualidade. Uma vida consagrada com experiências intercongregacionais e interinstitucionais pode permanecer em comunidades onde ninguém quer estar e com quem ninguém quer estar, aprendendo e respeitando a cultura e as línguas indígenas para chegar ao coração dos povos.

98. A missão, ao mesmo tempo que contribui para edificar e consolidar a Igreja, fortalece e renova a vida consagrada e a chama mais fortemente a assumir a mais pura de sua inspiração original. Deste modo, o seu testemunho será profético e fonte de novas vocações religiosas. Propomos apostar numa vida consagrada com identidade amazônica, fortalecendo as vocações autóctones. Apoiamos a inserção e a itinerância dos consagrados e consagradas, junto aos mais empobrecidos e excluídos. Os processos formativos devem incluir o enfoque da interculturalidade, da inculturação e dos diálogos entre espiritualidades e cosmovisões amazônicas.

c. Presença e a vez da mulher 

99. A Igreja na Amazônia quer “alargar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja” (EG 103). “Não reduzamos o compromisso das mulheres na Igreja, mas promovamos sua participação ativa na comunidade eclesial. Se a Igreja perde as mulheres em sua dimensão global e real, ela corre o risco da esterilidade” (Papa Francisco, Encontro com o Episcopado Brasileiro, Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013). 

100. O Magistério da Igreja desde o Concílio Vaticano II destacou o lugar central que a mulher ocupa dentro dela: “É chegada a hora, a hora em que a vocação da mulher se realiza em plenitude, a hora em que a mulher adquire no mundo uma influência, um peso, um poder nunca alcançado até agora. Portanto, neste momento em que a humanidade atravessa uma mutação tão profunda, as mulheres cheias do espírito do Evangelho podem ajudar muito para que a humanidade não decaia” (Paulo VI, 1965; AAS 58, 1966, 13-14). 

101. A sabedoria dos povos ancestrais afirma que a mãe terra tem um rosto feminino. No mundo indígena e ocidental, as mulheres são aquelas que trabalham em múltiplas facetas, na instrução dos filhos, na transmissão da fé e do Evangelho, são testemunhas e presença responsável na promoção humana, por isso se pede que a voz das mulheres seja ouvida, que elas sejam consultadas e participem das decisões e, assim, possam contribuir com sua sensibilidade para a sinodalidade eclesial. Valorizamos a função da mulher, reconhecendo seu papel fundamental na formação e continuidade das culturas, na espiritualidade, nas comunidades e nas famílias. É necessário que a mulher assuma com maior força sua liderança no seio da Igreja e que a Igreja a reconheça e promova, fortalecendo sua participação nos conselhos pastorais das paróquias e dioceses, inclusive nas instâncias de governo.

102. Diante da realidade sofrida pelas mulheres vítimas de violência física, moral e religiosa, incluindo o feminicídio, a Igreja se posiciona em defesa de seus direitos e as reconhece como protagonistas e guardiãs da criação e da “Casa comum”. Reconhecemos a ministerialidade que Jesus reservou para as mulheres. É necessário promover a formação da mulher em teologia bíblica, teologia sistemática, direito canônico, valorizando sua presença em organizações e sua liderança dentro e fora do âmbito eclesial. Queremos fortalecer os laços familiares, especialmente para as mulheres migrantes. Asseguramos o seu lugar em espaços de liderança e formação. Pedimos revisar o Motu Proprio de São Paulo VI Ministeria quaedam, para que também mulheres adequadamente formadas e preparadas possam receber os ministérios do Leitorado e do Acolitado, entre outros a serem desenvolvidos. Nos novos contextos da evangelização e pastoral na Amazônia, onde a maioria das comunidades católicas é liderada por mulheres, pedimos que seja criado o ministério instituído da “mulher dirigente da comunidade” e que este seja reconhecido a serviço das novas exigências da evangelização e do cuidado das comunidades.

