Observatório da Evangelização

Dar visibilidade às ações evangelizadoras e suscitar reflexões teológico-pastorais.

Observatório em Pauta

CEM ANOS DE PRESENÇA EVANGELIZADORA EM BELO HORIZONTE!

Filhas de Jesus! Quem são essas irmãs cuja história nos enche de perplexidade e cuja presença em Belo Horizonte antecede à criação da própria diocese? (De fato, a capital mineira tornou-se sede diocesana em 11 de fevereiro de 1921, pelo Papa Bento XV. Três anos depois, o Papa Pio XI elevou Belo Horizonte à categoria de Arquidiocese e seu bispo a arcebispo. Na época, foi a terceira província eclesiástica de Minas Gerais.)

candida maria

Essas ousadas missionárias tem o desejo de parecer-se a Jesus em tudo, como uma filha se parece a seu pai. Por isso é que sua fundadora, Santa Cândida Maria de Jesus, escolhe para sua congregação religiosa o nome de FILHAS DE JESUS.

Assim se expressam em seu site:

IHS

Nosso nome na Igreja – “Filhas de Jesus” – significa para nós uma forte identificação com Jesus: ser de seu grupo…  pertencer à sua comunidade… segui-lo como discípulas. Ser Filhas de Jesus é estar com Ele, contemplar a vida com o seu olhar, viver como Ele viveu, tratar as pessoas como Ele tratou, escutar, perdoar e promover as pessoas como Ele fez, buscar com paixão, como Ele, que se cumpra o sonho de Deus para a humanidade: que todos sejam FILHOS e IRMÃOS.

Nossa família religiosa se sente especialmente chamada a viver em atitude filial diante de Deus Pai.mãos pai e filho Essa atitude filial deve transparecer na confiança em Deus e em sua providência de Pai, pela segurança em seu amor incondicional, pelo constante louvor e gratidão, como Jesus. Esse rosto de Deus que contemplamos em JESUS ENCARNADO nos convida a viver em fraternidade para com todos, na gratuidade, na simplicidade, na alegria. Somos Filhas de Jesus. A Filha tem que parecer-se com o Pai.

A partir de hoje, dia de Santa Cândida, até 16 de setembro próximo, centenário da fundação do Colégio Imaculada Conceição (CIC – BH), acompanhe neste espaço o nosso olhar sobre a presença evangelizadora das Filhas de Jesus e participe do Observatório da Evangelização fazendo comentários, dando-nos sugestões, enviando-nos sua contribuição.

Tânia Jordão.

______________________________________________________________________

No dia 25 de dezembro, celebramos o 11º aniversário da ressurreição do estimado padre Alberto Antoniazzi. Para fazer memória de suas pertinentes contribuições, o Observatório da Evangelização disponibiliza uma série de testemunhos sobre esse grande homem de fé:

2858

TESTEMUNHOS SOBRE O PE. ALBERTO ANTONIAZZI

1. Pe. Alberto Antoniazzi  –  uma saudade boa

Por Eva Torres

Conheci o Pe. Alberto Antoniazzi no final da década de 80 quando fui convidada a integrar a equipe do Projeto de Pastoral “Construir a Esperança”, então lançado na Arquidiocese de Belo Horizonte. Nesta ocasião, era Arcebispo de Belo Horizonte o Cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo.

Pe. Alberto era o Coordenador do Projeto, e, mais que isso, era a cabeça e o Coração do Projeto. Contava com a colaboração de renomados padres da Arquidiocese, de vários leigos e outros colaboradores, mas foi  graças ao seu trabalho incansável, que a Igreja de Belo Horizonte deu um salto de qualidade, a partir da década de 90.

Algumas ações se destacaram neste Projeto de Pastoral:

  • Um estímulo ao estudo da Bíblia trazendo-a à nossa realidade, através de folhetos semanais que eram oferecidos aos grupos;
  • A oferta de roteiros de homilia para as diversas celebrações dominicais;
  • Incentivo aos leigos a uma participação de qualidade na igreja, nas comunidades, na sociedade;
  • Preocupação e esforço de organização da juventude;

Padre Alberto deu a maior força para o trabalho social e político. Produzia folhetos para estudo dos documentos da Igreja, principalmente os da América Latina e da CNBB. Isso era inédito na igreja! E seus livros e artigos publicados em tantas revistas e jornais católicos!

Aos leigos da equipe dava todo o apoio, incentivo ao estudo, fosse aqui na Arquidiocese ou fora. Confiava no nosso trabalho com carinho e generosidade. Eu não seria capaz de dizer aqui tudo que Pe. Alberto fez pela Igreja de Belo Horizonte e do Brasil! Além de tudo era generoso com os pobres, que frequentemente o procuravam lá no Seminário onde morava. Quantos testemunhos a gente conhece!

Ao ser acometido pela doença que o levaria à morte, foi fraternalmente acolhido pelo Monsenhor Eder Amantéa em sua casa, onde passou seus últimos dias. Fui visitá-lo junto com a jornalista Vânia Queiroz. Ele nos recebeu com um sorriso, perguntou logo pelo nosso trabalho, antes que perguntássemos pela sua saúde.

Agradeço a Deus o privilegio de ter convivido com Pe. Alberto Antoniazzi por tanto tempo! Agradeço também por ele ter vindo para o Brasil e se dedicado tão completamente a esta Igreja de Belo Horizonte!

_________________________________________________________________

2. Antoniazzi e Igreja: dois nomes que soam bem próximos

Por João Batista Libanio

Não o compreendo a não ser metido na múltipla tarefa de pensar uma eclesiologia atualizada, os ministérios condizentes com ela e os leigos envolvidos numa pastoral viva. Sua obra se ilumina com base em opções fundamentais feitas por ele na sua vida. Italiano, milanês de nascimento, consagrou-se ao Brasil. Primeiro ponto esclarecedor. Veio jovem e mergulhou com generosidade numa realidade que não era sua. E talvez por isso a tenha conhecido melhor que muitos brasileiros. A distância de nacionalidade permitiu-lhe um olhar crítico que é dificultado pela proximidade nativa.

Conservou um traço de erudição e cultura italianas que lhe possibilitou comparações enriquecedoras. Visitava com frequência a Itália, de onde trazia informações teóricas e práticas sobre a vida da Igreja, adquiridas pela riqueza de contatos mantidos. Com uma bagagem teológica sempre renovada na preciosa fonte europeia, adentrava-se na realidade pastoral. Conhecia como ninguém os meandros da vida eclesiástica brasileira por meio de longa assessoria na CNBB. Na Arquidiocese de Belo Horizonte, seu conhecimento circulava por curvas pouco conhecidas.

Intérprete agudo de dados estatísticos

O Pe. Alberto, por mais que valorizasse os contatos e os conhecimentos da realidade pela via da experiência concreta, desconfiava, porém, de certo primitivismo pastoral. Por isso, visitava assiduamente pesquisas sobre a vida religiosa e civil do povo brasileiro, sobre as radiografias espirituais e sociais das cidades. Interrelacionava com maestria esses dois tipos de conhecimento. Os seus trabalhos manifestam constante preocupação com um duplo movimento. Hauria, quanto podia, reflexões teológicas e pastorais dos dados empíricos das pesquisas que frequentava. Mas também buscava neles a justificativa de posições teológicas bebidas em fontes de livros. A circularidade entre dados estatísticos e considerações teológico-pastorais atravessa praticamente toda sua obra. Daí lhe vêm consistência e atualidade, superando os simplismos comuns aos pastoralistas apressados.

Não é fácil manejar dados estatísticos. O Pe. Alberto possuía excelente capacidade e crescente preparo nessa tarefa. Seu último livro, publicado poucos dias antes de sua morte (ANTONIAZZI, A. et al. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do Pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.), manifesta eximiamente esse seu perfil intelectual próximo dos dados e lúcido nas explicações e conclusões pastorais.

Ao referir-se ao Censo 2000 do IBGE, estranha como teólogos e homens de Igreja não se debruçaram sobre ele para retirar lições dos números. Um primeiro dado salta aos olhos. O Brasil, que em 1970 era um país em que a religião católica monopolizava crenças e atitudes religiosas, começa, a partir de 1980, um processo crescente de diversificação religiosa, a ponto de, em 2000, a cota de católicos cair para 73,9%. Cresceram as igrejas evangélicas e os “sem religião”, e Rondônia e o Norte do País atingem as maiores taxas de diversidade assim como o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. As regiões metropolitanas sofrem bem mais o impacto de tal fenômeno. Antoniazzi estuda minuciosamente o mapa religioso do País.

Diante dele armou hipóteses. O tamanho das paróquias urbanas, mais extenso do que a já alta média nacional, o esgotamento prematuro das forças físicas e espirituais do clero dificultam atendimento adequado dos fiéis. A freqüência dos 20% a 30% dos católicos permite ao clero a sensação de um serviço absorvente, vedando-lhe preocupar-se com as exigências do público potencial e assumir tarefas inovadoras. Numa palavra: o problema pastoral urbano se agrava porque os padres se restringem e se satisfazem com o número dos fiéis que já frequentam as igrejas. Uma vez que eles consomem com a parcela praticante toda a energia disponível, carecendo então de criatividade e renovação pastoral. Faltam à Igreja católica dinamismo, capacidade de mobilização e estratégia de evangelização que as igrejas pentecostais e neopentecostais têm e por isso crescem muito mais rapidamente. Além disso, observa Antoniazzi, citando Ricardo Mariano, que o pentecostalismo aproveita das raízes religiosas populares, como a crença em Jesus, demônios, milagres, mitos bíblicos, pecado, curas, intervenções sobrenaturais, feitiçarias, concepções escatológicas. Servem-se também de técnicas de marketing e de cunho empresarial.

Em outros estudos sobre o mesmo Censo 2000, ele levanta a suspeita de que, sob o rótulo de católico, se esconde dupla ou mais pertença dos fiéis a outras expressões religiosas. Isso se conjuga bem com a tendência geral da modernização dos hábitos da população brasileira na direção do crescimento do individualismo e do subjetivismo que se manifestam na desinstitucionalização da religião e na conseqüente privatização das suas formas. Cresce a religiosidade do povo brasileiro, e diminuem as práticas das religiões institucionais. Há mais expressões religiosas que as pessoas podem escolher, não seguindo a religião antes praticada por tradição familiar. Isso traz a consequência positiva de que os católicos praticantes o fazem por convicção e já não simplesmente por inércia cultural.

Antoniazzi, com os dados estatísticos, refuta a posição de certos conservadores que acusavam as CEBs e a Teologia da Libertação pela politização da fé e, por conseguinte, pela queda da frequência religiosa. Três dados desmentem tal afirmação: onde as CEBs estão mais ativas aí a presença católica se conserva melhor, os anos de maior êxodo da Igreja não coincidem com o tempo forte da Teologia da Libertação, mas com o da Renovação Carismática e dos padres cantores, pop-stars de televisão, e, finalmente, acrescenta ele, o Rio de Janeiro, que teve uma pastoral conservadora e centralizada, arredia à libertação, foi onde a queda de frequência católica se fez mais expressiva.

Em outro momento, debruçou-se sobre o fenômeno pentecostal e neopentecostal, que, a partir da década de 1980, começou a preocupar a Igreja, depois que ela deixara o túnel escuro da repressão. Ademais, observa ele, esfriara o interesse do episcopado e das dioceses pelo diálogo ecumênico. E tal afirmação vinha confirmada por uma pesquisa interna da CNBB que constatava o ecumenismo não ser prioridade nos planos pastorais em nenhuma diocese. Percebeu que sociologicamente a expansão do pentecostalismo é fruto de uma conjuntura sociocultural que afeta toda a sociedade brasileira e, nela, a própria Igreja católica. Esses mesmos fatores que “favorecem a expansão do pentecostalismo criam o terreno propício ao crescimento da Renovação Carismática Católica, a qual – apesar das diferenças doutrinais ou teóricas – apresenta na prática fortes analogias com o pentecostalismo de matriz protestante”. Esses rápidos flashes dos estudos de Antoniazzi mostram seu interesse e acuidade em analisar os dados estatísticos em relação com a pastoral.

Há escritores que se resumem na vida ao que publicaram. Sua presença e influência reduzem-se aos escritos. Atingem até lá onde chegam as letras lidas. O Pe. Alberto é bem diferente. Deixou o legado escrito que continuará sua presença entre nós, como escritor. Tornar-se-á, esperamos, objeto de pesquisa sobre a vida da Igreja do Brasil e, de modo especial, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Excelente campo para dissertações e teses. Que algum estudante se anime!

Mas ele foi também homem incansável de reuniões de pastoral. E nelas, com a maior naturalidade e inteligente sagacidade, punha-se a secretariar. Nesse trabalho pesado e cansativo, marcava com sua pena culta os textos que se iam redigindo. Nunca se conseguirá saber realmente o alcance da presença de seu pensamento nas atas, na redação dos documentos da CNBB, na seleção e incorporação das emendas dos bispos, na produção dos subsídios do Projeto Pastoral Construir a Esperança e na preparação e realização das Assembleias do Povo de Deus (APD) na Arquidiocese de Belo Horizonte. Embora já enfermo e não tivesse estado presente na II APD, deixara na preparação marca indiscutível.

Incansável também foi a sua presença em outra instituição importante da Igreja: Instituto Nacional de Pastoral da CNBB. Organizou cursos para bispos, produziu trabalhos de qualidade assessorou encontros diversificados de pastoral, colaborou na publicação de documentos e estudos da CNBB. Em todo esse longo período de atividade, a pessoa do Pe. Alberto esteve presente e ativa. Nada praticamente se fez sem que ele desse alguma contribuição.

Se, usando a metodologia alemã clássica de exegese, lermos a vasta publicação oficial e oficiosa da Igreja do Brasil e de Belo Horizonte das últimas décadas, analisando-a quanto à história da tradição, da forma e da redação, encontraremos o Pe. Alberto presente nos três momentos. De sua cabeça, nasceram muitas das ideias (história da tradição); de seus múltiplos textos-rascunhos, teceram-se documentos-base (história das formas) e, por fim, por meio do seu retoque redacional (história da redação), elaborou-se sua redação final. Unicamente um estudo bem pormenorizado das camadas dos textos, talvez muito difícil, se não impossível, possibilitar-nos-ia perceber a influência decisiva do Pe. Alberto. Só o testemunho de muitos de nós que trabalhamos com ele em certos momentos da produção dos textos permitirá dar-nos conta de sua relevância. Dom Celso, ex-secretário-geral da CNBB e atual vice-presidente, afirma que “com exceção das Diretrizes da Ação Evangelizadora de 1975, ele (Pe. Alberto) participou das redações de todas as outras produzidas nessas últimas décadas”.

(Os grifos são nossos)

Fonte:

Revista Horizonte

_________________________________________________________________

3. Peregrino da esperança: Alberto Antoniazzi

Por Mauro Passos

A atuação de Alberto Antoniazzi foi muito significativa para o catolicismo brasileiro. Chega em Belo Horizonte no ano de 1964, em pleno período do Concílio Vaticano II, época de grandes transformações no campo religioso católico. O cenário religioso brasileiro abrigou muitas mudanças, questionamentos e chega aos anos 1970 com uma ousada reflexão e posição. Transcrevo uma observação feita por ele no livro de K. Rahner, Vaticano II:

Fica nítido, nesse período, o impulso renovador do catolicismo brasileiro. Movimento interno e externo revelador de busca de reconstrução da própria identidade e presença na sociedade brasileira. Momento para se repensar a vida e a atuação da Igreja à luz das grandes Constituições sobre a Revelação, a Liturgia, a Igreja, a Igreja no mundo de hoje. Nunca, talvez, na história, ocorreu tão sério exame de consciência, visando despojar-se de tudo a favor da pureza do evangelho. Onda de seiva vigorosa. (RAHNER, 1966, p. 6-7)

Em vários encontros e palestras, podia-se ouvir do Antoniazzi a referência ao Concílio. Para ele, esse acontecimento, por si só, era bastante significativo. Esse livro está cheio de observações, notas, citações de documentos. Era leitor e estudioso de grandes expoentes da teologia e comentadores do Concílio Vati- cano II. Em outra folha, faz a seguinte observação:

“Paulo VI traz duas novidades. Uma interna – a instituição do Sínodo dos Bispos – e outra externa – a aceitação de visitar a sede da ONU, no XX aniversário de sua fundação”.

