Documento de Aparecida: o texto original, o texto oficial e o papa Francisco – terceira parte, com a palavra o teólogo pe. Agenor Brighenti

O texto original do Documento de Aparecida — que teve à frente da Comissão de Redação o então cardeal Bergoglio — antes de ser publicado como texto oficial, sofreu ao redor de 250 mudanças. Diante da negativa da Presidência da V Conferência pela autoria das mudanças e oficiosamente do próprio papa Bento XVI, que se limitou a “autorizar” a publicação do texto, os autores das censuras no texto original do Documento de Aparecida (DAp), nunca foram revelados. Frente a isso, o curioso é constatar que o Papa Francisco, desde a primeira-hora de seu pontificado, em seus pronunciamentos e documentos, tem resgatado praticamente tudo aquilo que os censores do texto original de Aparecida tinham suprimido. É o “Papa do fim do mundo”, fazendo soprar desde a periferia os “ventos do Sul” no coração da Igreja como um todo. Trata-se da afirmação da tradição eclesial libertadora da Igreja na América Latina, antes sob suspeição e, agora, reconhecida e enriquecendo a Igreja inteira. Dentre as mais de duas centenas de mudanças, há umas 40 maiores e de fundo, das quais este estudo aborda 10 delas, apresentando seu teor no texto original de Aparecida, seguido das censuras presentes no texto oficial e o resgate do que foi suprimido pelos censores em pronunciamentos e documentos do papa Francisco.

Palavras-chave: Documento de Aparecida. Vaticano II. Papa Francisco. Igreja na América Latina. Magistério Pontifício.

(Obs.: Esta é a TERCEIRA PARTE do texto do teólogo pastoralista Agenor Brighenti publicado na Revista Pistis e Práxis. Teologia e Pastoral. Adaptação para o Observatório da Evangelização é de Edward Guimarães. Os grifos são nossos.)

4. O método ver-julgar-agir

Uma quarta questão sensível colocada em relevo pelos censores do Documento de Aparecida é com relação à racionalidade moderna, indutiva e histórica, em contraposição a uma racionalidade dedutiva e essencialista, pré-moderna. O método ver-julgar-agir, idealizado por J. Cardijn, fundador da Ação Católica especializada, marca a recepção nos meios eclesiais da racionalidade moderna, primeiro na pastoral e, depois, na reflexão teológica. A pedagogia cardjiniana toma distância de uma racionalidade dedutiva, a-histórica, metafísica, escolástica, que a modernidade, desde o século XVI, havia superado. A racionalidade moderna é histórica, indutiva, articulada a partir da práxis ou da experiência. Como observa K. Rahner, na modernidade a teologia se faz antropologia, no sentido que a experiência da transcendência só pode ser apreendida a partir da imanência.

O método ver-julgar-agir, idealizado por J. Cardin em 1925, entrou no magistério pontifício através do papa João XXII, na encíclica Mater et magistra, em 1961, como metodologia de ação. O Concílio Vaticano II, alicerçado na relevância de uma leitura dos “sinais dos tempos”, na Gaudium et spes, fará dele um método teológico (leitura dos sinais dos tempos, iluminação da Palavra, compromisso pastoral), que irá influenciar diretamente a Igreja na América Latina, dando origem à Teologia da Libertação e seu método — mediação sócio-analítica, mediação hermenêutica, mediação da práxis.

Na Igreja, setores antagônicos à racionalidade e aos ideais da modernidade, bem como atrelados à teologia escolástica, sempre mostraram resistências ao método ver-julgar-agir, já com relação à Ação Católica, acusando-a de sociologização ou marxização da fé. Na América Latina, sobretudo com o advento da Teologia da Libertação, estes segmentos eclesiais trataram de suplantar o método por pedagogias dedutivas e a-históricas. Na Conferência de Santo Domingo, a metodologia de trabalho e a estrutura do documento, planejadas de modo indutivo, foi suplantada por estes segmentos por uma metodologia dedutiva, para estranhamento da maioria dos membros da Assembleia.

Aparecida e o método ver-julgar-agir

A Conferência de Aparecida resgatou o método ver-julgar-agir, ainda que não sem dificuldades. O método se fazia presente, não só no conteúdo, como na própria estrutura do Documento. Entretanto, na redação final apresentada à Assembleia para a votação conclusiva, o atual capítulo primeiro com o título Os discípulos missionários estava originalmente no início da segunda parte, intitulada A vida de Jesus Cristo nos discípulos missionários , e não na primeira parte A vida de nossos povos hoje como se encontra. Apesar das moções da Assembleia para reverter a ordem dos capítulos, a Presidência não voltou atrás.