103. Nas muitas consultas realizadas na Amazônia, o papel fundamental da mulher religiosa e leiga na Igreja da Amazônia e em suas comunidades foi reconhecido e enfatizado, devido aos múltiplos serviços prestados. Num grande número destas consultas, foi solicitado o diaconato permanente para as mulheres. Por isso, o tema também esteve muito presente no Sínodo. Já em 2016, o papa Francisco havia criado uma “Comissão de estudo sobre o Diaconato da Mulher” que, como Comissão, chegou a um resultado parcial sobre como era a realidade do diaconato da mulher nos primeiros séculos da Igreja e suas implicações hoje. Gostaríamos, pois, de partilhar as nossas experiências e reflexões com a Comissão e aguardar os seus resultados.

d. Diaconato Permanente 

104. Para a Igreja Amazônica é urgente a promoção, formação e apoio aos diáconos permanentes, por causa da importância deste ministério na comunidade. De modo particular, por causa do serviço eclesial que muitas comunidades procuram, especialmente os povos indígenas. As necessidades pastorais específicas das comunidades cristãs amazônicas nos levam a uma compreensão mais ampla do diaconato, serviço que existe desde o início da Igreja e que foi restaurado como grau autônomo e permanente pelo Concílio Vaticano II (LG 29, AG 16, OE 17). O diaconato de hoje deve também dar atenção à ecologia integral, ao desenvolvimento humano, à pastoral social, ao serviço dos que se encontram em situação de vulnerabilidade e pobreza, configurando-o ao Cristo Servo, tornando-se uma Igreja misericordiosa, samaritana, solidária e diaconal. 

105. Os presbíteros devem ter presente que o diácono está ao serviço da comunidade por nomeação e sob a autoridade do bispo, e que têm a obrigação de apoiar os diáconos permanentes e de agir em comunhão com eles. A manutenção dos diáconos permanentes deve ser levada em conta. Isto inclui o processo vocacional de acordo com os critérios de admissão. As motivações do candidato devem indicar o serviço e a missão do diaconato permanente na Igreja e no mundo de hoje. O projeto formativo se articula entre o estudo acadêmico e a prática pastoral, acompanhado de uma equipe formativa e da comunidade paroquial, com conteúdos e itinerários adaptados a cada realidade local. É desejável que a esposa e os filhos participem do processo de formação.

106. O currículo para a formação do diaconato permanente, além das disciplinas obrigatórias, deve incluir temas que promovam o diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural, a história da Igreja na Amazônia, o afeto e a sexualidade, a cosmovisão indígena, a ecologia integral e outros temas transversais típicos do ministério diaconal. A equipe de formadores consistirá de ministros ordenados competentes e leigos que estejam de acordo com o diretório do diaconato permanente aprovado em cada país. Queremos encorajar, apoiar e acompanhar pessoalmente o processo vocacional e a formação dos futuros diáconos permanentes nas comunidades ribeirinhas e indígenas, com a participação de párocos, religiosos e religiosas. Finalmente, que haja um programa de acompanhamento da formação permanente (espiritualidade, formação teológica, pastoral, atualização dos documentos da Igreja, etc.), sob a orientação do bispo.

e. Itinerários de formação inculturada 

107. “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15). Essa promessa, sendo divina, é válida para todos os tempos e contextos; portanto, é válida também para a Amazônia. Destinada a configurar o presbítero a Cristo, a formação para o ministério ordenado deve ser uma escola comunitária de fraternidade, experiencial, espiritual, pastoral e doutrinal, em contato com a realidade das pessoas, em harmonia com a cultura e a religiosidade locais, próxima aos pobres. Precisamos preparar bons pastores que vivam a Boa Nova do Reino, conheçam as leis canônicas, sejam compassivos, tão semelhantes a Jesus quanto possível, cuja prática é fazer a vontade do Pai, alimentados pela Eucaristia e pela Sagrada Escritura. Ou seja, uma formação mais bíblica no sentido de uma assimilação a Jesus, como o demonstram os Evangelhos: próximo das pessoas, capaz de escutar, de curar, de consolar, pacientemente, não procurando pedir, mas manifestar a ternura do coração do Pai. 