Esses escritos já assinalam sua capacidade analítica de compreender cenários intra e extra-eclesiais.

Em sua produção científica e intelectual, pode-se perceber grande relação entre história, sociedade, experiência vivida e religião. Suas reflexões sobre religião estavam sempre em diálogo com os aspectos sociais e culturais. Os sinais mais nítidos dessa aproximação estão nos seus últimos escritos. Era um peregrino da cultura. Seu percurso cultural demonstra que lia obras diversas – História, Sociologia, Economia, Literatura, Filosofia etc. A Livraria Paulus, na PUC Minas, era sempre visitada, como também a biblioteca. Sua biblioteca é uma verdadeira história de vida. As obras que deixou e os registros de sua experiência constituem variada e rica fonte de informação. As anotações pessoais permitem outra leitura e se tornam, assim, fonte de estudo e pesquisa. Além dos livros, assinava várias revistas, jornais e possuía grande número de separatas. Lia (e falava) em várias línguas modernas, como conhecia bem o latim e o grego. Valho- me, neste momento, de uma citação de Clarice Lispector que afirma: “Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho”. Era um leitor ativo e metódico. A presença e os gestos de Alberto Antoniazzi eram como coisa viva, atuante e dinâmica. Daí seu interesse por qualquer tempo – o de ontem e o de hoje. Buscava o humano em sua inteireza. Era alguém em busca do significativo. Essa era sua nota característica como professor, intelectual, pensador e religioso. Soube assimilar esse lugar movente e suas diferentes mediações. Conjugava sua grande capacidade intelectual com disponibilidade para o serviço e para a simplicidade.

Completando esse quadro, é importante afirmar que, em seu ambiente de trabalho, estavam fotos de família e outros objetos carregados de representação. Lembro-me de que, em fevereiro de 2001, me mostrou a foto e um cartão de uma criança que sua família adotara. Sua mesa, computador, estantes, pastas com- punham o seu trabalho. Compareciam no dia-a-dia para ajudar a recompor esse ambiente, como se estivessem aguardando seu dono. E, assim, com simplicidade, hospedavam-no no silêncio.

Na sua busca e na construção das palavras. O folheamento de vários significados seriam tecidos em palavras, artigos, projetos, pesquisas, livros e leituras.

A esta altura, penso já ter indicado suficientes provas sobre esse jovem italiano/brasileiro. Estava sempre aberto ao diálogo. Forma de estreitar relações com o outro, o mundo, o diferente. Com um conjunto de qualidades humanas, impressionava a todos. Conseguia revelar a densidade contida em suas ideias e em seus projetos. De forma especial, Alberto Antoniazzi projetou-se e tornou-se fonte para o estudo do catolicismo brasileiro. Isso se deu pelo seu empenho em construir um conhecimento capaz de historiar um período da Igreja no Brasil e instrumentalizar as ideias necessárias à aceleração do tempo. É uma figura marcante, tanto na Igreja de Belo Horizonte quanto em nível nacional. Nos últimos 30 anos, os documentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) têm a força de seu pensamento. Para ilustrar esses dados, Alberto Antoniazzi faz o seguinte comentário em um trabalho que escrevemos juntos:

A mentalidade religiosa no limiar do novo milênio não é mais a dos anos 1970 e 1980, que deram origem, no Brasil, a uma intensa renovação bíblica e litúrgica. Cresceram, nas pessoas, o individualismo, o subjetivismo, o emocionalismo. Enfraqueceu-se o sentido da história da salvação. Predomina, como critério determinante das escolhas religiosas, o gosto pessoal. […] Daí alguns desafios para os nossos programas de evangelização. […] Afinal, tudo isso não estará separado do esforço a que a Igreja é chamada hoje (e sempre mais no futuro) a fazer, testemunhando a mensagem evangélica na plena fidelidade à pessoa de Jesus e ao projeto de Deus, mas de forma e com uma linguagem que a torne significativa para as novas gerações e a nova cultura, pluralista e dinâmica, que o início do Terceiro Milênio cristão anuncia. (PASSOS, 1999, p. 207-208)

Mais que julgar, ele tenta interpretar o tempo presente, resultante de condicionamentos e da vontade e do poder de ação das pessoas. Procura entender o social e o cultural e a influência que exercem na experiência religiosa.

Fonte:

Revista Horizonte

_________________________________________________________________

4. À memória de Alberto Antoniazzi

Por Paulo Sergio Soares

Poucos dias depois que entrei para o Seminário, em Belo Horizonte, numa reunião com os novos ingressados, o Pe. Alberto Antoniazzi, então vice-reitor, perguntou-nos se alguém de nós gostaria de fazer parte de uma equipe de trabalho bíblico coordenada por ele. Tratava-se da equipe do “Bíblia-Gente”, responsável pela redação dos roteiros de estudo bíblico como subsídio para milhares de círculos bíblicos espalhados pelo Brasil. “BÍBLIA: Deus caminhando com a GENTE”, era o título e a linha hermenêutica daqueles folhetos populares, com linguagem bem ao alcance do povo mais simples das comunidades. Por meio deles, o povo conhecia uma tradução acurada para os dias atuais, ligada aos fatos da vida, e podia alimentar sua caminhada de fé, renovar a esperança e reforçar a luta por uma nova sociedade, inspirada no grande sonho-utopia de Jesus de Nazaré: o Reino de Deus acontecendo neste mundo.

Prontamente, eu me dispus a participar da equipe. Na semana seguinte, lá estava eu, um jovem de apenas 18 anos, iniciante no mundo bíblico, entre grandes teólogos e exegetas, como o frei carmelita Carlos Mesters, grande mentor e propagador da leitura popular da Bíblia, e o padre salesiano Wolfgang Gruen, renomado exegeta, de cujo conhecimento e profunda veneração pelas Sagradas Escrituras tive a felicidade de me abastecer ao longo do curso de Teologia, com suas aulas sempre muito participadas. Também encontrei, na equipe, a irmã paulina Rosana Pulga, apaixonada pela difusão da bela experiência dos grupos populares de estudo bíblico e de sua maneira de ler a Palavra de Deus; a consagrada Inês Broshuis, sábia promotora da centralidade da Bíblia na Catequese; Pe. Benjamin Carreira, Antônio Geraldo Cantarela e tantos outros amantes e servidores da Palavra que passaram pela equipe.

À frente dos trabalhos, sempre com sua postura ao mesmo tempo profunda, concisa, crítica e, por vezes, com uma boa pitada de humor, o Pe. Alberto Antoniazzi dava provas de ser não apenas grande filósofo, teólogo e sociólogo – o que igualmente pude experimentar nas disciplinas em que tive a graça de tê-lo como professor – mas, também exímio biblista, pastoralista e profundo conhecedor da realidade, da cultura e da linguagem do povo brasileiro, a despeito de sua origem italiana.

Desde então, acostumei-me a frequentar sua biblioteca particular no Seminário, uma antessala do seu quarto de dormir, abarrotada de livros, onde ele passava a maior parte do tempo em que estava em casa. Fora dos momentos comuns de refeições e celebrações, era raro não vê-lo à escrivaninha, lendo ou escrevendo algo, entre pilhas de livros, revistas, jornais e papeis. Impressionava-me sua dedicação à leitura, com certeza a principal fonte de sua vasta cultura e de seu domínio de todo e qualquer assunto sobre o qual era consultado.

Mas, o Pe. Antoniazzi era mais do que um grande intelectual, um estudioso ou um teórico. Era, sobretudo, um homem sábio, cuja sensibilidade e solidariedade jamais o deixaram afastar-se das pessoas, muito menos das mais simples, do povo sofredor. Por vezes, ia celebrar em alguma paróquia nos finais de semana, onde tomava contato com as comunidades e podia captar sua realidade. Por outro lado, tornaram-se conhecidas entre os seminaristas daquela época algumas figuras típicas que, regularmente, o procuravam para pedir ajuda financeira, a qual ele nunca negava. Isso lhe garantiu, entre essas pessoas, sempre muito pobres, o qualificativo singular de “um padre muito bom”. Penso, aqui, naquela bondade que caracteriza não só personagens típicos da Bíblia, no exercício do cuidado para com os outros, sobretudo os fragilizados, como o “bom pastor” (Sl 23; Jo 10,11) e o “bom samaritano” (Lc 10,30-37), mas, também e principalmente, na imagem bíblica do próprio Deus: “Sim! Porque o Senhor é bom, o seu amor é para sempre” (Sl 100,5 e passim).

Tudo isso fazia com que Pe. Alberto brilhantemente evitasse se tornar um “teólogo de gabinete” e imprimisse em sua obra – escreveu vários livros e artigos e colaborou em muitas publicações – uma visão profundamente humana e pastoral na abordagem das questões teológicas, principalmente quanto à evangelização na cidade. Não por menos, ele se tornou um dos principais assessores da CNBB e de outros órgãos pastorais da Igreja Católica. É inegável sua contribuição para o avanço da evangelização contextualizada na contemporaneidade que a Arquidiocese de Belo Horizonte vem buscando implantar, desde os anos 80, sobretudo a partir do início de 1990, com o Projeto Pastoral Construir a Esperança. Esse projeto serviu de inspiração para a própria CNBB, na virada do milênio.

Talvez se deva dar razão ao ditado: “tudo o que é bom dura pouco”, quando se pensa que esse homem, capaz de deixar a “zona de conforto” de sua terra natal, para viver e atuar neste nosso país, à época sacudido pelas perturbações sociais e políticas – ele chegou por aqui nos anos 60, os “anos de chumbo” da ditadura militar -, esse homem que, apesar de tanta notoriedade, vivia de modo simples e nunca se afastou dos mais pobres, um homem que tanto contribuiu para o fortalecimento do espírito de abertura da Igreja no Brasil para o mundo contemporâneo, enfim, esse homem tão bom, tenha morrido relativamente tão cedo, aos 67 anos de idade.

Onze anos já se passaram desde aquele 25 de dezembro em que “o padre bom”, nos deixou, vencido por um câncer violento e implacável. Jamais, porém, esquecerei sua pessoa, seu caráter, sua sabedoria. Seu significado é muito especial para mim, acima de tudo, porque, depois daquele convite tão simples, no início de minha caminhada de formação filosófica e teológica, ainda graças a ele pude trilhar uma larga estrada de aprofundamento da Palavra de Deus. A influência dele foi tanta em minha formação, que posso garantir: sem ele eu não seria quem hoje sou. De fato, Pe. Alberto foi o responsável direto por minha especialização em Bíblia, quando fui convidado por Dom Serafim, então Arcebispo de Belo Horizonte, a estudar em Roma, onde fiz o Mestrado em Ciências Bíblicas. Daí para cá, sempre me inspiro em sua busca constante de trazer a Bíblia e, consequentemente, a Teologia, para a realidade contemporânea.

Muito obrigado, Pe. Alberto, pelo estímulo, pelo apoio e pela amizade que se mantém viva entre nós, pois, como sempre compartilhamos, em nossos estudos e trabalhos bíblicos, o Reino de Deus vai se fazendo na história e, nessa caminhada, em que Deus está sempre presente, você, que hoje se encontra a seu lado, também continua caminhando com a gente.

_________________________________________________________________

5. Alberto Antoniazzi, um homem de Deus!

Por Luiz Antônio Ribeiro de Freitas

Tive a felicidade de conviver com o Padre Alberto Antoniazzi na paróquia do Santo Cura d’Ars, do Prado, onde ele celebrava missa aos domingos, no tempo em que o Padre Antônio Sérgio Palombo de Magalhães era o pároco.

O Padre Sérgio morava num bairro vizinho ao Prado, numa casa aconchegante, onde, especialmente aos domingos, preparava, com muito talento, pratos variados para o almoço, oportunidade em que reunia amigos e paroquianos em torno da mesa. Participei de alguns destes encontros, sempre ao lado de pessoas importantes, bispos, padres, professores, entre eles o Padre Alberto Antoniazzi.

Antoniazzi era um milanês da pele rosada, sereno e que estampava um sorriso largo, os dentes da frente ligeiramente separados. Antes de tudo, foi um cristão devotado à causa com a seriedade que esta vocação exige. Se não fosse presbítero, título que melhor o caracterizava, certamente seria identificado como um intelectual perspicaz, bem formado, bem articulado, sempre muito atualizado acerca de qualquer assunto.

 Mas era um padre. Para nós, cristãos católicos, este título é suficiente para dizer muito daquilo que alguém pode vir a ser.

Para alcançar esta condição, Antoniazzi teve que enfrentar muitas dificuldades. Era criança quando a Segunda Grande Guerra varreu a Europa, o que levou sua família a fugir dos bombardeios que castigaram Milão e a se refugiar nas montanhas da Itália.

Estudou as primeiras séries numa escola de aldeia, teve que começar a trabalhar assim que a idade permitiu. Trabalhava de dia, estudava à noite. Estudou Filosofia em Milão, de onde saiu com o título de doutor. Quando concluiu este curso, decidiu ingressar no seminário. Ele contava que encontrou dificuldade de assumir a vida celibatária, mas a vocação de servir a Igreja como padre falou mais alto. Mudou-se para o Brasil na década de 60 e foi ordenado padre por Dom João Resende Costa. Foi um grande colaborador de Dom Serafim Fernandes de Araújo.

Antoniazzi também era muito ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, e, por via de consequência, a grandes bispos, como Dom Hélder, Dom Aloísio Lorscheider (mais tarde cardeal), dom Ivo Lorscheiter, dom Luciano Mendes de Almeida, entre outros.

Redigia muito bem. Certa ocasião, conversando com o teólogo Leonardo Boff, ele me disse da capacidade do Padre Alberto de condensar as decisões tomadas pela CNBB. Segundo Boff, sua capacidade de síntese era impressionante. Era capaz de participar de longas sessões da conferência, passar a noite redigindo e, na manhã seguinte, apresentar um texto irretocável, rigorosamente fiel ao que foi acordado no dia anterior. Apreciava ler. Lia muito. Estava sempre com um livro nas mãos. Escreveu livros e muitos artigos. Se não nos deixou mais textos brilhantes, isso se deu, tão somente, porque esteve servindo em outras frentes, não tendo tempo de redigi-los.

Foi chefe do Departamento de Filosofia e Teologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e depois Pró-Reitor de Graduação e Vice-Reitor desta instituição. Foi coordenador do projeto pastoral da Arquidiocese de Belo Horizonte sob o lema “Construir a Esperança” e coadjutor da paróquia do Santo Cura d’Ars, no Prado. Sempre carregando uma pasta de couro cheia de publicações e de documentos, certamente fez muito mais do que estou contando a seu respeito.

Dito isto, consideradas as linhas mestras de sua respeitável biografia, resta lembrar um pouquinho do Padre Antoniazzi do dia a dia, desvestido de seus títulos e feitos notáveis. Tenho convicção de que é aí que reside sua grandeza maior. Porque, ao lado de tanto preparo, de tanta formação, da inteligência afiada, da capacidade de transformar pingo em letra e de fazer letra virar conhecimento, de conhecer profundamente o grego, o latim e dominar o francês, o português e o italiano, Antoniazzi sempre foi muito simples, muito cândido, muito discreto. Recebia a todos os que o procuravam com a mesma atenção. Tinha paciência para com cada um. Mantinha um sorriso constante num rosto sereno como de um pai carinhoso. Sabia oferecer uma palavra consoladora quando mais se precisava disto e de nada mais. Era capaz de conversar com o papa e em seguida com um pobre ou, na ordem inversa, com a mesma doce humanidade.

Eu participava de suas missas, confessei-me com ele, aconselhei-me com ele, questionava-o sobre minhas dúvidas, tinha-o como um bom amigo! Considero-me privilegiado por ter convivido com o Padre Antoniazzi. Reconheço o quanto contribuiu para minha edificação e sou-lhe muito grato por tudo.

Ele se foi há dez anos e deixou, também, muita saudade. Um dia, quando Deus quiser, nos veremos novamente. Aí a saudade vai dar lugar à alegria plena, o tempo será preenchido pela eternidade.

Enquanto isto, resta-nos dignificar a memória dos que já se foram, procurando viver bem, a exemplo deles.

Grazie tanti, Antoniazzi!  Arrivederci, meu prezado amigo!

_________________________________________________________________

Entrevistas sobre o Padre Alberto Antoniazzi

Observatório da Evangelização entrevista o teólogo biblista Johan Konings sobre Alberto Antoniazzi

imagens_110201489510

OE: Como foi a sua convivência pessoal, social e eclesial, com Alberto Antoniazzi? 

