A caminhada das comunidades eclesiais de base – CEBs na América Latina é um legado precioso por várias gerações, um chamado “para ser a pequena Igreja de Jesus, para estar lá onde os povos arriscam suas vidas”, como lembrou Socorro Martínez Maqueo, Coordenadora da Articulação Continental das CEBs perante os mais de 225 participantes que de 9 a 12 de março estão em Guayaquil, Equador, para participar do XI Encontro Continental de CEBs.

Chegando de 16 países da América Latina, Caribe e Estados Unidos, os representantes foram convidados a refletir como artesãos e artesãs do Reino, tendo em mente que “Escutando Deus no clamor da natureza e
dos pobres, defendemos a Vida e promovemos o Reino de Deus
“. Nas CEBs, se faz o chamado a “colaborar na obra do Espírito para que pessoas e comunidades sejam dignas, retas, organizadas, justas,
empoderadas
“, afirmou Socorro Martínez.

O objetivo geral do encontro é “ressoar com os gritos dos pobres e da terra para recriar ministérios desafiadores no cuidado, proteção e defesa da vida digna e da Casa Comum”. Esse objetivo é concretiçado em objetivos específicos, tais como:

  • comemorar 40 anos de caminhada continental;
  • ressoam com o clamor de nossos contextos para recriar e / ou elucidar os ministérios que as CEBs precisam implantar;
  • discernir com outros olhos e experimentar o clamor da realidade: Sínodo Panamazônico, Juventude, Teologia Narrativa das Bases para assumir os compromissos que implicam;
  • trocar experiências diversas das CEBs que respondem ao clamor da terra e dos pobres para um aprendizado mútuo;
  • e, finalmente, reiterar as opções feitas pela Conferência de Puebla e que são válidas ao caminhar das CEBs hoje.

Lembrando-se de uma citação do profeta Joel, muito presente na vida do papa Francisco, “é o espírito que faz os idosos sonharem e os jovens profetizarem”, o arcebispo local, dom Luis Gerardo Cabrera Herrera,
referindo-se a Querida Amazônia, disse que “sonhar e profetizar são duas atitudes que devem ser carregadas no coração”. Em suas palavras, se remontou à Conferência de Aparecida, que definiu quatro eixos da vida cristã: Cristo, Igreja, formação e Missão, que nos remetem à Igreja em saída, nas periferias, uma maneira de evangelizar sempre presente na caminhada das CEBs, que o arcebispo definiu como um espaço onde somos amados e nos encontramos.

Ao falar sobre a missão, o arcebispo de Guayaquil destacou que “são necessárias pessoas capazes de dar a vida pelo que amam, sendo criativas, não podemos continuar repetindo fórmulas, mas sim responder aos desafios atuais, ser ousados, lançar, não podemos ficar somente no protesto, a gente tem que fazer caminhos”.

Os encontros das CEBs são momentos para lembrar, para passar pelo coração o que foi e amadureceu nos frutos, momentos para lembrar que o Deus de Jesus nutre nossos anseios profundos por fraternidade, justiça e igualdade. Essa caminhada das CEBs é inspirada em Medellín e Puebla, que as definem e impulsionam. Faz 40 anos que Volta Redonda, Brasil, realizou o 1º Encontro Continental, refletindo na contribuição das CEBs ao processo popular latino-americano.

Nesses 40 anos, como recordado na reunião, o mundo passou por muitos episódios, a queda do Muro de Berlim, o V Centenário do Genocídio da América, a consolidação de democracias, o crescimento da miséria e das migrações, o aumento da influência das empresas de mídia, o fenômeno da pós-verdade, a guerrilha e o tráfico de drogas, o feminicídio e tráfico de pessoas, a destruição da Casa Comum.Também na Igreja muitas coisas aconteceram, sendo destacadas a Conferência de Aparecida e a renúncia de Bento XVI, que resultou na chegada do papa Francisco.

A análise da realidade, dinâmica sempre presente na vida das CEBs, foi realizada neste XI Encontro Continental, ouvindo os clamores que nascem da vida dos povos latino-americanos. Esse clamor se concentrou em quatro aspectos: social, eclesial, ecológico e o clamor das CEBs. Poderíamos dizer que os clamores nos lembram os salmos, através dos quais o povo de Israel fazia a Deus um apelo que nasceu da vida cotidiana.

No clamor social, as CEBs enfatizaram que a propriedade da terra é centrada no lucro e no uso extrativista, o que gera o roubo da terra de indígenas e camponeses. Na América Latina, há uma imposição de políticas internacionais aos países em favor de multinacionais que geram pobreza estrutural, corrupção, desemprego, crime e violência e migração em massa. Também acontece no continente uma manipulação da mídia que gera a luta dos pobres contra os pobres, apoiando os interesses dos ricos. Junto com isso, a realidade dos femicídios tem sido destacada, causada por um sistema machista e patriarcal que considera as mulheres como um objeto comprado e vendido, gerando violência e tráfico de pessoas. Diante disso, os movimentos sociais de jovens, mulheres e indígenas tornaram-se um instrumento de rejeição do povo latino-americano diante de um sistema neoliberal opressivo e voraz que destrói a vida da maioria.

As CEBs clamam por um acompanhamento de padres e bispos, embora, ao mesmo tempo, defendam uma articulação e organização para não depender de padres e bispos. É necessária uma renovação geracional e
um maior envolvimento em questões sociais. Também destacou a necessidade de formação integral e busca de uma criatividade que permita protagonismo na Igreja e na sociedade. Finalmente, foi enfatizada a necessidade de promover comunidades escritoras, comunicadoras e com identidade.

Os clamores eclesiais partem da dor diante de uma estrutura eclesial que exclui mulheres, jovens e povos indígenas dos espaços de decisão; de práticas distantes da realidade multicultural dos povos, motivadas pela liderança branca; de ver hierarquias eclesiais a serviço do capitalismo em busca de poder e privilégios. Isso leva as CEBs a pedir que a Igreja seja profética, ministerial, em saída, para anunciar o Reino de Deus e sua justiça com coerência; uma Igreja Povo de Deus, que recupera sua identidade comunitária original, de iguais, na qual a diversidade cultural é integrada e não discriminada.

Finalmente, o clamor ecológico denuncia a mercantilização de bens comuns, o que leva a uma perda de valor da vida, como consequência da contaminação da água, mineração e agrotóxicos. A exploração excessiva dos mares e o envenenamento de rios, que prejudicam a saúde, também foram denunciados. Junto com isso, a poluição das áreas verdes, uma consequência de uma sociedade que prioriza o dinheiro. Existe uma realidade de crescente privatização, escassez de água, deslocamento de camponeses, mega mineração, falta de escuta dos povos originários, aumento de aterros sanitários. Essa é uma realidade que exige uma luta pela vida.

Luis Miguel Modino – Padre diocesano de Madri, missionário fidei donum na Amazônia, residindo atualmente em Manus – A.M. Faz parte da Equipe de Comunicação da REPAM. Correspondente no Brasil de Religión Digital e colaborador do Observatório da Evangelização e em diferentes sites e revistas.