Dom Tolentino: “Fratelli Tutti é um texto que a todos engaja na transformação do mundo,”

Desde que foi publicada Fratelli Tutti, a nova encíclica do papa Francisco está provocando reações diferentes, tanto dentro quanto fora da Igreja católica. Na sexta-feira, dia 9 de outubro de 2020, numa conferência organizada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o cardeal José Tolentino de Mendonça, fazia uma análise do texto, tendo como tema de reflexão: “Pandemia, um evento global. Repensar o futuro da casa comum a partir da Encíclica Fratelli Tutti”.

O responsável pelos Arquivos e pela Biblioteca do Vaticano considera a Fratelli Tutti “um texto marcante, corajoso e que a todos compromete, que a todos engaja na transformação do mundo, do nosso tempo”. O cardeal português, partindo dos princípios defendidos na Revolução Francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – que na concepção das sociedades modernas se tornaram direitos humanos, afirmou que “a fraternidade tem sido um projeto adiado”. Isso faz com que a liberdade e a igualdade tenham ficado abstratas e inconclusas.

Considerado como uma das vozes mais singulares tanto da literatura portuguesa como do catolicismo contemporâneo, segundo dom Tolentino é muito significativo que neste tempo da pandemia, o papa Francisco tenha recuperado a fraternidade para nos dizer que o caminho é por aqui. Ele ressaltou que tanto a Laudato Si’ como a Fratelli Tutti partem do diálogo sobre a fraternidade com o mundo ortodoxo e com o mundo islâmico, ressaltando a grande variedade de citações que aparecem no texto pontifício – Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Gandhi -, fazendo referência dentre elas a de Vinicius de Moraes, figura fundamental da música popular brasileira.

Estamos diante de uma encíclica social, uma encíclica prática, afirmou o cardeal, na qual o Papa pega o tema da fraternidade e da amizade social para dizer que ou seguimos os caminhos da fraternidade ou entramos num mundo onde estamos todos contra todos. Tolentino vê a pandemia da COVID-19 como fio condutor de toda a encíclica, como elemento que transforma o próprio discurso do Papa e que nos mostra a fraternidade como grito de alerta. Nesse sentido, ele afirma que na pandemia vimos alguns se movimentarem com heroísmo, mas também vimos a tentação de alguns que a olham como uma crise que vai passar e que vamos voltar ao tempo anterior, sem entender que estamos ante um momento novo da história.

O Bibliotecário do Vaticano analisou os oitos capítulos da Fratelli Tutti, destacando os elementos mais importantes. Para ele, a encíclica pode ser considerada como uma radiografia da hora presente, colocando o dedo na ferida, nos mostrando a necessidade que todas as gerações têm de refletir sobre a fraternidade, denunciando a perda da memória histórica, o que tem levado a sociedade atual a aceitar viver sem um projeto social capaz de incluir a todos. Vivemos uma amnésia do sentido comunitário, e que se assume abertamente que há setores da sociedade que podemos descartar: os idosos, os jovens a procura do primeiro emprego, os migrantes.

Essa cultura do descarte está presente no discurso do papa Francisco desde Evangelii Gaudium, e Fratelli Tutti nos lembra que ainda hoje os direitos humanos não são universais. Nesse sentido, o cardeal vê a pandemia como uma espécie de despertador diante de uma tragédia global, nos lembrando que ninguém se salva sozinho e confirmando que somos mais vulneráveis do que nós pensávamos e que, como nos lembra a Laudato Si’, tudo está interligado. Diante disso, somos desafiados a entender que a fraternidade não é espontânea, é uma construção ética. A encíclica coloca a parábola do Bom Samaritano como ícone da fraternidade. Isso deve levar o cristão a ter mais sentido crítico, a incluir na catequese e na homilia a dimensão social da existência.

Segundo dom Tolentino, Fratelli Tutti nos convida a gerar um mundo aberto, ir mais além, a descobrir que somos chamados a uma abertura gradual progressiva, a partir de um amor universal, a sentir a necessidade de transbordar, de irradiar. A encíclica reflete sobre a função social da propriedade privada, reflete sobre o sentido de “hipoteca social” e coloca a vida e não a propriedade como o primeiro princípio básico. Nessa dimensão pratica do texto pontifício, para o cardeal, aparece a reflexão sobre os imigrantes, “que será cada vez mais uma questão fundamental de todas as sociedades” e, portanto, faz um chamado a ampliar o conceito de cidadania e ver os imigrantes como oportunidades, porque eles carregam dons.