Conheci o Pe. Antoniazzi logo depois de minha chegada ao Brasil em 1972, no quadro da pastoral das universidades católicas e soube que saí da mesma raiz missionária que ele, os padres Fidei Donum, ou seja, padres diocesanos europeus que eram enviados aos outros continentes onde havia falta de padres, no caso, a América Latina. Com o cimento que foi a renovação alimentada pelo Concílio Vaticano II, nossa amizade estava selada.

OE: Por que Alberto Antoniazzi foi escolhido para dar nome ao grupo de reflexão interdisciplinar que você criou e coordena?

Porque Alberto Antoniazzi foi um exemplo desigual de interesse amplo – filosofia, teologia, Bíblia, história da Igreja, sociologia e mesmo economia. Por esta razão lhe foi dedicada a Biblioteca da PUC-Minas. Com aquele espírito aberto e competente, ele combinava profundo senso pastoral, total disponibilidade e radical generosidade e desapego material. Era o homem que indicava o rumo em que o Concílio Vaticano II, pelo menos logo depois de sua conclusão, devia induzir a Igreja, em diálogo com o mundo, sobretudo, intelectual.

OE: Para a caminhada da Arquidiocese de Belo Horizonte, qual a importância de Alberto Antoniazzi?

Foi o homem da pastoral de conjunto da Arquidiocese, dos planos pastorais – Projeto Pastoral Construir a Esperança, das pesquisas sociopastorais, das publicações bíblico-pastorais, do Jornal de Opinião, além de amigo de muitos padres e leigos. Além disso, sua presença simultânea no Seminário e na PUC fazia com que sua atuação e conselhos atingiam amplos setores da Igreja local.

OE: Poderíamos dizer que a ação eclesial do Pe. Antoniazzi foi fruto do Concílio Vaticano II?

A meu ver, ele foi a encarnação concreta do Vaticano II em Belo Horizonte. Não em última instância porque, antes de sua chegada ao Brasil, em 1964, ele vivera o ambiente do Concílio e foi amigo pessoal do seu arcebispo em Milão, Giovanni Battista Montini, que em 1963 assumiria o papado e a responsabilidade de levar o Concílio a termo, sob o nome de Paulo VI.

OE: Quais foram as maiores contribuições do Pe. Alberto para a vida da Igreja?

À primeira vista, suas publicações, geralmente de cunho sociopastoral, e também suas numerosas colaborações com a CNBB e com a Arquidiocese. Mas creio que mais escondidamente ele exerceu enorme influência por seus contatos pessoais, sua amizade, sua capacidade articuladora e, se preciso, suas críticas competentes e consistentes.

103

OE: Pe. Alberto Antoniazzi produziu muitas reflexões sobre a realidade dos presbíteros. Há razões que expliquem todo esse esforço intelectual?

Ele dirigia o Seminário, presidiu o Instituto de Teologia, atuava na Comissão Nacional de Presbíteros e no Instituto Nacional de Pastoral. E talvez emblematicamente, era coadjutor dominical na paróquia Cura d’Ars. O presbiterado era seu contexto cotidiano, além do cuidado que ele mesmo dedicava à sua espiritualidade presbiteral. Ele respirava responsabilidade presbiteral. Mas não era clerical, nem queria que o clero o fosse.

OE: Sobre evangelização, podemos dizer que há uma grande atualidade na reflexão do Pe. Alberto Antoniazzi?

Seu conceito de evangelização era o mesmo da Constituição conciliar Gaudium et Spes: levar ao mundo a Boa-nova a partir de dentro, a partir da presença no mundo secular, mas, naturalmente, com o espírito voltado para Jesus Cristo. Uma evangelização profundamente humanista, não considerando estranho nada do que é bom na humanidade. Eu não conseguiria descrever isso aqui em palavras, mas eu creio que o Papa Francisco representa a evangelização com que o Pe. Alberto sonhava.

OE: Ao evocar o nome de Alberto Antoniazzi, depois de mais de uma década desde a sua morte, o que de mais significativo vem em sua mente?

É o que eu apontava: dez anos depois de sua morte está se reavivando na Igreja o seu projeto de evangelização na linha do Concílio Vaticano II, mas em circunstâncias totalmente novas, que exigem também uma releitura do Concílio. O grão caído na terra começa a produzir fruto. A visão de Pe. Alberto, aparentemente tão facilmente esquecida, se confirmou. Mas devemos ainda fazer um enorme esforço para chegarmos novamente ao nível de consciência cristã crítica – sobretudo entre os intelectuais e profissionais – em que ele atuava.

OE: Fechando a nossa conversa, o que mais você gostaria de dizer aos leitores do Observatório da Evangelização?

A evangelização começa na vida pessoal. Muitas vezes o único evangelho que seus amigos vão encontrar é você mesmo. Creio que isso é uma lição que o Pe. Alberto deixou para todos nós. Ele não era chamado aos diversos conselhos e institutos de que ele participou porque tinha diploma universitário. Pelo que me consta, nem era doutor em Teologia. Não teve tempo para isso. Mas ele era chamado para tudo o que é serviço, porque ele era: o amigo Alberto Antoniazzi.

Obs.: Pe. Konings, gentilmente, concedeu essa entrevista ao Observatório da Evangelização, por e-mail, no dia 26/02/2016.

_________________________________________________________________

Textos do Padre Alberto Antoniazzi

ANTONIAZZIfoto1(1)

1. Sete recados do Espírito Santo aos cristãos de hoje

Para fazer memória de suas pertinentes contribuições, o Observatório da Evangelização disponibiliza a seguir um texto luminoso e bastante atual, desse homem extraordinário que dedicou a sua vida a Igreja, sobretudo, nessa Igreja Particular, a Arquidiocese de Belo Horizonte. Para provocar o desejo da leitura, antecipamos no início do Ano extraordinário do Jubileu da Misericórdia o sexto recado do Espírito Santo, segundo Alberto Antoniazzi: que a Igreja se torne lugar de misericórdia e consolação.

Vale a pena ler e deixar-se interpelar…

Sete recados do Espírito Santo aos cristãos de hoje

Por Pe. Alberto Antoniazzi

Todos sabem que o último livro do Novo Testamento, livro da Revelação ou Apocalipse, inicia com sete cartas, advertências proféticas, que João envia às Igrejas da Ásia em nome do Senhor Jesus (cf. Ap 1-3).

Será possível discernir sete cartas ou “recados” que o Espírito Santo envia hoje às nossas Igrejas?[1] Há recados que me parecem bastante evidentes. Há pedidos de mudança ou conversão que os cristãos de hoje devem escutar. A não ser que queiram acabar “vomitados” da boca do Senhor (cf. Ap 3,16), em vez de sentar com ele no trono dos vencedores (Ap 3,21).

Naturalmente, o que vou escrever é apenas um exercício de discernimento e um convite a que outros façam o mesmo. Juntos poderemos enxergar nossas lacunas e infidelidades (Ap 3,17-18), para melhor superá-las. Aliás, qual sinal melhor da presença do Espírito do que a capacidade de partilhar, comunicar, criar comunhão entre nós?

A matéria divide, o espírito une

Para ouvir os recados do Espírito, a primeira dificuldade dos cristãos de hoje — ao menos na Igreja ocidental ou latina, à qual pertencemos — é compreender quem é o Espírito. Em nossa tradição, sobretudo desde a Idade Média, está viva e quase onipresente a figura humana de Jesus: desde o Jesus Menino, venerado no presépio, que lembra seu Nascimento, ao Senhor Bom Jesus crucificado e morto. Mais difícil nos é imaginar o Cristo Ressuscitado, aquele que nem Maria Madalena soube logo reconhecer (cf. Jo 20,14-18). Mas está ausente — ou presente só marginalmente — a figura do Espírito, identificado com as imagens da pomba ou das línguas de fogo, que pouco nos dizem da infinita riqueza do Espírito que cria e vivifica todas as coisas.

Lembrei-me então de uma leitura da adolescência, de um filósofo católico inglês, que procurava — com certo humour — explicar algumas afirmações da doutrina católica. Entre elas, ficaram-me gravadas as observações sobre matéria e espírito.

O filósofo recordava uma característica da matéria que todos conhecemos: o fato de que ela ocupa um espaço, na forma de um corpo ou de um objeto, e onde há um corpo (ou um objeto material) não pode estar outro. Em física se fala de “lei da impenetrabilidade dos corpos”. Daí deriva outra característica importante, que aqui nos interessa: se eu possuo o objeto A, ele não pode pertencer ao mesmo tempo a fulano ou sicrano. Se tenho, por exemplo, um pão ou um bolo, a única forma para partilhá-lo com fulano e sicrano é dividi-lo em pedaços. Neste caso, eu não ficarei com todo o pão, ou todo o bolo, mas só com um pedaço dele. E é sabido que “dividir o “bolo” dá origem a muitas brigas: desde as crianças que querem a fatia maior, até os irmãos que brigam quando se trata de dividir a herança do pai, ou os cidadãos que brigam para dividir o “bolo” da renda ou da riqueza nacional.

Graças a Deus, além da matéria, existe o espírito. É verdade que ele precisa, em nosso mundo, de um suporte material, o que lhe traz alguns condicionamentos. Mas isto não lhe impede de revelar características opostas e extraordinariamente mais interessantes que as da matéria. Tomemos como exemplo uma criação intelectual: uma poesia, uma música, uma lei da física ou uma teoria matemática… Cada uma dessas realidades, cuja essência é espiritual, não material, pode ser possuída por muitas pessoas por inteiro, sem necessidade de divisão. Muitos podem compreender a teoria da relatividade de Einstein, uma vez que ele a descobriu e divulgou. Muitos mais podem apreciar a beleza de uma música ou de uma melodia e reproduzi-la, sem que ela nada perca do seu valor, pelo fato de ser partilhada por muitos. Ela não diminui, como as fatias do bolo dividido entre muitos. Quanto mais gente quer o bolo, tanto menores ficam as fatias! Pelo contrário, uma música ouvida, apreciada ou reproduzida por muitos, vai se enriquecendo de significado, vai revelando novos aspectos da sua beleza. O mesmo acontece com uma fé ou uma religião: quanto mais seguidores conquistar, mais ampla tornar-se-á sua irradiação e mais manifesta sua verdade, sua beleza. Com isso, o espírito não provoca briga para ver quem fica com a fatia maior (a não ser talvez dos direitos autorais)! Todos podem ter acesso às criações do espírito, segundo a capacidade de suas faculdades espirituais (intelecto, vontade, amor), sem diminuir em nada a possibilidade de outros gozarem da mesma verdade, da mesma beleza, da mesma posse.

Contadas assim as características de matéria e espírito podem parecer banais. Mas o que me interessava aqui era apenas insinuar, sugerir, que o espírito (em geral, nem precisa pensar no Espírito de Deus ou Espírito Santo) é uma realidade que por sua natureza cria comunhão entre as pessoas, aproxima-as e as torna capazes de conhecer ilimitadamente o que é bom, belo e verdadeiro. Já o pagão Aristóteles dizia que “a alma (= o espírito humano) é de algum modo todas as coisas”.

Confiantes que o caminho do espírito há de nos revelar muitas coisas novas e boas, a serem partilhadas por todos, vamos ouvir mais de perto o espírito de Deus, o Espírito Santo.

1º recado:

A Igreja volte-se para o futuro

O Espírito não está preso à matéria. Dela se serve como suporte, para se fazer conhecer e alcançar toda a humanidade. Também na Igreja, o Espírito tem uma função semelhante: Ele deve evitar que os cristãos fiquem presos à sua origem, às suas condições históricas iniciais, de forma que reduzam o cristianismo a um museu, que conserva as relíquias de Cristo e das primeiras gerações cristãs. A Igreja é um co c rpo vivo, que até agora revelou apenas um pouco de seu potencial e que no futuro poderá manifestar muito mais a riqueza de dons que recebeu.

Infelizmente, na tradição católica latina, a Igreja ficou muito voltada para o passado. Concebeu a si mesma como uma instituição, que teve um Fundador — Jesus — e dele recebeu uma Constituição (o Evangelho, os sacramentos), que deveria ser aplicada pelos séculos sem nenhuma alteração. No início do século passado, o grande teólogo J. A. Möhler, não sem alguma ironia, criticava os que pensavam que “Cristo criou a hierarquia e com isso resolveu todos os problemas da Igreja até o final dos tempos”.

Na realidade, não é à hierarquia, em primeiro lugar, mas ao Espírito Santo, que Jesus confiou a direção da Igreja. Já Lucas tinha percebido, refletindo sobre a história da Igreja primitiva (cf. os Atos dos Apóstolos), que, diante de situações novas e inéditas, não bastava olhar para o exemplo do Jesus histórico. Era preciso que o Espírito de Cristo iluminasse os caminhos da Igreja, e a mantivesse fiel à vontade de Cristo mesmo no momento de assumir atitudes inovadoras e criativas. Pois a Igreja é um organismo vivo, que cresce não apenas quantitativamente, mas se desenvolve qualitativamente, permanecendo o mesmo (em latim: ipse), mas não exteriormente idêntico (em latim: idem). Como cada ser humano permanece com sua identidade do nascimento até a morte, mas através de contínuas mudanças e adaptações.

Parece simples, óbvio. Mas por muito tempo e até recentemente se defendeu na Igreja Católica uma identidade na uniformidade, no imobilismo, sem crescimento. Ainda temos muito a aprender do Espírito, para que a Igreja cresça vitalmente e se revele ao mundo de hoje como uma comunidade que anuncia o futuro, e não como uma instituição demasiadamente apegada ao passado, com tudo de transitório e obsoleto que o passado tem.

Como afirmou o Concílio Vaticano II na constituição “Dei Verbum”, Deus não nos falou somente “outrora”, no passado, mas nos fala hoje, com palavras vivas e atuais: “A Igreja […] tende continuamente para a plenitude da verdade divina… As próprias Sagradas Escrituras são [na tradição] cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem sem cessar atuantes: e assim o Deus que outrora falou, mantém um permanente diálogo com a esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e através dela no mundo, induz os crentes a toda verdade e faz habitar neles abundantemente a palavra de Cristo” (DV 8, final).

Nestas afirmações está também a base de uma reta interpretação da Palavra de Deus. Dela não se pode fazer uma leitura meramente literal ou “fundamentalista” (como a de muitos movimentos, católicos e não, que se pretendem conduzidos pelo Espírito!). Ela exige uma leitura iluminada pelo Espírito, o único que pode nos fazer compreender as coisas de Deus. Já o apóstolo Paulo advertia que “a letra mata. É o Espírito que dá a vida” (2Cor 3,6).

2º recado:

A Igreja procure, antes de tudo, a santidade

O Espírito de Deus é o Espírito Santo, porque Deus é santo (cf. Lv 19,2). O Espírito quer conduzir a Igreja à busca da santidade. Certamente o fez de muitos modos ao longo dos séculos. Mas na Igreja moderna, após o Concílio de Trento, num contexto em que a Igreja se confrontava com o poder civil dos Estados absolutistas, a Igreja — nos seus maiores teólogos e no próprio magistério da hierarquia — foi pensada demasiadamente como sociedade humana, como instituição semelhante “ao reino de França ou à república de Veneza”, como dizia são Roberto Bellarmino, teólogo e cardeal.

A insistência sobre os aspectos humanos e sociológicos da Igreja pode colocar na sombra o mais importante, que é a experiência do dom de Deus, a graça santificante. Seria injusto dizer que isto foi totalmente esquecido, mas também seria ingênuo ignorar que na época moderna o comportamento dos católicos foi frequentemente julgado com critérios políticos (no tempo das monarquias, o bom católico era aquele que obedecia ao rei; nas democracias, o bom católico é o que vota no partido indicado pela Igreja) ou quantitativos. A qualidade da vida espiritual foi cuidada por alguns grupos de elite, mas não foi sempre a preocupação prioritária e dominante da ação pastoral.

A experiência mística — ainda forte no século XVI — parece perder terreno diante de práticas devocionais mais simples e repetitivas. O próprio rosto dos “santos” dos séculos XIX e XX muda. São mais estimados como servidores dos pobres, educadores, reformadores sociais, “bons samaritanos” que socorrem os muitos feridos que a industrialização e a modernização deixam atrás de si. Mas brilha menos aquele amor exclusivo e radical para com Deus, que leva à transfiguração da existência humana e à “divinização” (se podemos usar este termo) do ser humano pela santidade.