108. Para oferecer aos futuros presbíteros das Igrejas da Amazônia uma formação de rosto amazônico, inserida e adaptada à realidade, contextualizada e capaz de responder aos numerosos desafios pastorais e missionários, propomos um plano de formação que responda aos desafios das Igrejas locais e a realidade amazônica. Deve-se incluir nos conteúdos acadêmicos disciplinas que abordam a ecologia integral, a ecoteologia, a teologia da criação, as teologias indígenas, a espiritualidade ecológica, a história da Igreja na Amazônia, antropologia cultural amazônica, e assim por diante. Os centros de formação para a vida presbiteral e consagrada devem ser inseridos, preferencialmente, na realidade amazônica, com vistas a favorecer o contato do jovem amazônico em formação com sua realidade, enquanto se prepara para sua futura missão, garantindo assim que o processo de formação não se afaste do contexto vital das pessoas e de sua cultura, além de oferecer a outros jovens não amazônicos a oportunidade de participar de sua formação na Amazônia, fomentando assim vocações missionárias.

f. Eucaristia: fonte e ápice da comunhão sinodal 

109. Segundo o Concílio Vaticano II, a participação na Eucaristia é a fonte e o cume de toda a vida cristã; é o símbolo da unidade do Corpo Místico; é o centro e o cume de toda a vida da comunidade cristã. A Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja; é fonte e culminação de toda a evangelização. Façamos eco da frase de São João Paulo II: “A Igreja vive da Eucaristia” (Ecclesia de Eucharistia, 1). A Instrução da Congregação para o Culto Divino Redemptoris sacramentum (2004) insiste em que os fiéis gozem do direito de ter a celebração Eucarística tal como estabelecido nos livros e normas litúrgicas. Mas parece estranho falar do direito de celebrar uma Eucaristia segundo o que é prescrito, para não mencionar o direito mais fundamental de acesso à Eucaristia para todos: “Na Eucaristia já está realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito, a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico” (LS 236). 

110. Há um direito da comunidade à celebração, que deriva da essência da Eucaristia e do seu lugar na economia da salvação. A vida sacramental é a integração das várias dimensões da vida humana no mistério pascal, que nos fortalece. É por isso que as comunidades vivas clamam verdadeiramente pela celebração da Eucaristia. É, sem dúvida, o ponto de chegada (culminação e consumação) da comunidade; mas é, ao mesmo tempo, o ponto de partida: do encontro, da reconciliação, da aprendizagem e da catequese, do crescimento comunitário. 

111. Muitas comunidades eclesiais do território amazônico têm enormes dificuldades de acesso à Eucaristia. Às vezes, passam não apenas meses, mas vários anos para que um sacerdote possa regressar a uma comunidade para celebrar a Eucaristia, oferecer o sacramento da reconciliação ou ungir os doentes na comunidade. Apreciamos o celibato como dom de Deus (Sacerdotalis Caelibatus, 1) porque este dom permite ao discípulo missionário, ordenado ao presbiterado, dedicar-se plenamente ao serviço do povo santo de Deus. Estimula a caridade pastoral e rezamos para que haja muitas vocações que vivam o sacerdócio celibatário. Sabemos que essa disciplina “não é exigida pela própria natureza do sacerdócio… embora tenha muitas razões de conveniência” (PO 16). Na sua encíclica sobre o celibato sacerdotal, São Paulo VI manteve esta lei e expôs as motivações teológicas, espirituais e pastorais que a sustentam. Em 1992, a exortação pós-sinodal de São João Paulo II sobre a formação sacerdotal confirmou esta tradição na Igreja latina (PDV 29). Considerando que a legítima diversidade não prejudica a comunhão e a unidade da Igreja, mas a manifesta e serve (LG 13; OE 6) o que atesta a pluralidade dos ritos e disciplinas existentes, propomos estabelecer critérios e disposições por parte da autoridade competente, no âmbito da Lumen gentium 26, para ordenar sacerdotes a homens idóneos e reconhecidos pela comunidade, que tenham um diaconato permanente fecundo e recebam uma formação adequada para o presbiterado, podendo ter uma família legitimamente constituída e estável, para sustentar a vida da comunidade cristã através da pregação da Palavra e da celebração dos Sacramentos nas zonas mais remotas da região amazônica. A este respeito, alguns manifestaram-se a favor de uma abordagem universal da questão. 