Expressão da resistência a uma racionalidade indutiva e histórica e do apego ao procedimento metodológico da teologia escolástica, são as supressões e interpolações dos censores na caracterização do método ver-julgar-agir no “texto original”, que dizia: “Este documento continua a prática do método ver, julgar, agir”. Substituiu-se “continua a prática” por “faz uso” do método. E acrescentou-se:

Este método implica em contemplar a Deus com os olhos da fé através de sua Palavra revelada e o contato vivificador dos Sacramentos, a fim de que, na vida cotidiana, vejamos a realidade que nos circunda à luz de sua providência e a julguemos segundo Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, e atuemos a partir da Igreja, Corpo Místico de Cristo e Sacramento universal de salvação, na propagação do Reino de Deus, que se semeia nesta terra e que frutifica plenamente no Céu.

Documento de Aparecida, n. 19


Em resumo, ver à luz da Providência, julgar segundo Jesus Cristo e agir a partir da Igreja, ou seja, uma teologia que não se articula a partir da experiência, da história, dos acontecimentos, dos sinais dos tempos e, portanto, a-histórica, dedutiva, é irrelevante para seu contexto. Aqui aparece a dificuldade dos censores em reconhecer a densidade teologal da história, da experiência humana, da vida cotidiana, dos fatos. É aquela mentalidade que o “profano” não tem nada a dizer para a Igreja e que a secularização, enquanto reconhecimento da autonomia do temporal, atenta contra o espiritual.

Papa Francisco: a realidade é mais importante do que a ideia

Se para os censores do Documento de Aparecida, os pressupostos são mais importantes que o contexto histórico, para o papa Francisco, a realidade é mais importante do que a ideia. O Papa pensa e fala na perspectiva do ver-julgar-agir. Tomando distância de uma racionalidade essencialista e dedutiva, o papa Francisco afirma em Evangelii gaudium que a realidade é complexa, plural, conflitiva e opaca, que precisa ser descoberta, através de um discernimento (EG 194). Daí a necessidade de um olhar integral sobre a realidade, sem a pretensão de um olhar neutro e asséptico (EG 50): “a tentação se encontraria em optar por um ver totalmente asséptico, um ver neutro, o que não é viável. O ver está sempre condicionado pelo olhar. Não há uma hermenêutica asséptica” (apud IRMÃS PAULINAS, 2013, p. 139)1. Por isso, a realidade não pode ser decifrada, de cima para baixo, e para o mundo inteiro — “nem o Papa nem a Igreja possuem o monopólio da interpretação da realidade” (EG 184).

E acusando recepção da razão histórica entende que a realidade é mais importante do que a ideia, pois esta não passa de uma interpretação daquela (EG 231). Nem o olhar da fé consegue eliminar toda a ambiguidade da realidade concreta (EG 233) que, por ser histórica, está “em permanente desenvolvimento, cujo protagonista é o Espírito Santo” (EG 122). Trata-se de “uma realidade nunca acabada” (EG 126).

O papa Francisco assume também, na racionalidade, as contingências dos sujeitos que veem. Frisa que a realidade é apreendida na vida social onde recebemos os referenciais culturais (EG 115), vida social esta que influencia inclusive o modo de interpretar a realidade à luz da fé. A própria doutrina não é uma realidade “monolítica, a ser defendida sem nuances” (EG 40). Por isso, a hermenêutica da realidade é sempre comunitária, imperativo para um discernimento comum, o que vai ao encontro das exigências da razão comunicativa, colocada em relevo no atual contexto de crise da modernidade.


5. As Comunidades Eclesiais de Base

Uma das partes mais censuradas do “texto original” do Documento de Aparecida é a referente às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Os censores têm consciência de sua importância e significado para a Igreja na América Latina, antes mero reflexo da Igreja europeia, agora uma Igreja com rosto próprio e uma palavra própria. Na verdade, as CEBs enquanto eclesiogênese2, não são uma criação da Igreja na América Latina. Ela se alicerça sobre a experiência paradigmática da Igreja primitiva, organizada em domus ecclesiae, toda ela ministerial, inserida no seio da sociedade secular, em perspectiva profética. O martírio é a mais contundente prova de sua presença transformadora.