Ora, não se trata de pensar numa santidade fora do mundo. Um grande místico, como Mestre Eckhart (1260-1327), escreveu: “Se um homem está fazendo a experiência do arrebatamento extático, como são Paulo (cf. 2Cor 12,2), e vem a saber que um doente precisa de uma sopinha, então eu julgaria mais oportuno que ele deixasse o êxtase e se pusesse a servir o necessitado com grande amor”[2]. Uma deliciosa lenda russa, citada por Soloviev (†1900), lembra que São Pedro premiou com duas festas por ano no calendário eclesiástico a São Nicolau, que tinha sujado de lama a veste branca e resplandecente do paraíso para ajudar um camponês, enquanto São Cassiano, que se tinha recusado a entrar na lama para não sujar a mesma veste branca, recebeu como data da festa o dia 29 de fevereiro.

Trata-se de colocar a santidade onde ela merece: acima de tudo! Diante da santidade, desaparecem na Igreja as diferenças de “status” ou de hierarquia. O santo é mais importante, aos olhos de Deus e do seu povo, do que Papa, cardeais, bispos, padres, religiosos e religiosas. Segundo uma comparação de Yves Congar[3], a hierarquia é necessária para construir a Igreja na história como “andaime”. Ou, segundo outra imagem, ela é a haste que sustenta a espiga. Na hora da colheita, colhe-se a espiga e joga-se fora a palha. Terminada a construção, o andaime não é mais necessário. A santidade é o que permanece para sempre na Igreja; funções e ministérios duram apenas na construção da Igreja nesta terra.

Por isso uma visão “pneumatólógica” da Igreja, ou seja, à luz do Espírito Santo, coloca em primeiro lugar o cristão, o simples fiel, não os ministros. É o Espírito que dispensa os dons como lhe apraz. Ele pode fazer de leigos ou de santas mulheres os que indicam profeticamente o caminho da Igreja, mesmo a Papa e bispos. Geralmente se reconhece esse papel a Santa Catarina de Sena. Mas quantos leigos e leigas, nos últimos séculos, fundaram obras apostólicas, missionárias, educacionais ou sociais, que depois foram assumidas pelas Dioceses ou pela Santa Sé!

Uma Igreja que reconhece o primado do Espírito não olha as pessoas humanas antes de tudo do ponto de vista “carnal”, biológico, e não faz das diferenças biológicas entre homens e mulheres motivo de separação ou até discriminação. No Espírito, homens e mulheres são realmente iguais como pessoas e sobretudo como batizados, incorporados em Cristo, igualmente chamados à santidade (cf. Gl 3,28).

3º recado:

A Igreja valorize sua verdadeira riqueza, dom do Espírito

Estamos, com essa alusão aos santos leigos, passando do tema “santidade” ao tema “carismas”[4]. Carismas são as graças especiais que o Espírito concede a cada cristão, para crescer na santidade e, sobretudo, no serviço da comunidade.

A diversidade dos carismas suscitou a questão do seu discernimento ou da “ordem” a que devem obedecer, se quiserem frutificar na Igreja. O próprio Concílio Vaticano II foi explícito em enfatizar que há dons “eminentes” e outros “mais simples e mais amplamente difundidos” (LG 12b) e que “os dons extraordinários, todavia, não devem ser temerariamente pedidos, nem deles devem ser esperados frutos de obras apostólicas” (ib.).

O Concílio, retomando o apóstolo Paulo, pede que os carismas sejam postos a serviço da “utilidade comum”. Era este o critério que Paulo usava para encorajar certos carismas e limitar o uso de outros (cf. 1Cor 12,7; 14,18-19.26-32). E se há um dom mais elevado, que todos devem procurar, este é o amor (cf. 1Cor 12,31-13,13).

A verdadeira riqueza do cristão é espiritual, no sentido genérico de imaterial e no sentido forte de dom do Espírito Santo, de graça divina. Ora, não é difícil perceber que essa “riqueza” espiritual é inseparável da pobreza evangélica. A pobreza evangélica é, antes de tudo, espiritual, no sentido de que é uma escolha voluntária, uma decisão do coração. Mas é também uma pobreza material, um desapego dos bens terrenos, um forte sentido do que conta são outros valores, os que Mateus apresentou na sua admirável — versão das bem-aventuranças de Jesus:

Bem-aventurados os que têm coração de pobre…Bem-aventurados os que sofrem… Bem-aventurados os mansos, os misericordiosos, os puros de coração… Bem-aventurados os que têm fome e sede da santidade (“justiça” que vem de Deus)… Bem-aventurados os que promovem a paz… Bem-aventurados os perseguidos por causa de Deus e da sua justiça…[5]

Uma Igreja que espalhe o espírito das Bem-aventuranças e desconfie do poder humano baseado sobre o dinheiro ou prestígio: esta é a Igreja que o Espírito quer e que poderá corresponder aos anseios de tantos, que esperam um novo Milênio de amor e paz. E o verdadeiro critério de discernimento dos carismas será este: que não tragam “poder” para a Igreja, mas espírito de serviço e humildade.

4º recado:

A Igreja proporcione uma experiência de liberdade e plenitude

O Jesus das bem-aventuranças, nunca aliado dos poderes constituídos, fiel à missão recebida do Pai, é o “homem verdadeiramente livre”. Também os adversários o reconheciam: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro e não te deixas influenciar por ninguém. Tu não olhas a aparência das pessoas, mas ensinas segundo a verdade o caminho de Deus” (Mc 12,14).

Paulo também descreveu a experiência cristã como uma experiência de liberdade. “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”, dizia aos Gálatas (5,1). Fundamento da liberdade cristã é o Espírito: “Porque o Senhor é o Espírito, e lá onde está o Espírito do Senhor, lá está a liberdade” (2Cor 3,17).

A consciência da liberdade cristã está ligada em Paulo à oposição entre a velha Aliança, sob o regime da lei, em que a pessoa humana está na condição do servo, e a nova Aliança, sob o regime da graça de Cristo, em que nos tornamos “filhos no Filho”, coerdeiros com Jesus do Reino de Deus. Dessa nova Aliança, Paulo fala em diversos contextos (cf. Gl 4,21ss.; 1Cor 11,25; 2Cor 3,1ss.), evocando o profeta Jeremias. Ele pusera na boca de Deus: “Dias virão em que firmarei com a comunidade de Israel uma nova Aliança. Será diferente da Aliança que firmei com seus pais […]. Eu depositarei minha instrução no seu íntimo, inscrevendo-a em seu coração: eu me tornarei Deus para eles, eles se tornarão um povo para mim. Já não ensinarão uns aos outros, cada um a seu irmão, repetindo: ‘Aprendei a conhecer o Senhor!’, pois todos, pequenos e grandes, me conhecerão” (Jr 31,31-34).

A nova Aliança está realizada em Cristo. “Se alguém está em Cristo, é criatura nova. O que era antigo passou, agora tudo é novo” (2Cor 5,17). Em outros textos, porém, Paulo parece colocar ainda uma distância entre o que somos e o que seremos. A plena comunhão com Deus, a realização completa da nova Aliança, está no futuro? “Agora conheço apenas em parte, mas, então, conhecerei completamente, como sou conhecido (por Deus)” (1Cor 13,12). Talvez a resposta mais exata seja aquela que mantém a tensão entre o que somos e o que seremos. Estar unidos a Cristo não é nem um sentimento humano nem um fato definitivo; é um dinamismo, uma incessante renovação de nós mesmos pela ação gratuita e amorosa de Cristo: “O nosso interior vai se renovando dia a dia” (2Cor 4,16).

De qualquer forma, não há dúvida quanto ao resultado final: aqui na terra, a união mística e plena com Deus, como prelúdio da vida de eterna comunhão com Deus, após a morte. O “justo”, como diz São João da Cruz citando São Paulo, chega a um estado de plena liberdade. No cume do monte Carmelo não há mais caminho, porque “para o justo não há lei; o justo é lei para si mesmo”. Ou, como diz a Llama Viva (II,4), “o santo faz tudo o que quer, julgando tudo e não sendo julgado por ninguém”[6].

Esta comunhão com Deus em Cristo traz não apenas o sentido da liberdade, mas também o sentido da posse de todos os bens do amado, ou seja, de Cristo e de Deus. Já Paulo dissera com insuperável concisão e força: “tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23). São João da Cruz dirá, de forma mais ampla e apaixonada, na “Oração da alma enamorada”:

Senhor! Deus, amado meu! Não me tirarás, meu Deus, o que uma vez me deste em teu único Filho, no qual me deste tudo o que eu quero. Por isso alegrar-me-ei porque não tardarás, se eu espero.

Por que fico eu esperando, adiando, quando desde já posso amar a Deus em meu coração? Meus são os céus e minha é a terra. Minhas são as gentes. Os justos são meus, e meus os pecadores. Os anjos são meus. E a mãe de Deus e todas as coisas são minhas. E o próprio Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim.

Pois, o que pedes e buscas, minh’alma? Teu é tudo isto, e todo é para ti. Não te ponhas em coisas menores, nem te preocupes com as migalhas que caem da mesa de teu Pai.

Sai fora e glorias-te de tua glória! Esconde-te nela e goza, e alcançarás os desejos de teu coração[7].

A experiência cristã da liberdade é um dom do Espírito, como já vimos (cf. 2Cor 3,17). A nova Aliança implica a substituição da lei, que traz a morte, pela “lei do Espírito que dá a vida no Cristo Jesus” (Rm 8,2). Só o Espírito pode conduzir o cristão para a verdadeira liberdade.

Antes, porém, de descrever outras exigências da liberdade cristã, vamos refletir um instante sobre a diferença entre esta experiência de liberdade — essencial na fé do apóstolo Paulo — e a religião católica da época moderna, que era imposta pelos Estados absolutistas europeus, Portugal inclusive. Até Voltaire comungava na Páscoa, com medo das consequências penais que a transgressão do preceito pascal podia trazer [8]. Mais perto de nós, pelo menos até 1960, quantos receberam — para depois muitas vezes rejeitarem — uma educação religiosa baseada sobre o medo, o escrúpulo, o domínio de uma lei que não conhecia a liberdade do Espírito?

Ao contrário, a época que estamos vivendo — certamente não isenta de inúmeros males — é muito sensível ao valor da “liberdade” e, possivelmente, oferecerá ao cristianismo uma ocasião única para revelar suas qualidades intrínsecas, sua força espiritual, despojado de todo poder terreno. A época pós-moderna não será necessariamente a “Idade do Espírito” (como querem os discípulos de Joaquim de Fiori). Mas o cristianismo poderá sobreviver nesta época se não for “religião do Espírito”, como a entendia o evangelista João (cf. Jo 4,23-24)?

5º recado:

A Igreja assuma o compromisso do serviço e da partilha

Paulo conhece também uma interpretação equivocada da liberdade cristã, que considera uma escravidão que submete à “carne” (Gl 5,13a). A autêntica liberdade cristã se realiza no serviço dos irmãos (Gl 5,13b). Este serviço não é, para Paulo, uma nova escravidão, mas a realização do desígnio de Deus sobre a humanidade, a condição de solidariedade e fraternidade que permite a felicidade não de um, mas de todos.

O primeiro grande serviço que o cristão, imbuído pelo Espírito, presta aos outros, é a partilha de sua fé, de sua alegria por ter encontrado a Deus em Cristo pelo Espírito. O mais conhecido relato desta experiência — que se confunde com o relato do próprio nascimento da Igreja — é o de Pentecostes (At 2,1-41). Os Doze parecem embriagados, quando — sob o impulso do Espírito — anunciam nas diversas línguas a experiência do Deus de Jesus Cristo (cf. At 2,13). Depois disso, de muitas formas e em circunstâncias diversas, o Espírito transformará os cristãos em missionários e evangelizadores. O Espírito é o protagonista da missão, mas se serve de instrumentos humanos os mais variados. As lendas antigas atribuem aos Doze Apóstolos a evangelização da Índia, da Etiópia ou da Armênia. As notícias históricas mais seguras, porém, dizem-nos que as missões fora do Império romano são obra de leigos cristãos do IV século, às vezes feitos escravos (como os jovens que evangelizaram a Etiópia ou os avós de Úlfilas, que evangelizou os Godos). A Geórgia foi evangelizada por uma mulher, Santa Nina, até hoje venerada como fundadora da Igreja georgiana.

A missão cristã não é feita somente do anúncio explícito do Evangelho. Este exige muitas vezes um longo trabalho de preparação do terreno, feito de solidariedade, serviço, diálogo, busca em comum do Deus verdadeiro ou da verdade a respeito de Deus.

Característica da missão da nossa época é a tomada de consciência de que o Espírito precede os missionários e que ele mesmo suscita, fora da Igreja, uma ardorosa busca da revelação divina. Jesus encontrou fé em samaritanos e pagãos. Desde algumas décadas, pioneiros de um novo estilo de diálogo entre o cristianismo e as outras religiões puseram-se em busca e à escuta da “fé dos pagãos”.

Novamente, a partir do Espírito, temos uma visão diferente, mais ampla e otimista, da história da salvação. Em lugar de procurar obsessivamente os pecados a denunciar (que já são muitos e evidentes, mesmo entre os cristãos), o missionário conduzido pelo Espírito busca os sinais de sua presença renovadora da humanidade e precursora do mundo novo que todos esperamos, reino de justiça e paz, Cidade que não precisa de sol nem de lua, pois a glória de Deus é a sua luz, Cidade atravessada por um rio de água vivificante[9].

6º recado:

A Igreja se torne lugar de misericórdia e consolação

A sequência da Missa de Pentecostes, após ter invocado a vinda do Espírito Santo, o invoca na 2ª e 3ª estrofes como “Pai dos pobres” e “consolo que acalma”.

Se o Espírito Santo leva ao serviço e à evangelização, deverá levar em primeiro lugar, preferencialmente, ao serviço e à evangelização dos preferidos de Deus, os pobres. Jesus veio “evangelizar os pobres” (Is 61,1; Mt 11,5; Lc 4,18). A boa nova (eu-angelos, evangelho) é de que a sorte dos pobres está para mudar. Maria a vê já realizada. Deus “precipitou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes; os famintos, ele os cobriu de bens, e os ricos, despediu-os de mãos vazias” (Lc 1,52-53).

Depois, cabe ao Espírito Santo nos fazer entender corretamente hoje o ensinamento de Jesus. Este inclui a identificação do próprio Cristo com os pobres (cf. Mt 25, 31-46), o que levará homens da Igreja a falar dos pobres como “sacramento” ou como “vigários” de Cristo[10].

O recente Catecismo da Igreja Católica (CIC) associa várias vezes o Espírito Santo aos pobres, sobretudo a partir de textos bíblicos[11].

Desde o “tempo das promessas”, no Antigo Testamento, o Espírito Santo prepara um povo que herdará o reino de Davi e do Messias: é o povo dos pobres segundo o Espírito, humildes e mansos, de quem falam profetas e salmos (cf. Sf 2,3; Sl 22,27;34,3; Is 49,13). É o “povo bem disposto” que acolherá o Messias, Jesus (cf. Lc 1,17). É a esse povo pobre que Maria dá a conhecer o seu Filho (Lc 2,15-19).

A Igreja, outra obra do Espírito, exerce com Jesus uma função régia. Mas para Cristo e para a Igreja, “reinar é servir”, particularmente os pobres (LG 8). Talvez seja oportuno recordar que este nº 8 da “Lumen Gentium” entrou nesta constituição do Vaticano II após uma intervenção do cardeal Lercaro, em 6/12/1962, que se queixava de não ter encontrado nada sobre os pobres nos “esquemas” dos documentos conciliares que tinha recebido no dia anterior[12].

O Catecismo (CIC) menciona ainda, falando da Eucaristia, as diversas “presenças” de Cristo na Igreja: na Palavra, na Eucaristia, nos pobres, doentes e presos (citando Mt 25,31-46). Enfim, é interessante a insistência do catecismo sobre a graça da ordenação episcopal, que torna o bispo “pai e pastor, com um amor gratuito por todos e uma predileção pelos pobres, doentes e necessitados” (nº 1.586). O “pai dos pobres” por excelência é o Espírito, mas ele quer se encarnar na principal figura carismática da Igreja, o bispo, que não poderia ter título mais espiritual do que este: “pai dos pobres”.