Novos caminhos para a sinodalidade eclesial 

a. Estruturas sinodais regionais na Igreja Amazônica 

112. A maioria das dioceses, prelazias e vicariatos da Amazônia tem extensos territórios, poucos ministros ordenados e escassos recursos financeiros, experimentando dificuldades para sustentar a missão. O “custo amazônico” repercute seriamente na evangelização. Diante desta realidade, é necessário repensar a organização das igrejas locais, repensar as estruturas de comunhão nos níveis provinciais, regionais e nacionais, e também a partir da Panamazônia. Portanto, é necessário articular espaços sinodais e gerar redes de apoio solidário. É urgente superar as fronteiras que a geografia impõe e construir pontes que unam. O documento de Aparecida já insistia que as igrejas locais gerem formas de associação interdiocesana em cada nação ou entre países de uma região e que fomentam maior cooperação entre Igrejas irmãs (cf.DAp 182). Em vista de uma Igreja presente, solidária e samaritana, propomos: redimensionar as extensas áreas geográficas das dioceses, vicariatos e prelazias; criar um fundo amazônico de apoio à evangelização; sensibilizar e encorajar as agências de cooperação católica internacional para apoiar as atividades de evangelização além dos projetos sociais. 

113. Em 2015, ao comemorar o 50′ aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos por São Paulo VI, o papa Francisco nos convidou a renovar a comunhão sinodal nos vários níveis de vida da Igreja: local, regional e universal. A Igreja está desenvolvendo uma compreensão renovada da sinodalidade em escala regional. Apoiada pela tradição, a Comissão Teológica Internacional expressa: “O nível regional no exercício da sinodalidade é aquele que ocorre nos reagrupamentos de Igrejas particulares presentes na mesma região: uma província – como aconteceu especialmente nos primeiros séculos da Igreja – ou um país, um continente ou parte dele” (Documento “Sinodalidade na vida e missão da Igreja”, Vaticano, 2018, 85). O exercício da sinodalidade neste nível reforça os laços espirituais e institucionais, favorece o intercâmbio de dons e ajuda a projetar critérios pastorais comuns. A pastoral social conjunta das dioceses situadas nas fronteiras dos países deve ser reforçada para enfrentar problemas comuns que ultrapassam o âmbito local, como a exploração de pessoas e territórios, o tráfico de drogas, a corrupção, o tráfico de pessoas etc. O problema da migração deve ser abordado de forma coordenada pelas igrejas fronteiriças. 

b. Universidades e novas estruturas sinodais amazônicas 

114. Propomos a criação de uma Universidade Católica Amazônica que tenha como base pesquisas interdisciplinares (incluindo estudos de campo), inculturação e diálogo intercultural; que a teologia inculturada inclua formação conjunta para ministérios laicais e formação de sacerdotes, baseada principalmente na Sagrada Escritura. As atividades de pesquisa, educação e extensão devem incluir programas de estudos ambientais (conhecimento teórico baseado na sabedoria dos povos que vivem na região amazônica) e estudos étnicos (descrição das diferentes línguas etc.). A formação de professores, o ensino e a produção de materiais didáticos inculturados devem respeitar os costumes e as tradições dos povos indígenas, e realizando atividades de extensão em diferentes países e regiões. Pedimos às universidades católicas da América Latina que ajudem na criação da Universidade Católica Amazônica e acompanhem seu desenvolvimento. 