Na América Latina, sobretudo a partir de países como Brasil, Panamá, Chile e outros, as CEBs foram assumidas e recomendadas pelos Bispos na Conferência de Medellín e logo tiveram grande impulso em todo o Continente. A exemplo da Igreja primitiva, o centro está na Palavra de Deus e nas CEBs, em forma de “leitura popular da Bíblia”3, como também a inserção profética numa sociedade marcada pela injustiça institucionalizada, gerando tensões tanto no seio da Igreja como dos Estados sob as ditaduras militares. Na Conferência de Puebla, os setores mais conservadores da Igreja já se contrapuseram a este “novo modo de ser Igreja”, acusando as CEBs de constituírem-se em uma “Igreja popular”, contraposta à hierarquia, bem como de politizar a fé. Na Conferência de Santo Domingo, propala-se “os movimentos” de apostolado de classe média como a “nova primavera da Igreja”, respaldados por uma determinada “nova evangelização”, em perspectiva de neo-Cristandade.

Aparecida: é preciso dar novo impulso às CEBs

Uma das gratas surpresas de Aparecida foi o resgate das CEBs, reconhecendo seu valor e recomendando seu reimpulso em todo o Continente. Entretanto, os censores fizeram mudanças substanciais no “texto original” a respeito. No número 178, substitui-se: “Constata-se, em muitos lugares, um florescimento de comunidades eclesiais de base”; por “… em alguns lugares”. E acrescentou-se: “segundo o critério das Conferências Gerais anteriores”. E suprimiu-se, no final deste número: “Arraigadas no coração do mundo, são espaços privilegiados para a vivência comunitária da fé, mananciais de fraternidade e de solidariedade, alternativa à sociedade atual, fundada no egoísmo e na competição desmedida”. E, acrescentou-se: “Puebla constatou que as pequenas comunidades, sobretudo as comunidades eclesiais de base, permitiram ao povo chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos, no entanto, também constatou que não tem faltado membros de comunidade ou comunidades inteiras que, atraídas por instituições puramente leigas ou radicalizadas ideologicamente, foram perdendo o sentido eclesial”.

No número 179, suprimiu-se: “Queremos decididamente reafirmar e dar novo impulso à vida e missão profética e santificadora das CEBs”; “elas têm sido uma das grandes manifestações do Espírito na Igreja da América Latina e o Caribe, após o Vaticano II”,

depois do caminho percorrido até o momento, com conquistas e dificuldades, é o momento de uma profunda renovação desta rica experiência eclesial em nosso Continente, para que não percam sua eficácia missionária, antes que a aperfeiçoem e a enriqueçam, de acordo com as sempre novas exigências dos tempos.

Documento original

Neste mesmo número, suprimiu-se, também: “As CEBS em comunhão com seu bispo e o projeto de pastoral diocesana, são um sinal de vitalidade na Igreja, instrumento de formação e de evangelização, e um ponto de partida válido para a Missão Continental permanente”; e acrescentou-se:

Mantendo-se em comunhão com seu bispo e inserindo-se no projeto de pastoral diocesana, as CEBs se convertem em um sinal de vitalidade na Igreja particular. Atuando, dessa forma, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, podem contribuir para revitalizar as paróquias fazendo das mesmas uma comunidade de comunidades.

Documento oficial de Aparecida, n. 179

No mesmo número, suprimiu-se: “Elas poderão revitalizar a paróquia, desde seu interior, fazendo das mesmas uma comunidade de comunidades”, substituindo-se por: “Atuando, assim, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, podem contribuir para revitalizar as paróquias, fazendo delas, uma comunidade de comunidades”. Finalmente, acrescentou-se, ao final do número: “Em seu esforço de corresponder aos desafios dos tempos atuais, as comunidades eclesiais de base terão cuidado para não alterar o tesouro precioso da Tradição e do Magistério da Igreja”.

No número 180, ao falar da validade de outras formas de pequenas comunidades, os censores acrescentaram, além destas, também os “movimentos”. E substitui-se: “Junto com as CEBs, há outras ‘variadas’ formas de pequenas comunidades”, por “outras ‘válidas’ formas”; substituiu-se, também: “A experiência positiva destas comunidades torna necessária uma especial atenção para que tenham a Eucaristia como centro de sua vida e cresçam em solidariedade e integração eclesial e social”, por: “todas as comunidades e grupos eclesiais darão fruto na medida em que a
Eucaristia seja o centro de sua vida e a Palavra de Deus seja o farol de seu caminho e sua atuação na única Igreja de Cristo”.