A Igreja de hoje precisa deste “recado”? Ela assume realmente a “opção preferencial pelos pobres”?[13]. Há sinais de que um expressivo número de pobres se tem afastado recentemente da Igreja Católica na América Latina e de que, em certos setores eclesiásticos, o compromisso com os pobres se tem enfraquecido. Certamente não é o caso de repetir o que Lacordaire podia afirmar para a Igreja da França: “em vão há dezenove séculos se expulsam os pobres das portas de nossas igrejas”[14]. Mas é bom escutar novamente sua mensagem sempre atual: “O pobre é um sacramento… um sacramento intermédio que não exige de nós preparação alguma, mas que nos comunica a graça e nos dispõe para receber o fruto dos sacramentos propriamente ditos. Tal é o grande, o magnífico poder dos pobres. Habitam o vestíbulo do palácio de Deus; ninguém pode ver o amo sem ter visto seus domésticos[15]; em vão há dezenove séculos são expulsos das portas de nossas igrejas; sempre voltam, aí estão para nos instruir, têm em suas mãos a chave que abre o santuário”.

A sequência de Pentecostes, após ter invocado o Pai dos pobres, apresenta-nos o Espírito de Deus como: “consolo que acalma/ hóspede da alma,/ doce alívio… No labor descanso,/ na aflição remanso,/ no calor aragem”[16].

O título de “consolador” se tornou comum na tradição latina para o Espírito Santo. Mas as palavras do Novo Testamento (logo, da língua grega) que foram traduzidas por “consolo” ou “consolação” têm um sentido mais amplo. Paulo, depois de ter falado de suas tribulações, associa a um dom do Espírito o fato de estar, apesar de tudo, “cheio de confiança” (consolado) (cf. 2Cor 5,5-8)[17]. Mas “consolar” (exortar, encorajar, confortar…) aparece sobretudo como uma tarefa ativa dos cristãos e, particularmente, dos profetas. O dom de “consolar” ou encorajar é um carisma. Ele foi dado a Paulo, que como um pai exortou e encorajou os cristãos de Tessalônica (1Ts 2,12). Ele foi dado a esses mesmos cristãos, para “animar os tímidos e sustentar os fracos” (1 Ts 5,14). Aos Filipenses, Paulo dirá que o consolar faz parte do “mesmo sentir e pensar” do Senhor Jesus (cf. Fl 2,5): “conforto no Cristo…, consolação no amor…, comunhão no Espírito…, ternura e compaixão, alegria…”. Tudo isso é dom do Espírito: o consolo não vem sem a confiança, a coragem, a alegria.

Consolar é, de modo particular, uma atribuição dos profetas. A profecia é um dos carismas principais (1Cor 14,1). “Aquele que profetiza… edifica, exorta, conforta” (1 Cor 14,3). Consolar, porém, nunca deixou de ser uma responsabilidade de todo bom cristão. “Consolar os aflitos” entrou na lista das boas obras espirituais, seguindo uma tradição iniciada no judaísmo. Tarefa antiga, apreciada antes de Jesus, mas que continua atual até hoje, diante dos sofrimentos de tantos irmãos.

Próximo do papel de consolador, está o papel de “paráclito”, que o Espírito Santo recebe do Pai e do Filho (Jo 14,16). “Paráclito” é muito mais que consolador. Não é alguém que se limita a dizer boas palavras, mesmo que elas possam trazer alívio. “Paráclito” é, para o evangelista João, mais do que um defensor ou um advogado, que defenda os cristãos, quando processados e perseguidos (cf. embora Lc 21,12-15). O Paráclito é o Espírito de Deus que traz ajuda objetiva aos discípulos para continuarem a obra do Mestre, superando as dificuldades dos que ficaram como “órfãos” e conservando-os na fidelidade ao projeto de Jesus (cf. Jo 14,26; 15,26; 16,7).

A ação do Espírito como Paráclito ou “defensor”[18] nos introduz em um último aspecto: temos um defensor “bom de briga” nos conflitos deste mundo, embora ele nunca deixe de trabalhar pela paz.

7º recado:

A Igreja tenha coragem diante de conflitos e perseguições e não cesse de promover a paz

Entre os dons do Espírito, está o dom da fortaleza, da firmeza e da coragem. Os evangelhos já estão marcados pela experiência que os discípulos do Crucificado fizeram da perseguição. O discurso de despedida de Jesus, na “última Ceia”, revela as preocupações do Mestre para com as dificuldades que, a curto prazo, os discípulos hão de enfrentar. Dificuldades que — logo será percebido — não provêm somente dos adversários externos, mas também das tentações, dúvidas, divisões e inimizades que penetram no seio da própria comunidade cristã. Diante dessas dificuldades, Jesus promete o Paráclito, a ajuda eficaz do Espírito Santo.

As dificuldades não são poucas. Carlos Mesters, num artigo notável do nº 3 de “Estudos Bíblicos”[19], enumerou — a partir dos Atos dos Apóstolos — 155 conflitos diversos, em que as primeiras comunidades cristãs se acharam envolvidas.

O próximo milênio é aguardado por muitos como um milênio de paz, após as guerras e destruições que marcaram o segundo milênio e, particularmente, os países do Ocidente “cristão”. A era do Espírito foi e é sonhada como era de paz, de superação dos conflitos e das armas, de entendimento e fraternidade. As previsões dos cientistas políticos não são muito otimistas, ao menos para o século XXI. Uns preveem “choques de civilizações”, entre o Oriente e o Ocidente, entre tradições culturais e religiosas diversas. Outros acham mais prováveis conflitos no interior mesmo de cada civilização, de cada religião, de cada área cultural, entre progressistas e conservadores, entre inovadores e tradicionalistas (ou fundamentalistas). Outros ainda temem por uma “desumanização” da humanidade pelos avanços da tecnologia.

O certo é que o Espírito Santo pede aos cristãos para enfrentarem o futuro sem medo, confiantes na força de Deus. Pede especialmente um empenho novo pela paz e o diálogo entre os povos e as religiões. Este empenho não é apenas — como certa mentalidade católica preguiçosamente pensa — o empenho do Papa, do Pastor supremo da Igreja. Não é um privilégio da Santa Sé. É um empenho que os cristãos no mundo inteiro podem e devem assumir, seja em seu próprio país, removendo as causas da violência, seja agindo como intermediários para reaproximar povos, etnias ou partidos que se tornaram inimigos e preferiram as armas ao diálogo. (Nos últimos anos, longe da “media” e da opinião pública internacional, muitos cristãos trabalharam arduamente para reconduzir a paz entre Israel e os árabes, entre as diversas facções em Moçambique e até na Argélia, entre as diversas etnias da antiga Iugoslávia.)

Em sua carta sobre “O Advento do Terceiro Milênio” (1994), o Papa João Paulo II insistiu na necessidade de um claro repúdio daquelas ações de cristãos — como o uso da violência, da tortura e da guerra em nome da religião e da verdade, ou a prática da escravidão de outros seres humanos — que mancharam a Igreja e criaram barreiras à própria difusão do Evangelho. Nem todos estão de acordo com isso… Mas o Espírito parece soprar mesmo através das palavras e das ações de João Paulo II, pedindo o respeito de todos os povos, em primeiro lugar dos mais fracos é explorados.

Um exame de consciência?

Está na hora de concluir… Os “sete recados” são, no fundo, um esquema de exame de consciência para cada um de nós, para as comunidades católicas, para todos os cristãos. Podemos nos dizer realmente fiéis a Cristo se não praticarmos o que o Espírito Santo nos pede? “Ninguém será capaz de dizer ‘Jesus é Senhor’, a não ser sob a influência do Espírito Santo” (1Cor 12,3).

(Publicado em Julho-Agosto de 1998 (pp. 13-20))

Notas:

[1] O artigo não pretende esboçar, sequer minimamente, uma teologia do Espírito Santo. Só trata de alguns aspectos da vida eclesial, que a teologia do Espírito pode iluminar melhor.

[2] Reden der Unterweisung (Discursos de instrução), 11; citado por J. I. GONZÁLES FAUS, Vigários de Cristo. Antologia comentada. São Paulo, Paulus, 1996, pp. 138-139. A mesma opinião é atribuída a outro grande místico, Ruysbroek (séc. XIV).

[3] Cf. CONGAR, Yves M. J. o.p., Os leigos na Igreja. São Paulo, Herder, 1966, pp. 154-161 (1ª ed. francesa, 1953).

[4] Fundamental é o nº 12 da “Lumen Gentium”, que marca uma virada na redescoberta da dimensão carismática da Igreja, superando o lugar comum dos carismas como dons especiais do Espírito à primeira comunidade cristã, necessários apenas no começo da história da Igreja.

[5] Uma visão original das relações entre bem-aventuranças, virtudes teologais e dons do Espírito Santo foi apresentada recentemente pelo Cardeal C. M. Martini em: Tre racconti dello Spirito (Milano, Centro Ambrosiano, 1997), pp. 40-56.

[6] Citação que mistura o “ama et fac quod vis” (ama e faz o que quiseres) de Agostinho e 1Cor 2,15: “O homem espiritual julga tudo, mas ele mesmo não é julgado por ninguém”.

[7] Cf. Vida y obras de San Juan de Ia Cruz. Madri, Biblioteca de Autores Cristianos, 1960 (4ª ed.), pp. 1.127-1.128.

[8] Jean Delumeau demonstrou que o catolicismo pós-tridentino pode ser interpretado como uma “religião do medo”.

[9] A expressão do Apocalipse (22,1) pode ser completada por aquela de santo Irineu: “A glória de Deus é a vida do homem, e a vida do homem é a visão de Deus”.

[10] Documentação na antologia de GONZÁLES FAUS citada na nota 2.

[11] São os números 709, 716, 724, 786, 852, 1.373 e 1.586 do CIC.

[12] Texto às páginas 356-357 da antologia citada de J. I. GONZÁLES FAUS (que, porém, erra duas vezes: na data do discurso, que não é 17 de dezembro, e na sede arquiepiscopal de Lercaro, que era Bolonha, e não Turim).

[13] Indo além do Concílio Vaticano II, a III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Puebla, 1979) assumiu o compromisso solene desta opção.

[14] Palestra em Dijon, 1853; texto nº 109 de J. I. GONZÁLES FAUS, op. cit., pp. 328ss.

[15] Aqui escapou um pequeno engano na tradução brasileira: “nada pode ver o amor sem ter visto seus domésticos” (p. 329).

[16] No original em latim: “Consolator optime,/ Dulcis hospes animae,/ Dulce refrigerium./ In labore requies,/ In aestu temperies,/ in fletu solatium”.

[17] O mesmo vocábulo de Paulo (“confiança” ou “segurança”) aparece em Hb 13,6: todos os cristãos a possuem pela certeza de ter Deus com eles.

[18] Assim “paráclito” é traduzido pela recente Bíblia (NT) da CNBB.

[19] Carlos MESTERS, Os conflitos no livro dos Atos dos Apóstolos, “Estados Bíblicos” nº 3, Petrópolis, Vozes, s.d. (1984), pp. 21-34 (publicado também como suplemento da REB nº 175, setembro de 1984).

(Os grifos são nossos)

Fonte:

Revista Vida Pastoral

_________________________________________________________________

2. Presbíteros: o desafio da mudança

Pe. Alberto Antoniazzi

Com o título acima, apresentei à 42ª Assembleia da CNBB uma contribuição ao estudo do tema “presbíteros”[1]. Acolhendo sugestão do 10º Encontro Nacional de Presbíteros (ENP), os bispos não publicaram um documento, mas uma carta[2], e oferecem o subsídio “Vida e ministério dos presbíteros”, na coleção “Estudos da CNBB” (nº 88), para que os próprios presbíteros continuem a reflexão sobre o tema. Como contribuição a esse debate, publico aqui algumas das propostas que me parecem representar anseios e caminhos dos padres no Brasil. As propostas, na intervenção na Assembleia da CNBB, estavam precedidas de uma análise dos diversos “tipos” de presbíteros que surgem das escolhas subjetivas predominantes, os quais abandonam – de fato – a imagem ideal do sacerdote tridentino, referência indiscutível do clero católico depois do Concílio de Trento até o Vaticano II. Essa análise já é conhecida pelos leitores de Vida Pastoral[3]. Vinham, em seguida, uma resenha dos anseios expressos no 10º ENP e algumas considerações sobre a escolha de um caminho exigente, mas, afinal, muito mais satisfatório, para a realização pessoal e o desempenho pastoral do ministério. A última parte da intervenção fazia, finalmente, uma “proposta para a discussão”.

Esta proposta, elaborada com a ajuda de outros, procura indicar um caminho para avançar na renovação do ministério presbiteral.

A presente proposta situa-se como um caminho realista, viável, que pode e deve ser percorrido. Descartamos, por isso, desde o início, propostas que impliquem inovações institucionais – como aquelas, por exemplo, avançadas em 1969 e retomadas frequentemente por alguns grupos – e, por outro lado, descartamos o imobilismo, a falsa convicção de que tudo vai bem, que os padres em sua maioria estão felizes e pouco ou nada resta a fazer. Pelo contrário, acreditamos que há muito a fazer e que a omissão seria um pecado grave diante de Deus e uma irresponsabilidade em face dos irmãos.

Vamos, pois, às (dez) sugestões — que nos parecem essenciais —, não para resolver de uma vez para sempre todos os problemas, mas para dar aqueles passos que hoje são uma possibilidade e um dever e nos permitirão, no futuro, ir mais longe.

  1. O que propomos é um esforço que deve ser assumido pelos próprios presbíteros em conjunto. Eles devem ser os sujeitos e os protagonistas de sua própria renovação.

Evidentemente isso não dispensa o incentivo e a participação dos bispos, como veremos, como catalisadores do processo. Aliás, estamos propondo aqui iniciativas a ser tomadas por todos os presbíteros das dioceses. Será muito válido valorizar ou revitalizar organismos e associações já existentes, especialmente os Conselhos Presbiterais[4]. Não é possível renovar o ministério presbiteral apenas por meio de esforços isolados de alguns presbíteros de boa vontade, que, porém, não poderão mobilizar os colegas.

  1. O esforço estaria voltado, em primeiro lugar, para promover e garantir a todos os presbíteros da diocese, solidariamente, condições de vida e de trabalho, as quais lhes permitam realizar sua vocação de serviço de forma humana, sem anular sua personalidade, mas dando-lhe chances de realização, mesmo por meio do sacrifício e das inevitáveis carências de cada um[5]. Com isso se daria resposta à justa exigência daquele “cuidado de si”, que se impõe hoje como exigência básica e direito de todo indivíduo.
  1. Em segundo lugar (e aqui o bispo terá um papel decisivo), é preciso reorganizar a vida do padre sobrecarregado e estressado, o qual põe em risco não apenas a saúde física, mas a própria eficácia do seu ministério. Várias medidas são possíveis e necessárias: treinar o padre a usar bem o próprio tempo e a adotar um ritmo de vida sadio (que inclui oração, estudo, trabalho pastoral e lazer, particularmente exercícios físicos); ajudar o padre a confiar nos leigos e a repartir efetivamente com eles as tarefas pastorais; treiná-lo para saber administrar o conjunto das atividades paroquiais e coordenar a participação dos muitos colaboradores, remunerados ou voluntários[6].
  1. As relações de tipo horizontal são fundamentais não somente na atuação pastoral do padre, mas para a sua própria maturidade humana e para realizar seu ministério conforme a vontade de Cristo e da Igreja. Aqui há considerações de duas ordens a fazer: 1ª) o padre precisa de amizade e de fraternidade para se realizar humanamente. A esse propósito, afirma Donald Cozzens: “O que está faltando para muitos sacerdotes, acredito, é a experiência da união, da intimidade de uma comunhão santa com alguns bons amigos. Por si só, sem uma profunda e autêntica amizade humana, a intimidade com Deus experimentada na oração, nos sacramentos e nas práticas devocionais deixa o espírito ligeiramente fora de equilíbrio”[7]; 2ª) os padres devem formar uma fraternidade, pois Jesus enviou seus apóstolos como irmãos. Devemos levar mais a sério o apelo do Vaticano II[8] à reconstituição de verdadeiros presbitérios, mesmo se, na história, a fraternidade sacerdotal se obscureceu muitas vezes e mesmo se as condições atuais de vida não facilitam a vivência fraterna dos presbíteros.