Dom José Tolentino e o papa Francisco

A “política melhor” é outra das reflexões presentes na encíclica, analisando o populismo, que provoca manipulação, demagogia e exacerba os nacionalismos, e o liberalismo radical, baseado na economia e no indivíduo, fazendo com que a comunidade e o social não existam. Frente a isso, Tolentino afirma que “a verdadeira política é aquela que busca abrir processos e não conseguir frutos imediatos”. Um elemento importante em Fratelli Tutti é o diálogo, elogiado no texto e considerado como “chave de uma nova cultura”, baseado na procura da verdade e da justiça. O cardeal português falou de uma figura muito presente no pensamento do papa Francisco: o poliedro. O Papa compreende a “cultura como poliedro, capaz de integrar toda a diversidade, que nos ajuda entender que ninguém é inútil, ninguém supérfluo”.

Para ele, a encíclica mostra de modo claro que a paz social é uma construção artesanal, um trabalho minucioso e que não tem fim. Ele destaca a importância da gentileza e de aprender a dizer mais “com licença, por favor, desculpe e obrigado”. O texto também aborda a necessidade de reconhecer as feridas, do perdão baseado na memória, afirmando que não há guerra justa, que a guerra é sempre um fracasso da política e da humanidade, e considera a pena de morte como inadmissível.

Junto com tudo isso, Tolentino mostrou que a encíclica aponta a necessidade de redescobrir a fraternidade entre as religiões, de partilhar experiências espirituais. Não podemos esquecer que “a fraternidade tem em Deus seu fundamento”. O texto também faz um chamado a reconhecer o direito à liberdade religiosa, afirmando que “a religião tem que deixar de lado todas as formas de violência e se colocar do lado da paz”. Em nome de Deus, nós só podemos construir a paz e a fraternidade.

Para dom José Tolentino, estamos diante de um texto que faz um diagnóstico sem escapismos, que nos ajuda ver a pandemia como oportunidade, a não adiar mais a fraternidade. Em sua análise, o cardeal chega na conclusão de que “as patologias da igualdade e da liberdade nascem porque não desenvolvemos a fraternidade”. A ausência da fraternidade é algo gritante, que implica uma grande conversão, uma grande revolução. E enfatizou o perigo de colocar a encíclica na gaveta.

Por isso, para ele, Fratelli Tutti tem que ser “motor de pensamento, de debate, de abertura, não pode ficar apenas como um texto que nós respeitamos e sim como um texto que traduzimos no nosso cotidiano”. Estamos diante de “um texto profético, que deve se plasmar na vida cotidiana das comunidades”. Deve se encontrar “o meio de discutir, estudar, acolher este texto extraordinário que não pode ficar calado”, enfatiza o cardeal português.

Desde a importância que no pensamento do papa Francisco tem o abrir processos, o cardeal afirma que “sem dúvida que com a Laudato Si’, com a Querida Amazônia, com a Evangelii Gaudium, com a Fratelli Tutti, se abrem processos”. Ele considera que “Querida Amazônia é um texto que marca este pontificado como gesto profético, como concretização da Laudato Si’, como colocar os olhos na própria realidade e partir dela para acolher desafios”. Nesse sentido, Tolentino insiste em que “são desafios de vida do Evangelho que os cristãos não podem esquecer, não podemos deixar para trás”.

Outro tema muito atual, segundo o cardeal Tolentino, é o papel das mulheres na Igreja. Segundo ele, “o Papa fala na Encíclica Fratelli Tutti desse tema como desigualdade, as mulheres são vítimas dessa desigualdade, na história, na economia, no mundo do trabalho, na sociedade”. Ao mesmo tempo, ressaltava como algo muito interessante, que “a intenção de oração para o mês de outubro que o Papa lançou, é precisamente o tema das mulheres na Igreja, e isso é um tema que nós temos que rezar, que refletir, temos que continuar a ganhar maior consciência”. Ele também lembrou as palavras do Papa à consulta feminina do Pontifício Conselho da Cultura, quando dizia que “seria muito belo se na Cúria Romana, as mulheres pudessem mais vezes ver escutada a sua voz”, o que demostra, segundo o cardeal, quanto o Papa está atento a esta problemática.

Sobre o autor:

Luis Miguel Modino

Luis Miguel Modino – Padre diocesano de Madri, missionário fidei donum na Amazônia, residindo atualmente em Manaus – AM. Faz parte da Equipe de Comunicação da REPAM. Correspondente no Brasil de Religión Digital e colaborador do Observatório da Evangelização e em diferentes sites e revistas.

(Os grifos no texto são nossos.)

Para acompanhar a live na íntegra, confira:

http://www.ihu.unisinos.br/603609-economia-a-servico-do-bem-comum-desafios-e-perspectivas-pos-pandemia

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