Como se pode perceber, a mudança no “texto original” com relação às CEBs foi profunda, com supressões, acréscimos e reformulações de redação. Permanecem elementos importantes, mas privados da contundência e profetismo do “texto original”, contrapostos com a obsessiva insistência de inserção das CEBs na paróquia, sem o devido reconhecimento que elas redundam num novo tipo de paróquia, comunidade de pequenas comunidades. Deliberadamente, se desqualifica a “decidida reafirmação” das CEBs feita pelos Bispos, bem como o convite de dar-lhes “novo impulso”. No fundo, está em jogo a eclesiologia do Vaticano II e, sobretudo, o novo rosto de Igreja que as CEBs deram à Igreja na América Latina.

Papa Francisco: as CEBs, riqueza que o Espírito suscita

Se para os censores do Documento de Aparecida as CEBs pervertem o magistério, não estão em comunhão com a paróquia e os movimentos devem ter mais destaque, para o papa Francisco, elas combatem o clericalismo e renovam a paróquia e são riqueza que o Espírito suscita. Pela primeira vez já na longa história dos Intereclesiais das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no Brasil, o evento tem recebido a palavra de apoio de um papa. O papa Francisco, em sua mensagem, retoma o Documento de Aparecida, que se refere às CEBs como um instrumento que permite ao povo “chegar a um conhecimento maior da Palavra de Deus, ao compromisso social em nome do Evangelho, ao surgimento de novos serviços leigos e à educação da fé dos adultos” (DAp 178).

Na Evangelii gaudium, ele frisa ser necessário “reconhecer que, se uma parte de nosso povo batizado não sente a sua pertença à Igreja, isso deve-se também à existência de estruturas com clima pouco acolhedor em algumas de nossas paróquias e comunidades, ou à atitude burocrática com que se dá resposta aos problemas, simples ou complexos, da vida de nossos povos. Em muitas partes, predomina o aspecto administrativo sobre o pastoral, bem como uma sacramentalização sem outras formas de evangelização (EG 63).

Ao abordar a questão de uma “pastoral em conversão”, fala que as Comunidades de Base como “uma riqueza da Igreja que o Espírito suscita para evangelizar todos os setores e ambientes”. Elas trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo, que renovam a Igreja”. Mas, conhecedor das tensões ainda existentes em torno a elas, frisa a necessidade de que elas “não percam o contato com esta realidade muito rica da paróquia local e que se integrem de bom grado na pastoral orgânica da Igreja particular” (EG 29).

6. A inculturação

Uma sexta questão sensível, colocada em relevo pelos censores do Documento de Aparecida, é com relação à inculturação da fé, à legitimidade de Igrejas autóctones, com rosto próprio. A Igreja na América Latina, com a “recepção criativa” do Vaticano II feita pela Conferência de Medellín, desencadeou um processo gradativo de construção de uma Igreja autóctone, com rosto próprio.

Tarefa pendente: a inculturação no mundo indígena e afro-americano

Sobretudo os indígenas e os afro-americanos, como reconhece o Documento de Aparecida, são povos que reivindicam serem tomados em conta na catolicidade (DAp 91). As teologias índia e afro-americana são expressões desta legítima aspiração, que tem contribuído para processos de uma evangelização inculturada no Continente. Entretanto, também neste campo, não faltaram mal-entendidos, tensões e conflitos com segmentos mais conservadores da Igreja. Eles argumentam o perigo da perda da catolicidade ou da unidade na mesma fé, nem sempre distinguindo unidade e diversidade, como frisou o Vaticano II. E têm obstaculizado muitos processos de inculturação da fé, seja na liturgia, na criação de ministérios ou na teologia.

Esta preocupação está registrada nas mudanças que os censores fizeram no “texto original” do Documento de Aparecida. Por exemplo, diziam os Bispos: “Permanece ainda nos imaginários coletivos uma mentalidade e uma visão colonial com relação aos povos originários e afro-americanos”. A redação foi substituída por: “Permanece, em alguns casos, uma mentalidade e um certo olhar de menor respeito em relação aos indígenas e afro-americanos” (DAp 96). Mais adiante, ao falar da formação dos agentes de pastoral, o “texto original” dizia e foi supresso pelos censores: “Faz falta uma sólida estrutura de formação permanente dos fiéis, em outros agentes de pastoral e uma evangelização mais inculturada em todos os níveis, particularmente nas culturas indígenas e afro-americanas” (DAp 100).