c. Organismo eclesial regional pós-sinodal para a região amazônica 

115. Propomos criar um organismo episcopal que promova a sinodalidade entre as igrejas da região, que ajude a construir o rosto amazônico desta Igreja e que continue a tarefa de encontrar novos caminhos para a missão evangelizadora, incorporando especialmente a proposta da ecologia integral, fortalecendo assim a fisionomia da Igreja Amazônica. Trata-se de um organismo episcopal permanente e representativo que promova a sinodalidade na região amazônica, articulado com o CELAM, com estrutura própria, em uma organização simples e também articulada com a REPAM. Deste modo, pode ser o canal eficaz para assumir, a partir do território da Igreja latino-americana e caribenha, muitas das propostas que surgiram neste Sínodo. Seria o nexo que articula redes e iniciativas eclesiais e socioambientais em nível continental e internacional. 

d. Rito para os povos originários 

116. O Concílio Vaticano II abriu espaços ao pluralismo litúrgico para variações e legítimas adaptações a diversos grupos e povos (cf. SC 38). Neste sentido, a liturgia deve responder à cultura para que seja fonte e ápice da vida cristã (cf. SC 10) e para que se sinta ligada aos sofrimentos e às alegrias do povo. Devemos dar uma resposta autenticamente católica ao pedido das comunidades amazônicas de adaptar a liturgia, valorizando a cosmovisão, as tradições, os símbolos e os ritos originais que incluam dimensões transcendentes, comunitárias e ecológicas. 

117. Na Igreja Católica existe 23 ritos diferentes, sinal claro de uma tradição que desde os primeiros séculos procurou inculturar os conteúdos da fé e a sua celebração através de uma linguagem tão coerente quanto possível com o mistério que deve ser expresso. Todas essas tradições têm a sua origem em função da missão da Igreja: “As Igrejas do mesmo âmbito geográfico e cultural vieram para celebrar o mistério de Cristo com expressões particulares, caracterizadas culturalmente: na tradição do “depósito da fé”, no simbolismo litúrgico, na organização da comunhão fraterna, na compreensão teológica dos mistérios e nas várias formas de santidade” (CIC’ 1202; cf. também CIC 1200-1206). 

118. É necessário que a Igreja, na sua incansável obra evangelizadora, trabalhe para que o processo de inculturação da fé se exprima nas formas mais coerentes, para que seja também celebrado e vivido segundo as línguas próprias dos povos amazônicos. É urgente formar comissões para a tradução e redação de textos bíblicos e litúrgicos nas línguas dos diversos lugares, com os recursos necessários, preservando a matéria dos sacramentos e adaptando-os à forma, sem perder de vista o essencial. Neste sentido, é necessário estimular a música e o canto, tudo isto aceito e permitido pela liturgia. 

119. O novo organismo da Igreja na Amazônia deve constituir uma comissão competente para estudar e dialogar, segundo os usos e costumes dos povos ancestrais, a elaboração de um rito amazônico que exprima o patrimônio litúrgico, teológico, disciplinar e espiritual da Amazônia, com especial referência ao que a Lumen gentium afirma para as Igrejas Orientais (cf. LG 23). Isto acrescentaria aos ritos já presentes na Igreja, enriquecendo a obra de evangelização, a capacidade de exprimir a fé numa cultura própria e o sentido de descentralização e colegialidade que pode manifestar a catolicidade da Igreja; poderia também estudar e propor como enriquecer os ritos eclesiais com o modo como estes povos cuidam do seu território e se relacionam com as suas águas. 

CONCLUSÃO

120. Concluímos sob a proteção de Maria, Mãe da Amazônia, venerada com vários títulos em toda a região. Por sua intercessão, pedimos que este Sínodo seja expressão concreta da sinodalidade, para que a vida plena que Jesus veio trazer ao mundo (cf. Jo 10,10) chegue a todos, especialmente aos pobres, e contribua para o cuidado da “Casa comum”. Maria, Mãe da Amazônia, acompanhe nosso caminhar; a São José, fiel guardião de Maria e de seu Filho Jesus, consagramos nossa presença eclesial na Amazônia, uma Igreja de rosto amazônico e em saída missionária.

(Atenção: os grifos são nossos)