As dificuldades para realizar a fraternidade e a comunhão no presbitério fazem pensar que precisamos de uma formação para isso, de uma aprendizagem, de uma espiritualidade. Vale a pena lembrar as indicações do Papa João Paulo II, as quais se aplicam a toda a Igreja e, por isso mesmo, especialmente a seus pastores:

“Espiritualidade da comunhão significa em primeiro lugar ter o olhar do coração voltado para o mistério da Trindade, que habita em nós e cuja luz há de ser percebida também no rosto dos irmãos que estão ao nosso redor. Espiritualidade da comunhão significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, como ‘um que faz parte de mim’, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma verdadeira e profunda amizade. Espiritualidade da comunhão é ainda a capacidade de ver antes de mais nada o que há de positivo no outro, para acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus: um ‘dom para mim’, como o é para o irmão que diretamente o recebeu. Por fim, espiritualidade da comunhão é saber ‘criar espaço’ para o irmão, levando ‘os fardos uns dos outros’ (Gl 6,2) e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes. Não haja ilusões! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores da comunhão. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua expressão e crescimento”[9]. “Devemos nos convencer de que o ministério ordenado tem uma radical ‘forma comunitária’ e pode ser assumido apenas como ‘obra coletiva’”[10].

No presbitério está incluído o bispo, ao menos no sentido de que ele deve ser o primeiro a assumir a atitude de irmão para com os presbíteros. Pois se pode aplicar a fortiori aos presbíteros a famosa expressão citada por Lumen Gentium 32 a respeito dos leigos: “Se me incute medo o ser para vós, consola-me o estar convosco. Para vós sou bispo, convosco sou cristão. Aquele é o nome do ofício, este o da graça; aquele o do perigo, este o da salvação”.

  1. Pensar o ministério presbiteral com base no presbitério implica certamente, hoje, repensar a relação do padre com a paróquia. Há quase uma simbiose, na maioria dos casos, entre padre e paróquia. Sem esquecer os aspectos positivos desses laços entre o padre e a paróquia, é preciso reafirmar com força que a evangelização e o testemunho de Cristo são confiados à Igreja local, ao bispo com seu presbitério e seu povo. A constituição (a partir da Idade Média e diversamente da Igreja antiga) de paróquias confiadas a um presbítero isolado comportou um enfraquecimento da ação pastoral, às vezes reduzida ao cumprimento de alguns ritos, tendo perdido a riqueza espiritual e pastoral que caracterizou as Igrejas das cidades do século IV e V, quando o presbitério estava reunido em torno de homens como João Crisóstomo ou Agostinho, Basílio ou Ambrósio, Atanásio, Leão ou Gregório… Infelizmente, muitas paróquias até hoje parecem ser administradas como feudos: isolam-se, de fato, da comunhão com as igrejas irmãs e instauram, em seu interior, relações mais de vassalagem do que de verdadeiro serviço ao povo de Deus.

“A vida no presbitério — afirmava o texto sobre ‘Pastoral Presbiteral’ apresentado no 9º ENP (2002)[11] — pode ajudar o presbítero a vencer os vícios de uma estrutura por demais vertical, que, às vezes, leva o presbítero a ser subserviente em relação ao bispo, autoritário com os leigos e pouco irmão com os outros presbíteros da diocese”.

Pensar o ministério presbiteral com base na Igreja local oferece também outra vantagem. No âmbito de uma Igreja local ou diocese, poderão encontrar uma cooperação fecunda os presbíteros com “vocações” (ou atitudes e opções) diferentes. Será mais fácil pensar a variedade da atuação dos presbíteros em termos de complementaridade, de valorização de dons e sensibilidades diferentes que se respeitam mutuamente e se reconhecem integrados num único corpo: o da Igreja de Cristo naquela diocese ou naquele território.

  1. A busca da comunhão e da fraternidade, por parte do presbitério com seu bispo, está em função da edificação da comunidade e de uma comunidade evangelizadora, cujo testemunho suscite a fé nos que não creem. Já Inácio de Antioquia lembrava que “é inútil fazer aparecer como bom o que vós fazeis privadamente; sejais uma coisa só: uma única oração, uma única súplica, uma única mente, uma só esperança no amor, uma só alegria puríssima: isto é Jesus Cristo e nada é melhor do que ele!”[12]. Isso supõe nos presbíteros não apenas a atitude fraterna ou a comunhão afetiva, mas uma consciência teológica, evangélica, do próprio ministério. Ela foi definida de forma densa pelo Concílio Vaticano II em Presbyterorum Ordinis 6:

“Exercendo o múnus de Cristo cabeça e Pastor, os presbíteros reúnem, em nome do bispo, a família de Deus, como fraternidade bem unida, e levam-na a Deus Pai por Cristo no Espírito. Para exercer este ministério (…) é conferido o poder espiritual, que é dado para edificação. Na edificação da Igreja, porém, os presbíteros devem conviver com todos, com grande humanidade, a exemplo do Senhor.(…) Por isso, cabe aos sacerdotes, como educadores na fé, cuidar por si ou por outros que cada fiel seja levado no Espírito Santo a cultivar a própria vocação segundo o Evangelho, à caridade sincera e operosa e à liberdade com que Cristo nos libertou. De pouco servirão as cerimônias, embora belas, bem como as associações, embora florescentes, se não se ordenam a educar os homens a conseguir a maturidade cristã. Os presbíteros ajudá-los-ão a promover esta maturidade, para que até nos acontecimentos grandes ou pequenos consigam ver o que as coisas significam, qual é a vontade de Deus. Sejam ensinados também os cristãos a não viver só para si, mas, segundo as exigências da nova lei da caridade, cada um, assim como recebeu a graça, a administre ao outro, e assim todos cumpram cristãmente os seus deveres na comunidade humana. Embora sejam devedores de todos, os presbíteros consideram como recomendados a si de modo particular os pobres e os mais fracos, com os quais o próprio Senhor se mostrou associado e cuja evangelização é apresentada como sinal da obra messiânica”[13] .

  1. As palavras do Concílio, agora citadas, dão ênfase a um aspecto do ministério presbiteral que deve ser particularmente ressaltado hoje, porque necessário e urgente, mas — por outro lado — muito descuidado. As pesquisas recentes sobre os presbíteros e a observação ao redor de nós mostram que um grande número de padres presta pouca ou nenhuma atenção nos “sinais dos tempos”, ou seja, nos acontecimentos históricos e na realidade da vida cotidiana, os quais são — para os cristãos — sinais da presença atuante de Deus na história. Entre as causas desse descuido, está a sobrecarga de trabalho pastoral, mas muitas vezes também a visão essencialista, quase atemporal, da realidade (o presbítero “fora do tempo”). É paradoxal que isso aconteça hoje, na sociedade atual, marcada pela “reflexividade”, ou seja, pela produção de sempre novos eventos, conhecimentos e informações, que induzem pessoas e instituições a repensar continuamente suas decisões e seus rumos, para levar em consideração o dinamismo da sociedade ou… ficar atrasadas e desaparecer.

Traduzido em termos positivos, isso significa a necessidade de envolver efetivamente os presbíteros num processo de “formação permanente”[14], que os mantenha sintonizados com sua época, torne-os mais atentos e capazes de ouvir e compreender os anseios do povo e de sua comunidade, torne mais agudo o espírito crítico deles e mais pertinente a formulação de suas pregações da palavra evangélica.

  1. A solidariedade entre os presbíteros exige também uma justa distribuição dos recursos materiais. Cabe ao bispo, com o presbitério, prover para que as paróquias mais pobres ou as tarefas apostólicas não remuneradas sejam sustentadas com a contribuição de todos os presbíteros, especialmente daqueles que dispõem de mais recursos. Em certos casos, não é só louvável, mas também constitui estrito dever de consciência que as dioceses mais ricas partilhem algo de seus recursos com as mais pobres.
  1. Outra exigência para a renovação do ministério é o cuidado com a formação dos futuros presbíteros. Há necessidade de investir mais na preparação dos formadores. Eles também devem ser os primeiros a educar para a comunhão fraterna, dando o exemplo do trabalho em equipe, de amizade e generosa colaboração[15]. Há ainda frequente e forte reclamação do clero sobre a insuficiente ou inadequada seleção dos candidatos ao Seminário e sobre a aceitação demasiadamente fácil de “egressos”. Entre os desafios da formação atual, merece especial cuidado e empenho a superação das lacunas da formação humano-afetiva e a formação do futuro presbítero como “homem de relações”[16].
  1. O descuido da formação humano-afetiva e a má seleção dos candidatos, além das fraquezas humanas, que às vezes se revelam somente após certo tempo ou em situação de desafio ou de crise, obrigam-nos a mencionar a possibilidade do aparecimento de casos patológicos, que podem gerar escândalos, mas sobretudo o sofrimento dos próprios presbíteros e dos fiéis.Diante disso, é importante assumir a atitude correta, que certamente não é a de esconder o problema, e sim de oferecer os meios para uma terapia e uma solidariedade fraterna, que assume a dor do outro. Esse sofrimento partilhado por todos os presbíteros — quando o irmão está ferido ou até desesperado — deve ser vivido com uma espiritualidade pascal, de quem acredita que “perdendo a vida, há de encontrá-la”. A crise pode ser vivida como uma “travessia”, como uma passagem pela experiência da derrota e do sofrimento que não impede a passagem à cura e à ressurreição[17].

Esperamos, assim, ter oferecido um subsídio para colaborar na elaboração daquela “pastoral presbiteral” que sonhamos e que foi definida como “cuidado-acompanhamento, pessoal e comunitário, integral e orgânico que uma Igreja particular oferece aos seus pastores, para que estes se sintam tratados e vivam como pessoas, conheçam Jesus Cristo, sejam como ele, vivam e ajam como ele, de modo que possam dedicar-se plenamente ao ministério de pastores que Deus e a Igreja lhes confiaram em prol da comunidade”[18].

Notas:

[1] Cf. documento da CNBB nº 75, Carta aos Presbíteros.

[2] Cf. Alberto Antoniazzi, “A OSIB e os desafios da formação presbiteral”, Vida Pastoral (nº 232, setembro-outubro de 2003, pp. 26-31).

[3] Cf. Alberto Antoniazzi, “Conselhos Presbiterais em face dos desafios atuais”, Vida Pastoral (nº 217, março-abril de 2001, pp. 22-28; e nº 218, maio-junho de 2001, pp. 23-29).

[4] Sobre a realização humana do presbítero, continuam luminosas as considerações do Pe. Edênio Valle, formuladas no Instrumento de Trabalho do 2º ENP (1987) e retomadas depois várias vezes. Cf. “Ser padre: o desafio de uma vocação que permanece”, parte 4: “Dimensões e desafios da maturidade presbiteral”. As dimensões são a identidade, a intimidade, a participação, a transcendência evangélica. Um trecho desse texto diz: “A dignidade do homem exige que ele possa ter uma dimensão que lhe é própria e exclusiva: sua intimidade, seu modo de ser original, sua radicalidade pessoal e religiosa. Sendo o papel sacerdotal, em todos os tempos e religiões, um dos papéis sociais antropologicamente mais esvaziadores do núcleo íntimo da pessoa, é mister que, no caso do padre católico, embora também ele se enquadre nesta determinação sociológica, se recuse o primado ao que despersonaliza, e se dê ênfase crescente ao que fomenta o ser assim de cada um” (cf. VV.AA., Presbíteros do Brasil construindo a história, Paulus, São Paulo, 2001, p. 94).

[5] Na pesquisa de Franco Garelli, Sfide per la Chiesa del nuovo secolo. Indagine sul clero in Italia, um dos autores — o pastoralista Luca Bressan — observou que os padres apreciam muito a companhia e a amizade dos leigos que lhes são próximos, mas não mostram (a não ser em raras exceções) nenhum empenho em aprender a animar e coordenar seus colaboradores, de modo a delegar-lhes o trabalho pastoral e “repartir o poder”. Preferem “executores” mais que verdadeiros colaboradores. “Não é importante para o sacerdote desenvolver relações de tipo horizontal; ao contrário, considera essencial dispor de qualidades e meios para desenvolver uma relação de tipo vertical, de submissão e de governo” (cf. op. cit., pp. 157-158). O risco do autoritarismo é antigo, se já o apóstolo Pedro advertia que os presbíteros devem apascentar os que lhes foram confiados, “não como dominadores, antes como modelo do rebanho” (1Pd 5,3).

[6] Cf. Donald Cozzens, A face mutante do sacerdócio. Loyola, São Paulo, 2001, p. 47. O Pe. Cozzens teve longa experiência de acompanhamento de “casos difíceis” entre os padres de sua diocese e voltou recentemente, no livro Silêncio sagrado (publicado no Brasil pelas Edições Loyola), a criticar as tentativas de esconder as condutas escandalosas.

[7] Cf. especialmente PO 7, que também determina a criação dos Conselhos Presbiterais. Sobre este tema, cf. Alberto Antoniazzi, “Conselhos Presbiterais em face dos desafios atuais”, Vida Pastoral nº 217, março-abril de 2001, pp. 22-28; e nº 218, maio-junho de 2001, pp. 23-29. Sobre a história do presbitério, cf. o curso de Tullio Citrini na Pontifícia Universidade Gregoriana nos anos 2001-2003, ainda inacabado (traz ampla resenha histórica desde as origens até a Idade Média). Sobre a fraternidade presbiteral, boa apresentação do tema e ampla bibliografia in: Gianni Colzani, “La fraternità sacerdotale”, Rivista del Clero Italiano 84 (2003), pp. 493-515.

[8] Cf. Novo Millennio Ineunte, 43.

[9] Cf. João Paulo II, Pastores Dabo Vobis, 16.

[10] Em 2004 novamente publicado, em 3ª edição, pela Comissão Nacional de Presbíteros (cf. p. 8).

[11] Ad Magn. 7.

[12] Cf. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, Paulus. São Paulo, 2001, 2ª ed., p. 502ss. Sobre a espiritualidade presbiteral: ver nota 9, bem como a reflexão do Pe. Manoel Jose de Godoy, “A espiritualidade presbiteral…”, Vida Pastoral nº 237, julho-agosto de 2004, pp. 16-24.

[13] A formação permanente — recomendada vivamente, como se sabe, pelo Papa João Paulo II na Pastores Dabo Vobis, cap. VI — é “necessária para discernir e seguir o contínuo chamado da vontade de Deus” (nº 70).

[14] Preciosas indicações sobre as necessidades da formação presbiteral se encontram nos resultados da pesquisa publicada na 3ª parte do livro de André Marmilicz, em: O ambiente educativo nos seminários maiores do Brasil, Curitiba, Gráfica Editora Vicentina, 2003. A pesquisa confirma, ao mesmo tempo, a boa vontade e o despreparo de boa parte dos formadores e a fraqueza da educação humano-afetiva.

[15] Cf. o artigo já citado de Manoel José de Godoy (“A Espiritualidade presbiteral…” Vida Pastoral nº 237, julho-agosto de 2004, pp. 16-24) e mais amplamente: Severino Pagani, “Uomo tra Ia gente”, Rivista del Clero Italiano 75 (1994), pp. 419-435; pp. 499-512.

[16] Sobre este tema, remeto novamente a Luisa Saffiotti, “Padres e sexualidade — para além da crise”, Jornal de Opinião nº 772, 15 a 21 de março de 2004, pp. 4-7.

[17] Guido Villalta, ex-secretário executivo do Celam, citado em Pastoral Presbiteral (3ª ed., 2004), p. 7.

_________________________________________________________________

Projeto Teologia Viva em Missão – I 

dfgdsgdsg
Equipe de monitores do Teologia Viva

Iniciando nossas observações relativas ao Projeto Teologia Viva em Missão, neste mês às missões dedicado, apresentamos aqui um belo exemplo de evangelização radicado na práxis de Jesus, sempre a caminho, para anunciar o Pai amado e seu Reino.

O Centro de Formação de Agentes de Pastoral (CEFAP) teve início em 1989 e, desde então, realiza a capacitação de cristãos da Arquidiocese de Belo Horizonte que desejam aprofundar a própria fé, visando seu protagonismo em sua específica missão de expressar a força vital e dinâmica do Evangelho nas diferentes realidades onde cada qual pode agir. Mas chegou um momento em que o CEFAP, abraçando radicalmente a missão para a qual foi criado, percebeu que o ímpeto missionário – inerente ao ser cristão – o chamava a dar passos mais ousados: Ir além das fronteiras desta Arquidiocese!