Papa Francisco: ir para as periferias, sem domesticar as fronteiras

Unidade confundida com uniformidade, medo do diferente, distância das culturas indígenas e afro-americanas são posturas que os censores deixam entrever em seus posicionamentos, ao contrário do papa Francisco, que desafia a Igreja ir para as periferias, sem domesticar as fronteiras. Em mais de uma oportunidade, também em sua visita ao Brasil, o papa Francisco desafia a Igreja sair de si mesma, do centro, e ir para as ruas, às fronteiras. Seu pensamento recorrente e insistente frisa que “uma Igreja que não sai de si mesma adoece, cedo ou tarde, em meio à atmosfera pesada do seu próprio fechamento. A doença típica da Igreja fechada é ser autorreferencial; olhar para si mesma, ficar encurvada sobre si mesma, como aquela mulher do Evangelho. É uma espécie de narcisismo que nos leva ao mundanismo espiritual (EG 93) e ao clericalismo sofisticado, e, depois, nos impede de experimentar a doce e reconfortante alegria de evangelizar” (BRIGHENTI, 2014, p. 21).

Para uma Igreja missionária capaz de chegar a todos, sobretudo, aos pobres e esquecidos, é preciso que haja uma reforma de suas estruturas. Na Evangelii gaudium, afirma o papa Francisco que se trata de “fazer com que todas as estruturas da Igreja se tornem mais missionárias; que a pastoral ordinária, em todas suas instâncias, seja mais expansiva e aberta; que coloque os agentes de pastoral em constante atitude de saída”. O critério específico para a reforma das estruturas da Igreja é a missão e não a sofisticação administrativa. Para o Papa, a “mudança das estruturas” (das caducas para as novas) não é “fruto de um estudo de organização do sistema funcional eclesiástico” (EG 25). O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a missionariedade (EG 28).

Na perspectiva do dinamismo de uma evangelização inculturada, o papa Francisco, em entrevista à Revista La Civiltà Cattolica, exorta que ao sair para as ruas, é preciso ficar atentos, para não cair na “tentação de domesticar as fronteiras: deve ir-se em direção às fronteiras, e não trazer as fronteiras para casa a fim de envernizá-las um pouco e domesticá-las”. É o respeito à alteridade, a acolhida dos diferentes, estar disposto a deixar-se surpreender e aprender com as diferenças, dado que na evangelização não temos destinatários, mas interlocutores (EG 234). Em lugar de uma missão proselitista e domesticadora, um processo de evangelização pautado pelo testemunho e o diálogo é condição para o anúncio do querigma.

Na Evangelii gaudium, o papa Francisco afirma que a inculturação é a analogia pastoral da encarnação do Verbo. Na verdade, esta é a base teológica do imperativo de uma evangelização como inculturação do Evangelho. O dom de Deus se encarna na cultura de quem o recebe, diz ele. Lembra que a Igreja, como Povo de Deus, se encarna nos povos da Terra e cada um deles tem sua própria cultura” (EG 115). Consequentemente, o Evangelho inserido e inculturado “num povo, no seu processo de transmissão cultural, também transmite a fé de maneira sempre nova. Daí a importância da evangelização entendida como inculturação” (EG 122).

Falando do processo de uma evangelização inculturada, o papa Francisco frisa na Evangelii gaudium que “pela inculturação, a Igreja introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade, porque cada cultura oferece formas e valores que podem enriquecer o modo como o Evangelho é compreendido e vivido” (EG 116). Por isso, está “na lógica da Encarnação pensar num cristianismo pluricultural” (EG 117). O conteúdo do Evangelho é transcultural, mas se encarna em cada cultura. Assim, conclui o Papa, não é correto pensar que “o anúncio evangélico tenha de ser transmitido sempre com determinadas fórmulas preestabelecidas, que exprimam um conteúdo absolutamente invariável” (EG 129).

Notas:

  1. Alocução no Encontro com a Comissão de Coordenação do CELAM, por ocasião de sua visita ao Brasil, no Centro de Estudos do Sumaré, Rio de Janeiro, dia 28 de julho.
  2. A Conferência de Medellín, em sintonia como o modelo de Igreja na era primitiva, refere-se às CEBs como “célula inicial da estruturação eclesial” (Med 6,1).
  3. Este tipo de leitura bíblica, feita no interior das Comunidades Eclesiais de Base, foi popularizada e amplamente divulgado pelos roteiros dos “Círculos Bíblicos”, elaborados por Frei Carlos Mesters.

Fonte:

Revista Pistis & Praxis, Teologia e Pastoral, Curitiba, v. 8, n. 3, 673-713, set./dez. 2016.

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