Dentre os programas e projetos que desenvolve, tais como o Curso Básico de Teologia, o Curso de Aprofundamento Bíblico-teológico e o Curso Intensivo de Teologia, o CEFAP tece também o Projeto Teologia Viva, e o faz em cores lindas…

Tal Projeto é uma resposta da Arquidiocese, através desse Centro de Formação, às demandas das Assembleias do Povo de Deus por mais formação e aos pedidos da CNBB por mais ajuda entre Igrejas. Oferece os fundamentos bíblico-teológicos a leigas e leigos nas foranias, paróquias e comunidades da Arquidiocese de Belo Horizonte e de outras Dioceses, através de grupos de monitores. Em Belo Horizonte, o curso é organizado com as comunidades e os párocos. Porém, em janeiro e julho, o Projeto Teologia Viva ganha contornos missionários no interior de Minas e na Amazônia. Para que conheça e se encante com o Teologia Viva, transcrevemos, abaixo, a bela e densa narrativa acerca desse projeto, que você também encontrará em:

http://www.pucminas.br/anima/formacao.php?pagina=4633&codigo=12&PHPSESSID=5dd2f5a08f259db3e53eefaa63fa0e42

Projeto Teologia Viva em Missão

“Ai de mim se eu não evangelizo!” 1Cor 9,16

sssdfdfO Projeto Teologia Viva nasceu em Belo Horizonte, em 2006, como resposta às demandas por mais formação apresentadas nas Assembleias do Povo de Deus (APDs). O Projeto Teologia Viva propõe uma visão básica e sistemática dos temas teológicos e bíblicos, visando especialmente à formação dos cristãos comprometidos com a caminhada pastoral das paróquias e comunidades de fé.

A formação acontece nos locais designados pelos párocos, em encontros semanais de duas horas, podendo também acontecer durante os finais de semana por quatro ou oito horas, segundo as necessidades dos grupos, com previsão de duração de três anos. Esses encontros são assessorados por monitores, em sua maioria leigos, que já concluíram um curso de teologia ou bíblia. As avaliações apontaram a positividade do trabalho feito pelo grupo de monitores, tanto pela qualidade da formação dos mesmos, quanto pelo testemunho cristão que levavam e o resultado da formação dos participantes dos encontros.

Satisfeitos com isso, monitores e coordenadores do Projeto Teologia Viva se sentiram interpelados pelo apelo de ajuda na formação dos leigos das Igrejas da Amazônia Brasileira, exposto na Campanha da Fraternidade de 2007. Colocaram-se, então, à disposição para partilhar a própria experiência. A proposta era oferecer, de modo intensivo, nos meses de janeiro e julho, o projeto de formação trabalhado em Belo Horizonte, também com a duração prevista para três anos.

Dom Walmor acolheu com entusiasmo a disponibilidade do Projeto Teologia Viva e a Arquidiocese de Belo Horizonte financiou as passagens das equipes missionárias. A colaboração se iniciou em janeiro de 2008 nas dioceses de Tabatinga (AM), Humaitá (AM), Macapá (AP) e Prelazia de Coari, onde as equipes missionárias trabalharam pelo ciclo previsto de três anos.

Em julho de 2013 três equipes de missionários deram continuidade à caminhada em Macapá (AP), Novo Cruzeiro (MG) e Araçuaí (MG).

Em Macapá continua a caminhada iniciada em julho de 2008. Estamos no segundo ciclo de duas turmas de 95 alunos cada. O primeiro ciclo terminou com a formação de 240 agentes de pastoral. Dom Pedro Conti assumiu a formação como fundamental para toda a Diocese de Macapá, uma vez que o número de padres é muito pequeno e não atende às necessidades das comunidades dispersas no território do estado. Praticamente, a atuação dos leigos é imprescindível, por isso a importância da formação com a qual o Projeto Teologia Viva se comprometeu. As turmas são compostas, portanto, com os agentes de pastoral que chegam de todo o estado do Amapá e parte do Pará pertencente à Diocese.

Em Novo Cruzeiro, foi celebrada a conclusão da caminhada das duas turmas do segundo ciclo. Desde julho de 2010 já se formaram 178 cursistas hoje dirigentes de comunidades. A paróquia é muito grande, e faz parte da Diocese de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. É composta de 72 comunidades distantes até 96 km do centro, acessíveis somente por estradas de terra. O único padre, ameaçado de morte por lutar ao lado dos pobres, não consegue visitar todas com a frequência esperada e são os leigos que levam a vida das comunidades cristãs em frente.

Ponto importante a ser sublinhado é a pobreza, às vezes extrema, que a equipe missionária encontra. A equipe de missionários procurou fazer um trabalho junto à pastoral carcerária e com os presos da cadeia pública onde muitos deles vivem como lixo, amontoados em pequenas selas, doentes. A equipe fez visitas, distribuiu bíblias e denunciou a situação à Assembleia Legislativa de MG, junto à Secretaria de direitos humanos. A equipe missionária, atualmente, além da formação acompanha a luta de um acampamento de sem-terra ameaçado de despejo. A esposa de um dos missionários, professora universitária, também se interessou pela situação e deu início a um curso de artesanato; hoje o material produzido é vendido por uma cooperativa.

Em Araçuaí estamos no meio da caminhada. A diocese é composta por 26 cidades e 22 estão presentes nos encontros semestrais do Projeto Teologia Viva. A turma é de 72 pessoas inseridas nas pastorais e movimentos, com condições de “repassar” em suas paróquias e comunidades a formação recebida. Percebe-se a preocupação de todos: bispo, padres, religiosos e leigos por uma formação que realmente ajude os cristãos a aprofundarem a própria fé e a se comprometerem efetivamente na Igreja.

O que caracteriza essa iniciativa como evangelização é especialmente o “espírito” como tudo é feito. As equipes de missionários que partem para os momentos de formação intensiva nesses lugares distantes de Belo Horizonte estão conscientes de serem “enviadas” por uma comunidade: a Igreja particular de Belo Horizonte os envia em missão para outra Igreja. Esses missionários vão para partilhar a experiência de encontro com Jesus Cristo, aprofundado com o estudo bíblico-teológico e, especialmente, e para viver uma experiência de encontro e convivência com os irmãos. O resultado, como se pode prever, mostrou-se muito positivo para todos.

hghgjghjhhjhj
Equipe de monitores do Teologia Viva

 

_________________________________________________________________

PROJETO TEOLOGIA VIVA:

Igreja em missão

Outubro: tradicionalmente, este mês é celebrado como mês das missões em todas as dioceses do Brasil. Dando continuidade à proposta da Campanha da Fraternidade que trouxe o lema: “Eu vim para servir”, neste ano de 2015; o tema de reflexão para o mês missionário é: “Missão é servir”. Já o lema da Campanha Missionária baseia-se na narrativa do Evangelho em que Cristo centraliza no serviço o perfil de seus discípulos missionários: “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos” (Mc 10, 44).

Que lindo quando nós, cristãos, buscamos viver verdadeiramente isso! E que raro (infelizmente…), e que difícil! Não obstante, tantas e tantos se entregam, despojada e resolutamente, nessa tarefa, nada mais desejando senão amar e servir para fazer frutificar o Reino de Deus.

No intuito de dar mais visibilidade a uma dessas preciosas iniciativas missionárias, o Observatório da Evangelização apresentará, ao longo das próximas semanas, o Projeto Teologia Viva: iniciativa do CEFAP (Centro de Formação de Agentes de Pastoral) a serviço da missionariedade e do protagonismo de cada um/a dos/as batizados e batizadas numa Igreja que quer expressar o dinamismo do Evangelho em diferentes contextos.

Vale a pena conhecer e deixar-se iluminar por essa experiência de entrega e partilha da fé e da vida.

Tânia Jordão

p/ equipe executiva

_________________________________________________________________

 

Comunidade Chacrinha dos Pretos: evangelização em contexto de comunidades quilombolas

IMA_DSC_GRAND20150824084424

A equipe executiva do Observatório da Evangelização visita a Comunidade quilombola Chacrinha dos pretos, no município de Belo Vale, paróquia de São Gonçalo, em busca de conhecer a história trilhada por essa comunidade e, sobretudo, decifrar o sentido de evangelizar em contexto de comunidades quilombolas.

Imediatamente surgem várias questões:

  • O que seria e o que significa, concretamente, anunciar a alegria do Evangelho, a pessoa de Jesus, os valores do Reino e a proposta da fé cristã vivida em comunidades de partilha de vida, amor, esperança e fé no Deus da vida nesse contexto singular?
  • Como o cultivo das tradições e costumes culturais e das crenças, a resistência no cuidar da subjetividade, da identidade cultural e da autoestima das crianças e dos jovens, a árdua luta travada, em contexto de exclusão social e exploração, pela conquista da cidadania das pessoas, famílias e comunidades quilombolas foram, são e serão acolhidos pelos evangelizadores?
  • Que frutos já foram colhidos e quais esperamos ainda colher desse encontro de vida entre a fé cristã, aí anunciada e testemunhada, e a cultura afro-americana nela concretizada?
  • Como mapear e lidar com os entraves e limites históricos, bem como as possibilidades e potencialidades que se abrem no contexto atual?

Nos próximos dias, publicaremos no site, no blog e no facebook o resultado de nossas observações preliminares, aguardem e comentem!

Edward Guimarães

p/ equipe executiva

_________________________________________________________________

Rede de Comunidades que se fortalece pela reflexão: Paróquia São Domingos

Em Nova Contagem, na Região Episcopal Nossa Senhora Aparecida, há uma paróquia, São Domingos, que desde seus primórdios se formou como Rede de Comunidades, alicerçando sua vida em Círculos Bíblicos e na formação continuada do Povo de Deus ali presente.

Com a mente e o coração no Crucificado, tão presente no povo sofredor em sua luta pela vida mais digna, os missionários combonianos que estão à frente da Paróquia procuram que ela faça seu caminho integrando-se a outras instituições do bairro e, assim, lute contra o maior de seus desafios: o assassinato de jovens! Invadida por sucessivas ondas de violência que vitimam os jovens da comunidade, a Rede de Comunidades São Domingos volta-se para os ensinamentos do Mestre de Nazaré para encontrar sentido para tudo aquilo que vive, buscando ser uma resposta que transforme a realidade, iluminando-a.

A essa esperançosa caminhada, o Observatório da Evangelização quer dar visibilidade e convida você para fazer esse percurso conosco, nesta semana.

Tânia Jordão

p/ equipe executiva

_________________________________________________________________

Observatório da Evangelização visita sede das quatro Regiões Episcopais

Com o objetivo de tornar o Observatório conhecido e utilizado pelos membros das comunidades, paróquias, foranias, grupos e movimentos eclesiais presentes e atuantes em cada Região Episcopal, estreitar laços e auxiliar na construção da pauta de observações, a equipe executiva do Observatório da Evangelização da Arquidiocese de Belo Horizonte/ANIMA PUC Minas agendou, neste mês de março, visita aos vigários episcopais e respectivas secretárias.

Durante as conversas, a equipe do Observatório explicitou o desejo de colocar-se a serviço da Igreja, sobretudo, para explicitar e dar maior visibilidade eclesial às ações evangelizadoras das Regiões, bem como propor reflexões sobre os desafios de evangelizar no contexto atual. Para darmos um passo importante, foi solicitado de cada Região oferecer ao Observatório sugestões de experiências de ações evangelizadoras significativas que estão acontecendo em paróquias, pastorais, movimentos e/ ou grupos. Com indicações concretas, o Observatório poderá melhor concretizar a sua missão. A equipe colocou-se à disposição para outras possíveis formas de parcerias, bem como fazer-se presente em acontecimentos eclesiais marcantes da Região, assembleias presbiterais, reuniões com lideranças cristãs, planejamentos. Ficou claro que a intencionalidade que rege o Observatório é a busca de colocar-se a serviço da ação evangelizadora da Igreja.

Região Episcopal Nossa Senhora da Piedade – RENSP

Padre Marcilon RENSP_2A sede da Região Episcopal Nossa Senhora da Piedade, localizada no bairro Floresta/BH e que tem como bispo referencial dom João Justino de Medeiros Silva, foi a primeira a ser visitada pela equipe do Observatório. Esta foi recebida pelo vigário episcopal o padre José Marcilon da Silva e pela secretária Maria Inês, para uma agradável conversa. Foi apresentada as principais características da Região, bem como os desafios da caminhada diante, sobretudo, da sua extensão territorial. Conversamos também sobre os passos dados orientados pelo Plano Pastoral 2013-2016.

Lembrou-se que duas paróquias da Região  já foram temas de análise do Observatório (https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2014/12/01/paroquia-nossa-senhora-do-morro-um-desafio-inspirador-para-toda-a-igreja/ // https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2015/02/13/dulce-dos-pobres-semente-em-terra-boa/). Padre Marcilon aproveitou o momento para destacar alguns entre os trabalhos pastorais existentes, tais como os círculos bíblicos da Comunidade do Morro Vermelho, Paróquia Nossa Senhora de Nazaré; o trabalho com jovens em Taquaraçu de Minas, na Paróquia Santíssimo Sacramento. Enfatizou ainda os trabalhos de evangelização concretizados pela Paróquia Nossa Senhora Rainha e pela Paróquia Nossa Senhora, Mãe da Igreja. Ele ressaltou o conjunto de ações sociais das paróquias que está sendo organizada pelo “Serviço aos Pobres e Participação na Sociedade” – SEPPAS. Este organiza e articula as obras e práticas sociais das comunidades, paróquias e foranias, formando uma grande rede interligada.

Maria Inês, secretária regional, apresentou-nos outras perspectivas. Ela indicou-nos também alguns trabalhos pastorais que merecem ser observados, como, por exemplo, a organização da Pastoral do Dízimo e as ações evangelizadoras na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Região Episcopal Nossa Senhora da Conceição – RENSC

A Região Episcopal Nossa Senhora da Conceição, cuja sede está fixada noPadre Sebastiao Diogo RENSC_1bairro Cachoeirinha/BH e que tem como bispo referencial dom Wilson Luís Angotti, foi a segunda a ser visitada pela equipe do Observatório da Evangelização.  Esta foi recebida, de forma muito cordial, pelo vigário episcopal Pe. Sebastião Diogo de Melo e pela secretária Cremilda.  Ao longo da conversa foram sendo explicitados as características, os passos e os desafios atuais da caminhada da Região, muitos deles indicados no Plano de Pastoral.

Lembrou-se que o Observatório já realizou a análise de uma experiência significativa de rede de comunidades numa paróquia da Região(https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2014/12/12/paroquia-sao-francisco-xavier-uma-rede-de-comunidades-em-processo-permanente-de-autoconstrucao/).Padre Diogo falou-nos da integração de muitas pastorais em nível regional e de que forma os programas pastorais nas foranias e paróquias estão sendo aplicados de maneira que tenham grande participação dos agentes. Destacou o crescimento da caminhada das assembleias do Clero, que tem reunido aproximadamente 80 a 90 padres. Ele apresentou ao Observatório algumas possibilidades de observação envolvendo pastorais e movimentos presentes na Região. Destacou o trabalho sobre CEBs em Ribeirão das Neves; as ações do Centro de Evangelização da Vila Fátima, em Justinópolis; o trabalho social junto aos acampados. Compartilhou ainda sobre uma experiência que tem sido muito interessante, um grupo de presbíteros que consolidou o costume de, nas segundas quintas-feiras de cada mês, reunirem-se para partilhar a vida e trocar de ideias.

Cremilda, a secretária regional, enriqueceu a conversa com muitos comentários pertinentes e falou sobre as atividades realizadas na cúria Regional, com ênfase para os encontros sistemáticos de formação e que, em determinadas épocas do ano, reúnem um número considerável de agentes pastorais e o trabalho de formação das secretárias e secretários paroquiais.

Região Episcopal Nossa Senhora Aparecida – RENSA

Padre Jorge RENSA_1A terceira visita aconteceu à sede da Região Episcopal Nossa Senhora Aparecida, situada no bairro Cidade Industrial/Contagem e que tem como bispo referencial dom Luiz Gonzaga Fechio. Com alegria contagiante, o vigário episcopal padre Jorge Vydrych recebeu em sua sala a equipe do Observatório. Após conhecer a proposta do Observatório e conversarmos sobre os desafios vividos atualmente na Região, demonstrou entusiasmo e, imediatamente, percebeu que poderia haver muitas possibilidades de trabalho.

Padre Jorge destacou o trabalho voluntariado da Pastoral da saúde, Paróquia São José e São Gabriel Passionista; o envolvimento dos leigos na Paróquia Santa Cruz em Contagem; enquanto trabalho social, destacou a ação evangelizadora promovida pelo Dispensário da Paróquia São Paulo da Cruz; a dinâmica dos círculos bíblicos concretizada pela Paróquia Jesus Operário, dentre outros.

Depois de conversarmos sobre as diversas possibilidades do Observatório, visualizamos futuras parcerias, sobretudo após o investimento que a Região pretende fazer contratando alguém para dedicar-se a organização da área da Comunicação. Não tivemos muito contato, nesta ocasião, com a secretária Sueli.

Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança – RENSE

Para completar este primeiro ciclo de visitas às Regiões Episcopais da ArquidioceseFrei Adilson RENSE_1 de Belo Horizonte, o Observatório da Evangelização visitou a sede da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, com endereço no bairro Caiçara e que tem dom Joaquim Mol como bispo referencial. Poucos dias antes, na Assembleia do Clero desta Região, já tínhamos tido a oportunidade de apresentar o projeto do Observatório e, agora, fomos recebidos, com afeto e alegria fraterna pelo vigário episcopal Frei Adilson Corrêa e pela secretária Mércia, e conversamos, com riqueza de detalhes, sobre as características, projetos e metas da Região.

Assim como em outras duas Regiões, recordou-se que o Observatório conheceu e observou na Região, como projeto piloto, o chamado Movimento das Pequenas Fraternidades, nas Paróquias Nossa Senhora de Guadalupe e Santa Clara de Assis (https://observatoriodaevangelizacao.wordpress.com/2014/10/03/movimento-das-pequenas-fraternidades/).

O vigário episcopal apresentou as características da Região Episcopal e seus limites territoriais. Comentou sobre os desafios das foranias e do sonho de comunidades presbiterais. Destacou a renovada e organizada comissão da juventude que, além de organizar o DNJ e participar ativamente da missão na Região, busca reunir jovens para concretizar projetos de evangelização; a originalidade simples do Eremitério Belém e a prática do ofício das comunidades na Paróquia São Francisco das Chagas. Frei Adilson e Mércia, a secretária regional, deram destaque à Pastoral da Esperança, trabalho realizado com zelo pelos Ministros das Exéquias, que atuam no Cemitério da Paz, cemitério municipal que se encontra no território que abrange a Região; aos grupos de fé e política; os trabalhos sociais realizados no Curato Santo Domingos na Ventosa; à articulação das obras sociais na primeira segunda feira do mês; ao trabalho da comissão regional de liturgia.

Para avançarmos no processo de consolidação do Observatório como um instrumento importante a serviço da evangelização e um centro de referência de reflexão e análise pastoral, de notícia, partilha e intercâmbio de dados sobre as ações evangelizadora, sobretudo, da Igreja Particular de Belo Horizonte, convidamos a todos – leigos e leigas, religiosos e religiosas, diáconos, padres e bispos – que participem e ajudem com sugestão de pautas, envio de artigos, notícias de ações significativas que acontecem nas comunidades, questionamentos, sugestões e críticas.

Janaína Gonçalves

p/ equipe executiva

_________________________________________________________________

Paróquia Bem Aventurada Dulce dos Pobres: Desafios da presença e da ação evangelizadora da Igreja Católica no Aglomerado da Serra

Celebração em uma das comunidades da paróquia
Celebração em uma das comunidades da paróquia

Em que consiste evangelizar em contexto de vilas e favelas?  Irmanar-se nas lutas do povo, com suas associações e movimentos sociais, em vista da conquista da cidadania e da defesa da dignidade da vida? Celebrar a vida em cada passo concretizado? Promover processos de construção da identidade, da autonomia e da autoestima das pessoas? Incentivar a mudança do olhar preconceituoso de quem, de fora, olha para os moradores das vilas e favelas como pobres coitados e não como irmãos e irmãs? Que significa concretizar uma presença significativa e inserida da Igreja nesse contexto?

A recém-criada paróquia bem-aventurada Dulce dos pobres, na Vila Cafezal nasceu em setembro de 2012 e celebra os dois primeiros anos de caminhada. Configura-se, atualmente, como uma rede de oito comunidades, onde trabalham três presbíteros: Pe. Wagner Calegário de Sousa, Pe. Raphael Eustáquio do Carmo e Pe. François Marie Lewden (Pe. Chico).

A equipe executiva do Observatório da Evangelização conhecerá e descreverá as ações evangelizadoras que acontecem no Aglomerado da Serra. Que passos foram dados nesses dois anos? Que desafios enfrentaram? Que ações evangelizadoras concretizam atualmente? Que projetos de evangelização estão no horizonte? Que originalidade essa rede de comunidades consegue concretizar?  Em breve, apresentaremos aqui nossas observações.

Edward Guimarães

p/ equipe executiva

_________________________________________________________________

Paróquia São Francisco Xavier, uma autêntica rede de comunidades?

comunidadeHá novidades na ação evangelizadora quando uma paróquia tradicional, com igreja matriz circundada por algumas capelas, transforma-se em comunidade de comunidades? Que caracteriza, concretamente, uma paróquia convertida pastoralmente em rede de comunidades? À equipe executiva do Observatório da Evangelização foi sugerido conhecer a experiência de evangelização que acontece na paróquia São Francisco Xavier. Esta paróquia – criada em 28 de outubro de 1993, pelo então arcebispo Dom Serafim Fernandes de Araújo – surgiu de uma divisão da extensa paróquia Cristo Operário.  Situada na zona norte da capital mineira, à direita da Av. Cristiano Machado para quem segue no sentido centro – Aeroporto de Confins. Os limites de seu território se estendem pelos bairros Floramar, Jardim Felicidade, Jardim Guanabara, Lajedo, Pedreira, Solimões e Tupi.

Desde a sua constituição ela foi entregue aos jesuítas, que já prestavam serviços na região. Nas proximidades da recém-criada paróquia funcionava a Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, na época denominada Instituto Santo Inácio – ISI. Os jesuítas acolheram a missão e assumiram como desafio elaborar um projeto de evangelização próprio para aquele contexto e consolidar uma paróquia que manifestasse, naquele local, a missão da Igreja de Jesus Cristo. Tinham presentes os sinais de esgotamento do modelo tradicional paroquial. Contavam com a presença de outras congregações religiosas atuando no território da paróquia, com muitas lideranças leigas já identificadas e em processo de formação. Vencidas as primeiras resistências, um significativo grupo de lideranças leigas aderiu ao projeto, disposto a conhecer melhor a Tradição da Igreja e colocar-se a serviço da evangelização.

???????????????????????????????A paróquia possui, atualmente, uma rede de dez comunidades. Mas qual a singularidade do projeto de evangelização que ali se concretiza? O que tal modelo de organização conseguiu, concretamente, articular? Que ações evangelizadoras merecem destaque? A equipe executiva do Observatório da Evangelização vai a campo e pretende conhecer de perto a caminhada dessa paróquia e, em breve, descrever o que ali se efetiva. Aguardem as nossas observações e as posteriores análises pastorais de nossos articulistas.

Edward Guimarães

p/  equipe executiva

_________________________________________________________________

Paróquia Bem Aventurada Dulce dos Pobres: Desafios da Presença e da Ação Evangelizadora da Igreja Católica no Aglomerado da Serra

2Em que consiste evangelizar em contexto de vilas e favelas?  Irmanar-se nas lutas do povo, com suas associações e movimentos sociais, em vista da conquista da cidadania e da defesa da dignidade da vida? Celebrar a vida em cada passo concretizado? Promover processos de construção da identidade, da autonomia e da autoestima das pessoas? Incentivar a mudança do olhar preconceituoso de quem, de fora, olha para os moradores das vilas e favelas como pobres coitados e não como irmãos e irmãs? Que significa concretizar uma presença significativa e inserida da Igreja nesse contexto? A recém-criada paróquia bem-aventurada Dulce dos pobres, na Vila Cafezal nasceu em setembro de 2012 e celebra os dois primeiros anos de caminhada. Configura-se, atualmente, como uma rede de oito comunidades, onde trabalham três presbíteros: Pe. Wagner Calegário de Sousa, Pe. Raphael Eustáquio do Carmo e Pe. François Marie Lewden (Pe. Chico). A equipe executiva do Observatório da Evangelização conhecerá e descreverá as ações evangelizadoras que acontecem no Aglomerado da Serra. Que passos foram dados nesses dois anos? Que desafios enfrentaram? Que ações evangelizadoras concretizam atualmente? Que projetos de evangelização estão no horizonte? Que originalidade essa rede de comunidades consegue concretizar?  Em breve, apresentaremos aqui nossas observações.

Tânia Jordão

P/ equipe executiva

_________________________________________________________________

Paróquia Nossa Senhora do Morro, na capital mineira: Um horizonte belo é possível.

Pintura de Fabiano Valentino – Executor do projeto “Favela Bela”. Parceiro da Paróquia Nossa Senhora do Morro, suas obras decoram quase todos os espaços externos do Muquifu.

Caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar. (Antonio Machado)

Ali, onde a vida é mais ameaçada, o que fazer? Para o cristão, referido, portanto, a Jesus de Nazaré, a resposta não poderia ser outra que buscar criativamente atualizar as ações evangelizadoras do Mestre. Esse cuidado com a vida se expressa, em nossos dias, com formas e coloridos diversos, segundo o contexto onde nos encontremos.

Chega a primavera. Esperamos chuva para fecundar nosso chão, apagar as queimadas, umedecer o ar… Trazer beleza e vida nova. Assim também esperamos que sejam, para a Igreja, as novas experiências a que vamos, pouco a pouco, dando visibilidade. Nesta semana nos aproximaremos mais das realidades vividas pela Igreja na Barragem Santa Lúcia, em Belo Horizonte.

Segundo as primeiras informações que nos chegam, na Paróquia Nossa Senhora do Morro, a comunidade, orientada pelo padre Mauro Luiz Silva, atende às solicitações à serviço da vida e da esperança através da pastoral da saúde; da comunicação popular, com um jornal comunitário; do reforço escolar; da pastoral da sobriedade; da pastoral do negro; do atendimento e/ou apoio aos idosos; da distribuição de alimentos; da assistência jurídica; da pastoral da criança e, ainda, de uma biblioteca comunitária. Isso além da já bastante divulgada experiência do Muquifu – Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos. Claro está que não é o número de pastorais que assinala o dinamismo de uma comunidade. Muito menos seria a quantidade de serviços prestados que nos ofereceria o espelho do que isso significa para a vida de quem ali vive. Mas, esse jeito de ser Igreja, conforme as próprias opções pastorais e sociais parecem apontar, tem qualquer de novo, caminha no meio do povo, como diria Pe. Zezinho.

A nós, membros do Observatório da Evangelização da Arquidiocese de Belo Horizonte, importa ver de perto as diferentes e significativas respostas que são dadas pela Igreja para evangelizar em cada realidade. Depois, analisar, à luz da práxis de Jesus e das orientações de seus seguidores, essas mesmas experiências. Assim, quem sabe?, o Observatório contribua a que outras comunidades também possam buscar, criativamente, fazer caminho.

Venha conosco! A partir dessa semana observaremos esse outro percurso de evangelização.  Seriam as ações da Paróquia Nossa Senhora do Morro  significativas para o anúncio do Evangelho, neste tempo e lugar?

Edward Guimarães

p/ equipe executiva

_________________________________________________________________

Pequenas Fraternidades: uma nova dinâmica de evangelização?

Igreja Nossa Senhora de Guadalupe, o primeiro templo da paróquia

O Observatório da Evangelização começa as suas atividades de campo no mês de setembro. A equipe executiva aproxima-se de uma significativa experiência de evangelização localizada na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, no Bairro Castelo, na Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança da Arquidiocese de Belo Horizonte. Inspirada nas primeiras comunidades, narradas no livro do Ato dos Apóstolos, o projeto “pequenas fraternidades”, nome como é conhecido, tem cerca de 15 anos de caminhada. Hoje conta com quase setenta fraternidades. Cada uma tem seu nome, dia de reunião, em sistema de rodízio, nas casas dos integrantes e participação definida em escala de serviços no calendário litúrgico da paróquia. São variadas no tempo de caminhada, no número de participantes, na configuração e no processo de constituição. A maior parte é constituída por casais, mas há também algumas formadas apenas por mulheres e outras por jovens. Quase todas as pequenas fraternidades surgem após a dinâmica do encontro de casais. Mas há também as que surgem por iniciativa missionária de membros das antigas fraternidades ou por desejo de um grupo de pessoas que toma conhecimento da experiência. Que há de novo nessa instigante experiência? Ela consegue concretizar caminhada de aprofundamento e crescimento na dinâmica da vida cristã? Responde satisfatoriamente ao desafio de ser cristão na cidade? Qual a sua concepção eclesial? Contribui para o desafio de construir rede de comunidades proposta pelo Documento 100 da CNBB Comunidade de Comunidades: A Nova Paróquia? Estimula o protagonismo dos leigos, da mulher e dos jovens como enfatiza as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB? Desperta os participantes para assumir a dimensão missionária do ser cristão tão bem explicitada na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco?  Aguarde para os próximos dias o resultado de nossas observações e as análises de nossos articulistas.

Edward Guimarães

p/ equipe executiva

_________________________________________________________________

O que busca o Observatório?

O anúncio do Evangelho geralmente provoca alegria e encanta o coração, entusiasma e desperta o desejo de vida nova. O encontro com a pessoa de Jesus provoca conversão, busca e cultivo da intimidade com Deus e com o próximo, acolhido na fé como irmão. Por onde passa, o cristianismo tem suscitado formas diversas de comunidades, grupos e movimentos de pessoas irmanadas pela mesma fé. Foi o que despertou o início da Tradição cristã e é, igualmente, o que faz com que ela continue viva e fecunda depois de dois milênios de história e rica variedade de experiências eclesiais e sociais. A tendência do mundo atual indica que caminhamos para uma realidade social secularizada, com as pessoas vivendo cada vez mais concentradas em complexos aglomerados urbanos, com múltiplas possibilidades de trabalho, comunicação, trânsito, interação e relacionamento, mas também de percepção, contato e aproximação de desigualdades sociopolíticas e econômicas e, portanto, de crescimento de conflitos sociais e religiosos. De um lado, as pessoas vivem, geograficamente, mais próximas, mas, por outro, tornam-se mais individualistas e/ou fechadas em pequenos grupos na convivência social. Se há maior  acumulação de conhecimentos, avanços tecnológicos e intercâmbios culturais, do mesmo modo, há maior percepção dos contrastes sociopolíticos, econômicos e, consequentemente, multiplicação de conflitos e disputas por território e poder ou acesso e participação. Diversos estudos e pesquisas constatam que o cristianismo, passa por crise profunda. Além de não conseguir, onde finca raízes, criar sociedades pautadas pelos valores humanos que defende, é acusado de tornar-se, frequentemente, mais uma religião ritualista, intimista e de massa, na qual a maioria dos adeptos não se sente participante, vinculada e nem comprometida, horizontalmente, com o cultivo de comunidades fraternas e com a construção da sociedade justa, inclusiva e solidária. Cresce no meio dos jovens, o número daqueles que não se encontram e nem se sentem atraídos pela religião cristã praticada pela própria família. Será que o cristianismo está caminhando para o seu ocaso?, perguntava, de modo provocativo, o teólogo João Batista Libanio. Acontece que, no presente, como em diversos momentos do passado, surgiram lideranças carismáticas, criativas e/ou reformadoras, capazes de voltar às fontes e suscitar novo alvorecer na experiência cristã. Perguntamo-nos, hoje, quais as experiências de evangelização que se mostram significativas, com capacidade de responder aos desafios de ser cristão inseridos na realidade atual? Aqui o Observatório da Evangelização apresentará, para seu conhecimento e análise, uma série de experiências com pretensão de renovar a vida cristã e/ou responder aos desafios dos sinais do tempo.

Edward Guimarães

p/ equipe executiva

%d blogueiros gostam disto: