Rezar com os místicos: Teilhard de chardin (I)

2015_04_teilhard-de-chardin
O Deus, que fez o homem para que este o encontre é tão espalhado e tangível como a atmosfera em que nós somos banhados. Ele nos envolve por todos os lados.

Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta francês, filósofo, teólogo e paleontólogo, teve uma sólida formação intelectual. Demonstrando desde muito jovem um grande potencial como cientista, teve grande paixão pela Terra, só não maior que o seu amor à Deus, inclusive, retirando daí sua síntese: não há separação radical entre o mundo material e o mundo espiritual, já que todo o Universo nos apresenta Deus.

Segundo Luiz Balsan, para Teilhard de Chardin, Deus se encontra em todas as formas de vida, através de seu calor, de sua radiação, de seu poder, de sua energia e de sua beleza. Sua obra O Meio Divino é fonte inspiradora que contem os principais pontos do legado espiritual deste grande místico cristão.

Aos 33 anos, Teilhard de Chardin já havia conquistado um grande prestígio no meio científico. Como homem de vocação religiosa, convivia com o desconforto de constatar a terrível distância entre o mundo da ciência e o mundo da religião. No meio científico, bastante inundado pelas consequências últimas do positivismo, era uma voz díspar da maioria dos cientistas, já que nunca dissociou a sua capacidade de pesquisa, do desejo ardente de encontrar o sentido último de todas as coisas.  Como ressalta Luiz Balsan, dirigindo-se aos céticos, Teilhard diz: “Como vocês, e até melhor que vocês (…), eu quero dedicar-me de corpo e alma ao sagrado dever da pesquisa”. Com esta atitude, de “sagrado dever”, descortina os tênues arranjos que impedem o diálogo entre a ciência e a religião.

Embora tenha morrido poucos anos antes do Concílio Vaticano II (1962-1965), foi capaz de antecipá-lo através de suas grandes contribuições filosóficas e teológicas, em um período no qual o cristianismo pouco tinha a dizer para o mundo secular, já que se eximia de participar das grandes transformações que a crença no progresso e desenvolvimento humano acarretava. Para Teilhard de Chardin, a grande suspeita desse tempo contra o cristianismo era a de que a religião torna desumanos os seus fiéis. De sensibilidade profunda e perspicaz, o padre cientista avaliava que “uma religião considerada inferior ao nosso ideal humano, sejam quais forem os prodígios de que ela se cerca, é uma religião perdida”. Na sua visão, “o Deus encarnado não veio diminuir em nós a magnífica responsabilidade, nem a esplêndida ambição de nos construirmos a nós mesmos”.

Sua dedicação à ciência e sua grande profundidade como teólogo, não o isentou dos arbítrios do Santo Ofício, não acostumado com os grandes espíritos livres, capazes de inovar, propor e atualizar a mensagem evangélica no diálogo com o mundo. Por isso, em seu tempo, teve seus escritos filosóficos e teológicos censurados. No entanto, nada disso foi capaz de esmorecê-lo, já que nada mais buscou a não ser demonstrar a grandeza do Criador em um Universo em evolução, sabedor de que Cristo é o centro cósmico de toda a Criação. Além da natureza humana e divina de Cristo, reconheceu a importância de se considerar sua dimensão cósmica, estimulando uma Cristologia em sintonia com os anseios de revitalização do mundo.

A mensagem de Teilhard de Chardin é sumamente importante para os cristãos leigos na contemporaneidade, uma vez que, a partir de sua constatação de que a presença do Verbo Encarnado penetra todas as coisas, de forma universal e infinitamente íntima, não se deve fragmentar a vida em duas dimensões: a material e a espiritual. Sendo assim, todo o agir humano pode ser uma ação santificadora. Nesse sentido, para Teilhard de Chardin, o cristianismo não é, como muitas vezes se apresenta, uma carga suplementar de práticas e obrigações. É, “na verdade, uma alma potente, que dá significação, um encanto e uma leveza nova àquilo que nós já fazemos”. Assim, procura romper com os dualismos que afastam as pessoas do cristianismo, quando se deparam com o dilema de ter que dividir o seu tempo entre cuidados materiais e vida espiritual. Constata que “dominados por este sentimento, muitíssimos cristãos levam uma existência praticamente dupla e torturada: eles precisam despojar-se de suas vestes de homens para sentirem-se cristãos, e somente cristãos inferiores”.

Vê-se, aqui, uma grande abertura para uma Igreja livre do clericalismo, que faz de alguns guardiões do sagrado e de outros mendicantes de um Deus distante da vida.

A fé madura é capaz de enxergar a Deus no mundo, nas atividades do cotidiano, na beleza da Criação, nas lutas que devem ser travadas em favor de todas as formas de vida. A fé madura torna as pessoas dinâmicas, ativas, sem complexos de inferioridade, capazes de reconhecer a ação de Deus na história.

Hoje, mais que nunca, é preciso ter essa maturidade para que possamos cooperar no cuidado com a Casa Comum, expressão presente na Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, que dialoga diretamente com as contribuições de Pierre Teilhard de Chardin, um homem extremamente contemporâneo.

ORAÇÃO DE TEILHARD DE CHARDIN

Centro em que tudo se encontra e que se estende por sobre todas as coisas para reconduzi-las a si, eu vos amo pelos prolongamentos de vosso Corpo e de vossa Alma em toda a Criação, por meio da Graça, por meio da Vida, por meio da Matéria.

Jesus, doce como um Coração, ardente como uma Força, íntimo como uma Vida.

Jesus, em quem posso me fundir, com quem devo dominar e me libertar, eu vos amo como um Mundo, como o Mundo que me seduziu e sois Vós, agora vejo bem, sois Vós que os homens, meus irmãos, mesmo aqueles que não creem, sentem e perseguem através da magia do grande Cosmos.

Jesus, centro para o qual tudo se move, dignai-vos preparar para nós, para todos, se possível, um lugar entre as mônadas escolhidas e santas que, despegadas uma por uma do caos atual pela nossa solicitude, se agregam lentamente em Vós na unidade.

Fonte: IHU

images

Teilhard deixou um documento ao morrer em cima da mesa. Era um retrato do radiante coração de Cristo, em cuja frente e verso ele escreveu de próprio punho: “Minha Litania”. Em termos veementes, fala de Deus, de Cristo e do cristianismo, de Jesus e de seu coração. Gostaria de citar algumas passagens dessa litania:

MINHA LITANIA

O Deus da evolução, o Crístico, o Sagrado Coração do Cristo, do Trans-Cristo…

O motor da evolução, o coração da evolução, o coração da matéria,

O coração de Deus…  do deleite do mundo,

O dínamo do cristianismo…

A essência de toda energia,

Coração do coração do mundo,

Foco da energia suprema e universal

Centro da esfera cósmica da cosmogênese

Coração de Jesus, coração da evolução,

Une-me a Ti.

Essa litania sintetiza a fé de toda a vida de Teilhard, a fervorosa crença de que o mundo possui um coração, um centro. O imenso processo cósmico do vir-a-ser tem um foco, um pólo, e o fogo divino do coração e do amor de Deus fornece todo o deleite e a energia de que o mundo precisa. A essência dessa energia é ativada e pode ser transmitida por meio do cristianismo, do fogo e do poder da fé cristã, cujo potencial para amar, para “amorizar” o mundo, deve se inflamar. Para ele o cristianismo é a religião da evolução por excelência, e seu Deus o “Deus de evolução”.

Teilhard estava buscando um Deus de evolução, um Deus cuja imagem fosse compatível com as complexas dimensões de nosso universo; um Deus que não se mantivesse à parte, que não fosse um princípio movente, mas estivesse profundamente envolvido com todo o processo cósmico, do qual somos parte integrante; um Deus verdadeiramente vivo, que está conosco aqui e agora, totalmente encarnado na matéria e em todo o vir-a-ser. Para ele, a essência do cristianismo é uma crença na unificação do mundo em Deus por meio da encarnação. Por causa dessa crença fundamental, Teilhard via o cristianismo – o não o cristianismo ocidental como o conhecemos, mas um cristianismo muito mais inclusivo e abrangente – como uma “religião de ação”, uma religião de evolução, uma religião do futuro.

Podemos abordar Teilhard em muitos níveis diferentes: ele foi um membro fiel da Igreja Católica e da Ordem dos Jesuítas; uma testemunha poderosa do evangelho cristão; debateu-se com a problemática de Deus na cultura contemporânea e percebeu a urgente necessidade de uma maior coerência entre ciência, religião e misticismo. Mas perfilou-se sobretudo em favor do poder e da dinâmica espiritualmente transformadores da fé cristã, de uma visão centrada no âmago e na essência do cristianismo: a crença em Deus encarnado  encarnado na humanidade e no mundo, no cosmos e na matéria.

Teilhard aderiu a essa fé com imensa santidade e sofrimento. Uma fé cuja aquisição não se deu facilmente, mas à custa de muito sacrifício, de muito esforço e de muita luta. A espiritualidade teilhardiana não se resumia à união e à adoração divinas. Pelo contrário, era também, total e literalmente, uma espiritualidade de resistência e de força, nascida da aflição. Sua consciência era verdadeiramente crística, uma espiritualidade mística nova e original:

LOUVOR AO SEMPRE GRANDIOSO CRISTO

Senhor, visto que, por inata tendência e em meio a todos os riscos de minha vida, fui impelido incessantemente a te buscar e a te estabelecer no coração do universo da matéria, hei de ter a alegria de, quando sobrevier a morte, fechar meus olhos em meio ao esplendor de uma transparência universal incandescente de fogo…

Senhor de consistência e de união, tu, cujo sinal característico e essência é o poder de tornar-te indefinidamente maior, sem distorção nem perda de continuidade, à medida da misteriosa Matéria cujo Coração preenches e cujos movimentos em última instância controlas.

Senhor de minha infância e de meus derradeiros dias. Deus, completo em relação a ti mesmo e no entanto, para nós, em contínuo nascimento… Deixa que tua universal Presença emane em um clarão que seja a um só tempo Diafania e Fogo.

Oh Cristo sempre maior!

Fonte: CIBERTEOLOGIA

CNBB divulga nota em defesa da Lei da Ficha Limpa

No texto, os bispos conclamam “a população, legítima autora da Lei da Ficha Limpa, a defendê-la de toda iniciativa que vise ao seu esvaziamento”

O Conselho Episcopal Pastoral (Consep) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprovou, nesta quarta-feira, 24, nota em defesa da Lei da Ficha Limpa. No texto, os bispos rejeitam toda e qualquer tentativa de desqualificar a lei, que “é resultado da mobilização popular e que expressa a consciência da população de que, na política não há lugar para corruptos”.

Confira, abaixo, a nota na íntegra.

Ficha-Limpa-Proteger

NOTA DA CNBB EM DEFESA DA LEI DA FICHA LIMPA 

O Conselho Episcopal Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília-DF, nos dias 23 e 24 de agosto, vem reafirmar a importância da Lei 135/2010, a Lei da Ficha Limpa, rejeitando toda e qualquer tentativa de desqualificá-la. Resultado da mobilização popular que coletou 1,6 milhões de assinaturas, a Lei da Ficha Limpa expressa a consciência da população de que, na política, não há lugar para corruptos.

Tendo sua constitucionalidade confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que, em 2012, votou favoravelmente pelas Ações Declaratórias de Constitucionalidade (ADC 29 e 30), a Lei da Ficha Limpa insere-se no rol das leis mais importantes no combate à corrupção eleitoral e na moralização da política. Respaldada por grandes juristas e aprovada pelo Congresso Nacional, ela atesta a sobriedade de quem a propôs de forma que atacá-la ou menosprezá-la é enfraquecer a vontade popular de lutar contra a corrupção.

Recebemos com perplexidade a decisão do STF que reconhece a exclusividade das Câmaras Municipais para julgar as contas dos prefeitos em detrimento da competência dos Tribunais de Contas. Na prática, isso significa o fim da inelegibilidade dos executivos municipais mesmo que tenham suas contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas. Trata-se de um duro golpe contra a Lei da Ficha Limpa o qual favorecerá o fisiologismo político e a corrupção, considerando o poder de barganha que pode haver entre o executivo e o legislativo municipais.

Conclamamos a população, legítima autora da Lei da Ficha Limpa, a defendê-la de toda iniciativa que vise ao seu esvaziamento. Urge não dar trégua ao combate à corrupção eleitoral e a tudo que leve ao desencanto com a política cujo objetivo é a justiça e o bem comum, construído pacífica e eticamente.

Brasília, 24 de agosto de 2016.

 

    Dom Sergio da Rocha                                                           Dom Murilo S. R. Krieger

Arcebispo de Brasília-DF                                                   Arcebispo de S. Salvador da Bahia-BA

Presidente da CNBB                                                               Vice-Presidente da CNBB

 

      Dom Leonardo Ulrich Steiner

         Bispo Auxiliar de Brasília-DF

      Secretário-Geral da CNBB

fichalimpa

Entrega das assinaturas do projeto de iniciativa popular que ficou conhecido como Ficha Limpa.

Fonte:

www.cnbb.org.br

Restaura a minha igreja: desafios de Francisco

Irmão sol e irmã lua

Cena do Filme Irmão sol e irmã lua com Francisco e a Igrejinha em ruínas.

Quem conhece a vida de São Francisco de Assis sabe da profunda experiência espiritual vivenciada por ele nas ruínas da igrejinha de São Damião. Segundo seus biógrafos, Francisco, absorto em oração diante do crucifixo, discerne os apelos de Deus: “Francisco, restaura a minha igreja. Não vês que ela está em ruínas?

Muitos acontecimentos ao longo desses três primeiros anos de pontificado indicam que a retomada da simplicidade da estética evangélica, da proximidade amorosa das pessoas, da dimensão missionária do batismo, e, sobretudo, do primado da misericórdia lançados pelo “papa do fim do mundo” – foi assim que o atual bispo de Roma se auto titulou – está provocando uma autêntica renovação do ar que penetra os pulmões da Igreja católica. Será um sopro do Espírito Santo?  Desejamos que Francisco inaugure um tempo novo e de renovado fôlego para a Igreja, pela atualização da fé cristã nos marcos da cultura contemporânea, pela renovação criativa do colocar-se a serviço do povo de Deus e de toda a humanidade que coexiste em nossa Casa comum, pelo anúncio e testemunho da boa nova do Reino de Deus e, principalmente, pela concretização diária do amar, tal como foi vivido por Jesus Cristo.

1378615_436796199766091_1981816737_n

Mais que o nome do famoso santo, a escolha do nome Francisco para o bispo de Roma indica o compromisso radical com os valores do  Evangelho.

Este hálito de vida nova, soprado pelo Espírito de Deus, nas velas da barca de Pedro no último conclave, aquele que elegeu Francisco como novo timoneiro, parece que a está conduzindo a novos rumos e a singrar por novas rotas no oceano da fé. Cinco séculos depois das Grandes Navegações, outras caravelas partiram novamente do grande centro, a Europa, e, depois de adentrar pelas ondas de além-mar, chegaram a esta mesma periferia, a América Latina. Porém a novidade dessa rota não está tanto numa possível conquista do centro pela periferia, mas na construção de “um outro papado possível”, parafraseando o lema do Fórum Mundial Social. Um modo de exercer o ministério de Pedro que deixa decididamente o solitário e distante trono do altar para estar junto e misturado na caminhada do povo de Deus.

Esse agir pastoral que escuta o clamor dos excluídos e que não teme andar de mãos dadas com os diversos movimentos de defesa da dignidade da vida remete imediatamente à luta dos mais pobres e crucificados pelas históricas contradições sociais. Francisco foi forjado pela fé e esperança teimosa dos pequenos que se nutrem da fidelidade até as últimas consequências do crucificado e por isso não desistem, mesmo diante do sangue derramado das incontáveis vítimas que fecundam este solo latino americano, tão marcado pela colonização, pela exploração humana e dos recursos naturais, pela exclusão social e pela violência dos poderosos.

Como aqui ainda não conseguimos democratizar os grandes meios de comunicação, eles, por estarem nas mãos de grupos poderosos, procuram sistematicamente usurpar e tirar proveito de cenários como o atual da Igreja. Percebem a importância política de um líder com grande influência na maior comunidade de fieis do mundo. No entanto, é preciso cultivarmos um olhar mais profundo e apurado, como aquele de Santa Luzia frente ao julgamento arbitrário do governador Diocleciano[1]. Quando contemplamos a pessoa de Francisco, seus ensinamentos e posturas proféticas percebemos que não se trata de marketing religioso ou uma estratégia da cúpula para estancar a grave perda de fieis das últimas décadas ou trazer de volta ao redil as ovelhas afastadas. Os documentos do magistério de Francisco – Evangelii Gaudium, Laudato Si e Amoris Laetitia, mas igualmente suas homilias, discursos e posturas proféticas revelam que estamos diante, não de algo novo, mas da retomada da preocupação com a coerência com o Evangelho. Merece destaque o recente discurso proferido no Capitólio, em sua viagem aos Estados Unidos em ocasião de emigrações ilegais devido aos conflitos inter-étnicos no norte da África. Com muita simplicidade e sabedoria, Francisco fez duras críticas aos norte americanos, mas sem agredi-los ou desprezá-los. Pontuou corajosamente que o “sonho americano” e os heróis daquela nação ensinaram ao mundo grandes valores, dentre eles o da liberdade, e que, nesse sentido, os estadunidenses deveriam acolher os emigrantes já que há cinco séculos atrás todos que vieram para as Américas eram estrangeiros nas terras do Novo Mundo. Houve críticas ferrenhas de parlamentares conservadores, intelectuais liberais e até mesmo de líderes religiosos da própria igreja ao discurso do Pontífice, tentando o caracterizar, de forma pejorativa, como um discurso puramente comunista. Isto comprova, a nosso ver, que assim como São Francisco de Assis, no fim da Idade Média, o Papa Francisco, na crista da Idade Pós-Moderna, experimenta o mesmo chamado de restaurar a Igreja que está em ruínas. E o faz com os tijolos e pedras vivas, aqueles que estão a margem da sociedade e clamam aos céus por justiça.

alx_imagens-do-dia-20150925-19_original

Papa Francisco faz discurso histórico no Capitólio

Outros gestos proféticos merecem destaque. Primeiro quando, depois de denunciar a tragédia da globalização da indiferença ante do drama dos refugiados tão disseminada pelos países da Europa. Francisco toma a decisão de levar com ele para o Vaticano doze refugiados sírios e colaborar fraternalmente na busca de uma nova vida longe das ameaças dos terríveis e violentos conflitos vividos[2]. Segundo quando, ao se reunir, pela primeira vez no Vaticano, com as lideranças dos movimentos sociais de defesa da vida, ao ouvir seus clamores, proclama para reforçar a esperança e a perseverança em suas lutas pela plena cidadania: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos”.

ng6514033

Papa Francisco recebe doze refugiados sírios no Vaticano.

Se alguém ainda tem dúvida sobre o poder transformador do Cristo misericordioso e libertador, do qual o “santo pobre de Assis” e o “papa do fim do mundo” se nutrem, contemplar os feitos históricos do Cristianismo despertará a sua atenção para discernir os efeitos eclesiais e sociais provocados pelo jeito singular de Francisco exercer o ministério do Pedro como bispo de Roma. Pela primeira vez na história, setores marginalizados e crucificados da sociedade e da Igreja são acolhidos abertamente por Francisco. Alguns exemplos: bispos de dioceses das periferias são chamados, escutados e reconhecidos nos encontros; promove-se uma gestão mais participativa e de corresponsabilidade na vida da Igreja; a dignidade dos homossexuais e dos recasados é discutida, valorizada e defendida; a cidadania eclesial da mulher volta a ser discutida; leigos e leigas são convidados a participar mais da vida da Igreja; os cuidados com a Casa comum passam a fazer parte da doutrina social da Igreja…  Aqui é importante ressaltar que o atual papado, apesar de suas especificidades, é fruto de um momento anterior, iniciado em 1961, com a abertura do Concílio Vaticano II, pelo então papa João XXIII.

O lugar de origem marca e influencia as relações sociais dos indivíduos, como aponta o sociólogo francês Loic Wacquant no artigo “A estigmatização territorial na idade da marginalidade avançada”. Nesse sentido, o jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio, ao tornar-se bispo de Roma, levou consigo os tesouros guardados ao longo da caminhada da Igreja latino americana. Tesouros estes consagrados no sangue derramado de seus mártires pelo compromisso com a construção da sociedade pautada pela justiça e pela solidariedade fraterna e inclusiva. Como um autêntico e sábio timoneiro, Francisco tem conduzindo a barca de Pedro bem consciente da presença do Espírito Santo na vida de cada homem ou mulher de fé.

glaucon

Glaucon Durães

Estudante de Ciências Sociais da PUC Minas

Membro da equipe de colaboradores jovens do Observatório da Evangelização

[1] Santa Luzia de Siracusa, aclamada padroeira da visão pelos católicos, é um símbolo de discernimento e firmeza de fé. Soube nas vésperas de seu martírio, não se deixar seduzir pelas pompas humanas. Hoje, a jovem siciliana nos convida a não cairmos nas pompas de nossos tempos, dentre elas, é importante citar aqui, as falsas imagens criadas pela mídia e pela indústria cultural, que por muitas vezes, mercadorizam irresponsavelmente a imagem de Francisco.

[2] É importante ressaltar que para além da quantidade de refugiados acolhidos, o gesto de Francisco tem que ser analisado principalmente pelas óticas das representações simbólica e política.

5ª APD: representantes dos conselhos da Arquidiocese de BH refletem sobre resultados de pesquisa

Representantes dos Conselhos Pastorais da Arquidiocese de Belo Horizonte – Conselho Arquidiocesano de Pastoral, Conselho do Vicariato Pastoral, Conselho do Vicariato para Ação Social e Política, os conselhos pastorais das regiões episcopais e comissões ampliadas da 5ª APD – se reuniram em assembleia para analisar os resultados parciais da pesquisa destinada a nortear os trabalhos da 5ª Assembleia do Povo de Deus (5ª APD). Padres e religiosos também foram convidados a participar do evento realizado pelo Vicariato para a Ação Pastoral, na quarta-feira, dia 24 de agosto, no auditório da Paulinas Livraria.
Após um momento de oração, o vigário episcopal para a Ação Pastoral, padre Áureo Nogueira, convidou o bispo auxiliar  dom Joaquim Mol a iniciar os trabalhos. Dom Mol incentivou os fiéis a ter coragem para ousar em suas propostas durante esse processo de renovação das Diretrizes da Ação Evangelizadora da Arquidiocese de Belo Horizonte.
IMG_7958 - Cópia(2)

Dom Joaquim Mol

O bispo enfatizou que o momento atual da igreja particular de Belo Horizonte – de realização da 5ª APD – é oportuno para que todos se debrucem sobre o caminho percorrido e busquem um novo tempero para tornar mais vibrante todo o processo.
“E esse tempero é a reforma que o Papa Francisco está pelejando para fazer na Igreja, ou seja, já está fazendo, com o apoio de uma turma que caminha com ele. Podemos fazer o mesmo se colocarmos na nossa caminhada esse tempero que anima a dar passos novos, com ousadia, formando uma turma que vai puxando mais e mais pessoas para frente”.
Dom Mol sublinhou que o ideal, nessa 5ª APD, não é fazer muito do mesmo, e sim procurar realizar, até mesmo um pouco menos, mas de algo que realmente valha a pena e contribua para a contemporaneidade da Igreja.
“Sei que é difícil especialmente nesse momento em que se convive com a perda de direitos, com descréditos, numa realidade que tem ingredientes ruins. Mas o desafio é fazer a Assembleia do Povo de Deus no contexto atual, sem se deixar fisgar por essa depressão institucional”.
Os resultados da pesquisa, que se estende até outubro deste ano, fundamentaram-se em 6.569 questionários respondidos, na íntegra, até julho passado, por pessoas de perfis variados residentes nos 28 municípios que integram a Arquidiocese de BH.
Os dados foram sistematizados e apresentados pelo professor e teólogo pastoralista padre Manoel Godoy, ex-diretor Executivo do Instituto Santo Tomás de Aquino. Padre Manoel Godoy demonstrou preocupação com o alto percentual de respostas a questões importantes que representam indefinição, ou seja: muitos entrevistados responderam “mais ou menos” em perguntas decisivas, por exemplo, sobre a ação profética da igreja,  o peso da burocracia  e a respeito da proximidade da igreja e sua influência na vida de seus  fiéis.
Padre Manoel Godoy integrou a equipe que conduziu as reflexões ao lado da professora do Centro Loyola e da PUC Minas, Lucimara Trevisan, que apresentou questões relativas à renovação da vida comunitária; da teóloga Elizabeth Corazza, mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta (FAJE), que convidou os presentes a refletirem sobre  a espiritualidade encarnada, e do assessor de Políticas Sociais do Vicariato para a Ação Social e Política e mestre em Ciências Sociais, Frederico Santana Rick, que falou sobre a inserção social, na perspectiva dos resultados parciais da pesquisa que norteará os trabalhos da 5ª Assembleia do Povo de Deus .

Padre Áureo Nogueira

Pe. Manoel Godoy, Lucimara Trevisan, Ir. Elizabeth Corazza fsp, Frederico Santana Rick

Teóloga Elizabeth Corazza, fsp, falou sobre “Espiritualidade Encarnada” no contexto das Diretrizes da Ação Evangelizadora na Arquidiocese de Belo Horizonte 

 

Fonte:

www.arquidiocesebh.org.br

Profetas do Reino, um relato apaixonado da Romaria dos Mártires

13781762_1071437372938815_5674023002416850792_n

 

Estive em Ribeirão Cascalheiras-MT para participar da Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, nos dias 16 e 17 de julho de 2016. Fui no ônibus das CEB’S da Arquidiocese de São Paulo. Uma galera divertidíssima. Foram 30 horas para ir e 30 horas para voltar, fomos tocando violão e cantando aquelas que ninguém toca e canta mais…mas… cheguei inteiro.

Pessoas de todos os cantos do Brasil, da América Latina e Caribe, do outro lado do Atlântico, estavam chegando à São Félix do Araguaia, para participarem pela primeira vez da grande Romaria dos Mártires. Outros já estavam repetindo a dose para retomar as forças. Já tinha gente hospedada próximo ao local desde a sexta-feira; outras pessoas já haviam se deslocado para o local a quase um mês para ajudarem a preparar, a organizar tudo para celebrarem juntos a bendita Romaria. E Deus viu que tudo era bom.

Eram 8 horas da manhã quando o ônibus parou na praça da Igreja São João Batista, onde todos os romeiros iriam chegar e se reunir.

 Foi muito legal rever amigos e amigas.

Depois de um café com pão e margarina, as pessoas foram enviadas para os hotéis, casas de família e escolas onde ficariam hospedadas. Foram descansar da viagem, outras visitaram o Santuário dos Mártires, outros, ficaram por ali, conversando e matando a saudade.

Foram dias de oração, de luta e troca de experiências. Que não caberiam neste breve relato que faço, e que tento ser muito fiel. Meus olhos viram, meu coração sentiu…muitas coisas…peço a Deus que me ajude enquanto escrevo algumas palavras daqueles dias naquela Terra Santa. Como explicar algo inexplicável?

Meus pés ficaram cobertos com a terra vermelha.

Em minha cabeça, as palavras de Deus para o profeta Moisés: “Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é uma terra santa”.

Conversei com muita gente que nestes 40 anos viveram uma espiritualidade pé no chão, que resistiram a muitas tempestades. Aqueles que vinham da grande tribulação. Em tempos primaveris de Francisco, muita coisa precisa mudar para a Igreja avançar para águas mais profundas.

Abracei muitas pessoas, e fui abraçado. Me emocionei com o carinho de tantas pessoas.

Abracei o índio Guarani Kaiowá, que traz em seu peito uma “bala” alojada do lado do seu coração, e que passa imensas necessidades com sua família…que não consegue andar direito, que não pode fazer operação para tirar a “bala”, que está ameaçado de morte por defender o seu povo, e que me ensinou que o importante da vida é lutar por ela, para viver com dignidade.

Conversei com os Xavantes, ouvi o clamor que brota do coração deste povo guerreiro. Me emocionei novamente pois reencontrei um dos índios que me recebeu na aldeia deles quando ali estive em 2003.

Revi os amigos e irmãos de caminhada Zeca Terra e o Chico Machado…profetas da esperança.

13715994_1072726626143223_968940017985838903_n

Foto de Gildean Farias

Conheci jovens de todo o Brasil e também do exterior que foram visitar a barraquinha da Identidade Pejoteira que vendia seus produtos e também o meu mais novo livro. Que satisfação abraçar, autografar e tirar fotos com a galera ali presente. Que lindo ouvir de suas bocas: nossa…que camisas bonitas…

Depois participei da roda de conversa e também de um momento da Pastoral da Juventude onde pude rever muita gente querida…os abraços foram inúmeros.

Nem parecia que já havia se passado tanto tempo. Amizade sincera supera a distância e o silêncio. Fui apresentado a muita gente nova, que estavam ali pela primeira vez, cheios de alegrias e lágrimas de felicidade nos olhos, pareciam ter descoberto um tesouro escondido.

13775916_1072026776213208_4607540220989349696_n

À noite ao redor da fogueira e com as velas acesas, vi, emocionado, meu querido amigo e irmão Pedro Casaldáliga, em sua cadeira de rodas se aproximar para a oração.

Não tirei nenhuma foto, pois já o tinha visto na casa paroquial…nada falamos um para o outro…apenas nos olhamos…e segurei nas suas mãos…tudo o que precisava ser dito…foi dito e guardado no coração.

13697224_10209580993382585_6943101476549417553_n

Em caminhada cantei com Zé Vicente e outros camaradas que animavam a romaria: “Vidas pela Vida…Vidas pelo Reino…Todas as nossas vidas…”.

Dizem que tinha quase 15 mil pessoas…em meu coração eu sentia muito mais. E como cantaram bonitas aquelas vozes todas. Em sintonia com a causa dos pobres e do Reino.

Caminhamos pela estrada que leva ao Santuário dos Mártires, cruzes estavam no caminho, nos lembrando que com o sangue dos mártires não podemos brincar…chorei ao rever a capelinha da cruz do padre mártir João Bosco. E Deus viu que tudo era muito bom.

13710045_1071437192938833_4647112623321889730_n

Foto de Emerson Sbardelotti

No domingo, celebramos juntos a vida dos Profetas do Reino. Me lembrei de pessoas queridas que estão passando por momentos difíceis…essa celebração foi para vocês. O Pedro estava lá…sufocado pelos curiosos e fãs que não paravam de tirar fotos, apesar dos apelos do padre Mirim. Brasileiro sempre quer levar para casa uma lembrança. Quando ele passou por mim, me deu um tchau, me viu, sorriu, isso valeu…não precisei tirar foto nenhuma.

Marcante e em conexão com tudo que estava sendo vivido ali e que me recordo com imensa emoção a frase de D. Sebastião Gameleira – bispo anglicano: “Adorar a Deus fora da luta do povo, da defesa da vida do povo, é idolatria”.

As causas de Pedro Casaldáliga são maiores do que ele. Tenho muito orgulho de ser seu amigo e irmão de caminhada. Infelizmente há pessoas, que se dizem católicas, que não conhecem a sua vocação, não conhecem a sua vida, não conhecem as opções que Pedro assumiu e as viveu até as últimas consequências…são as mesmas que o próprio Jesus de Nazaré assumiu.

E TODO O RESTO ACONTECE…

Passados alguns dias da Romaria e olhando as fotos que tiraram de D. Pedro Casaldáliga, e que postam nas redes sociais, fiquei tocado, como estou agora, enquanto escrevo estas rápidas palavras, por causa de sua fragilidade teimosa e de sua estética evangélica (estar no meio daquele povo todo); porém, como já disse antes, eu não tirei nenhuma com ele, nem dele, mas guardo vivo na memória e no meu coração (que batia mais acelerado do que o normal) e para o resto da minha vida, o nosso encontro na casa paroquial, ele me reconheceu; em seu olhar me chamou pelo apelido carinhoso que me deu quando eu era ainda jovem militante da PJ: Divino Impaciente; Pedro é assim, quando ama alguém ele apelida. Em nosso aperto de mão, não falamos nada, apenas nos olhamos e tudo foi dito, tudo foi conversado, colegialmente combinado.

Há muito a se fazer pela defesa da vida!

Naquele aperto e naquele olhar amoroso de avô, pai, irmão, amigo e companheiro de caminhada, ouvi em meu coração ele dizer: “Ser amável com todos é mais fácil, mais cômodo, que ser honestamente profético com todos. Amar é também incomodar”. Ninguém ouviu, só eu e ele.

Me levantei, sorri e me retirei, com o coração cheio de nomes e os olhos cheios de lágrimas de alegria, teimosia e fiel esperança.

13707563_582820655221030_4576991720168100613_n

Foto de Douglas Mansur

Ser Profeta do Reino, ser Poeta da Gente é gritar com os olhos…e todo o resto acontece…

E sozinho comecei a cantar um antigo poema que Pedro compôs e frei Mingos musicou:

“Somos um povo de gente, somos o povo de Deus. Queremos terra na terra, já temos terra nos céus…

Queremos plantar a roça onde plantamos o amor. Lavrador, a terra é nossa, de um afã e um só Senhor…

Retirantes, chega o dia de assentar o pé no chão: com fé em Deus e teimosia e na força da união…

Temos braços e esperança, somos gente, hoje, aqui! Se a pobreza é nossa herança, na justiça está o porvir…

Conhecemos a verdade e sabemos ver e amar. E exigimos liberdade pra viver e melhorar…

Conhecemos a verdade e o direito de ser mais. E exigimos igualdade, terra e casa, mesa e paz…

Lavradores, vida nova! Gente unida em mutirão! Gente unida a toda prova, de uma fé um coração…

Essas matas pra lavoura, água clara, puro o ar. Mão na enxada e pé na espora e um bom céu para esperar…”.

Retornei para São Paulo com a certeza que temos muito o que fazer pelas causas do Reino da Vida. Todos que ali estiveram, acredito, vivem esta mesma certeza e sabem que sem a fiel teimosia e a fiel esperança não vamos muito longe, juntos, somando forças vencemos o medo. “O perigo é ter medo do medo”.

 Em meu coração não esqueci de nenhum nome que amo.

13432198_1050594961689723_8472192352743798515_n

Emerson Sbardelotti

Mestre em Teologia pela PUC-SP

Agente de Pastoral Leigo

Colaborador do Observatório da Evangelização

As “coisas novas” da Amoris Laetitia do Papa Francisco segundo Andrea Grillo

papa-francisco-sorrindo

O razoar (argumentos) de amor de Francisco, para traduzir a tradição

Chegamos, assim, depois de três anos de elaboração eclesial, a Amoris Laetitia, que não diz coisas novas sobre o amor, sobre o matrimônio ou sobre a família. Ela quer, em vez disso, inaugurar uma relação nova entre magistério e experiência de amor, tendo amadurecido a consciência de que, onde há amor, a Igreja deve se pôr à escuta. Lendo o texto com esse critério, não devemos nos ocultar o fato de que, tematicamente, não poucas coisas mereceriam um tratamento diferente. Mas os temas individuais permanecem secundários em relação ao grande objetivo alcançado: ou seja, mudar de estilo, de tom, de perspectiva.

As “coisas novas” da Amoris Laetitia

Eis as principais novidades:

529419• O magistério não deve dizer tudo: esse antigo critério eclesial, que tinha sido superado com o Concílio Vaticano II, chamado, no fundo, a “dizer tudo de novo ao menos uma vez”, agora volta à tona na prática magisterial. O ministério magisterial restitui à dinâmica eclesial a “mediação da contingência”, sem pretender encaixá-la de uma vez por todas em uma “lei geral”.

• Misericórdia e justiça não estão no mesmo plano, mas a misericórdia é a origem e a finalidade da justiça. Isso tem consequências não pequenas não só sobre a “gestão das crises” matrimoniais, mas também sobre o modo de entender o fundamento e a finalidade da família. Ele não é confiado in primis aos direitos e aos deveres, mas à experiência de um dom.

• Na história da Igreja, entrelaçam-se duas modalidades de relação com as crises: uma quer excluir, a outra quer integrar. Desde o Concílio de Jerusalém, a segunda prevaleceu sobre a primeira, até fazer o próprio sentido da Igreja decorrer dessa capacidade de integração.

Uma profunda autocrítica acerca da relação da Igreja com o mundo moderno se torna – indiretamente – uma importante afirmação eclesiológica: a relação entre Igreja e mundo é recolocada não no registro negação/ afirmação dos valores (inegociáveis), mas no do reconhecimento dos “sinais dos tempos”. De uma metafísica/cognitiva/autoritária a uma lógica experiencial/afetiva/ministerial.

• Reconduzir tudo ao encontro concreto com a Palavra de Deus como lugar do discernimento, evitando entregar o juízo à linguagem abstrata de normas gerais, que se tornam “pedras” e que traem o rosto materno da Igreja, enrijecendo-o na figura carrancuda de um juiz.

• A escuta biográfica da narrativa dos sujeitos torna-se passagem obrigatória de uma tradição que quer ser viva, chamando a isso também aquela teologia moral que, ao contrário, se mostra inclinada a generalizações que, muitas vezes, ferem e traem irremediavelmente a expectativa de paz e de reconhecimento que habita os sujeitos.

Tudo isso, poderíamos dizer, está no coração da Amoris Laetitia. Pela primeira vez, de modo pleno, depois de 140 anos, o Magistério papal, depois de ter feito todo o longo percurso sinodal, depois de ter escutado, dialogado, proposto, acolhido, selecionado, diz uma palavra sobre o amor e sobre a família, saindo do estereótipo “reativo” que o catolicismo se deixou impor pela história política da Europa. Somente um papa não europeu podia sair do estereótipo. Somente o primeiro papa americano, somente o primeiro papa “filho” do Concílio podia ter a liberdade e a força de sair do “complexo de perseguição” que, sobre o matrimônio, havíamos amadurecido de Leão XIII em diante.

2. O matrimônio no último século e meio de Magistério

O matrimônio, de fato, há 140 anos, não significava, acima de tudo, “amor de casal”, mas sociedade, geração, educação. E, na época, a contenda era: quem tem a competência sobre o matrimônio? O Estado usurpador ou o Supremo legislador, único legítimo? Essa herança permaneceu mesmo 50 anos depois, quando, com Pio XI, o tema da contenda tinha se tornado: quem tem o poder de gerar? Deus, naturalmente, ou o homem, artificialmente? E isso também se somou à contenda anterior, até o Vaticano II. Sobre a família, as palavras da Gaudium et Spes, embora inspiradas nos textos anteriores, marcaram época, mas por pouco. A Humanae Vitae voltou a polarizar a tensão, com grande efeito midiático, mas com pouca eficácia prática. Por fim, chegou a Familiaris Consortio, que começou a reconhecer a sociedade diferenciada, aceitando que a comunhão eclesial podia ser diferente da comunhão sacramental. Mas ainda não tinha os instrumentos para responder a essa nova condição: ela sabia reconhecê-la, mas permanecia embaraçada sobre as formas concretas da resposta. Ela reconhecia o problema, mas respondia como se não o reconhecesse. Hoje, com a Amoris Laetitia, estamos no início de um início. A lei não é mais apenas pedagogia, a consciência se torna passagem obrigatória, a contingência não é mais abandonada à mercê de uma “objetividade” tão idealizada quanto agressiva. O início de um início nunca é fácil. Aos olhos de alguém, sempre pode parecer como o início de um fim. Um magistério que confia ao discernimento concreto a comunhão eclesial é um magistério que readquire força, porque volta ao fluxo da sua função original: servir à fé batismal, que, no matrimônio, realiza o Reino de Deus, apesar de todas as suas crises e os seus fracassos. Aceitar que o matrimônio pode fracassar não é fraqueza, mas força do sacramento e da fé. Saindo do modelo exclusivamente institucional de leitura do amor, o Papa Francisco faz uma operação de “tradução da tradição” de primeira qualidade. Mas precisará de uma Igreja que carregue a responsabilidade de não se deixar substituir pelo superior de plantão. Despojando-se de um poder objetivo e opositivo, o papa investiu a Igreja da autoridade do Espírito, como dom de misericórdia que não exclui ninguém.

Fonte:

GRILLO, Andrea, O vínculo conjugal na sociedade aberta. Repensamentos à luz de Dignitatis Humanae e Amoris Laetitia. Tradutor: Moisés Sbardelotto. Cadernos Teologia Pública, Ano XIII, Vol. 13, Nº 111, 2016, pp.

Resumo

Um repensamento do vínculo conjugal – no horizonte aberto pela Dignitatis Humanae e agora ampliado e articulado pela Amoris Laetitia – permite uma avaliação da história da teologia católica do matrimônio nos últimos 150 anos. Uma análise dos trabalhos sinodais e da exortação apostólica pós-sinodal permite identificar uma série de importantes aquisições que dizem respeito não só à compreensão do matrimônio, da família e do amor, mas também à concepção do magistério, do direito canônico e da relação entre Igreja e mundo. Uma teoria da indissolubilidade como indisponibilidade permite pensar de modo diverso e mais equilibrado a relação entre autoridade e liberdade, entre graça, natureza e cultura.

Palavras-chave: Vínculo Conjugal; Teologia do Matrimônio; Consciência; História; Reforma da Igreja.

Andrea-GrilloAndrea Grillo é pai de Margherita e Giovanni Battista. Doutor em Teologia (1994) e Mestre em Teologia (1990) pelo Instituto Liturgia Pastorale, Padova. Graduado em Teologia pela Scuola di Teologia “Ut unum sint” ligada ao Seminario di Savona. Graduado em Filosofia (1993) pela Università di Genova. Professor de Teologia, com ênfase em Sacramentos e Liturgia no Pontificio Ateneo Sant’Anselmo, Roma. Membro do Conselho Científico dos periódicos Studium e La Maison-Dieu.

O caminho se faz ao andar

CAMINHANDO

Filhas de Jesus

CEM ANOS DE PRESENÇA EVANGELIZADORA EM BELO HORIZONTE – VI

Antonio Machado, poeta espanhol, entoa em seus versos uma experiência belíssima, da qual o Professor Afonso Soares parece ter bebido:

“Caminante, son tus huellas

el camino y nada más;

Caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace el camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino

sino estelas en la mar.”

Afonso é o representante da Congregação das Filhas de Jesus nos colégios de Belo Horizonte. Na primeira parte de sua narrativa sobre seu papel nessa envolvente história da Congregação na Arquidiocese de Belo Horizonte, o educador nos relatava sua percepção acerca da consciência de corpo que essas obras portam, em relação à Igreja: “a escola como uma extensão do braço da Igreja” e como se dão as parcerias entre religiosas e leigos, dentre outros dados, tais como seu crescimento pessoal, seu envolvimento na missão, a espiritualidade inaciana etc.

Nesta segunda parte, ouvimos: “O que é mais interessante é a caminhada que você estabelece. O meu desejo é que essa caminhada possa acontecer de forma transparente, digna.”

Aqui conhecemos o que o desafia e o que o anima. Como Afonso vê as religiosas com quem vive essa fértil parceria educativa, como enxerga os educandos do Colégio Imaculada e da Obra Social São José Operário.

Afonso Soares: você é grato às Filhas de Jesus pela experiência ao trilhar esse caminho. Da mesma forma, o Observatório lhe agradece a abertura, o frescor da novidade que porta como educador, o espírito que partilha. Que a alegria, a acolhida, a transparência que o encantam possam também chegar a todos aqueles a quem educa.

Juntos! Uma só missão.

Equipe de gestão SEIAS

Filhas de Jesus

CEM ANOS DE PRESENÇA EVANGELIZADORA EM BELO HORIZONTE – V

 

Em tempos de busca, por parte de alguns deputados conservadores, de tentar controlar os educadores criminalizando seu pensamento, atentando absurda e inconstitucionalmente contra a liberdade de expressão, é um prazer escutar o relato do Professor Afonso Soares… Suas palavras nos mostram que outra realidade é possível: ao contrário do autoritarismo, uma caminhada que se constrói em comunhão, parceria.

Sua narrativa do percurso construído junto às Filhas de Jesus, desde que era professor de Matemática até o momento presente, em que atua como Representante Legal das religiosas, tanto junto ao Colégio Imaculada quanto à Obra Social São José Operário, é envolvente, por ser vital. Confira abaixo a primeira parte de nossa entrevista, e comente:

 

Assembleia Paroquial – Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe (Bairro Céu Azul)

IMG_1306 IMG_1285

IMG_1284

Em 18 de junho último, estive presente à Assembleia Paroquial em preparação para a V APD desta arquidiocese, na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe (Bairro Céu Azul). Apresentei-me e fui acolhida pelo pároco e demais pessoas ali presentes, perguntei-lhes se conheciam o Observatório da Evangelização (vários disseram conhecê-lo) e mencionei que faria um relato do que observasse ali. Todos acolheram a proposta com muita tranquilidade.

A assembleia foi conduzida por um leigo, auxiliar do pároco, que a tudo assistiu sem interferir diretamente.

Após a acolhida a todos, iniciou-se uma oração do Ofício Divino, nesse clima propôs-se uma reflexão sobre o que a paróquia fez de bom nos últimos quatro anos. Partilha:

  • Os cursos;
  • A preparação e a participação na JMJ;
  • Os retiros, dias de oração e festas da comunidade;
  • (e segundo o pároco, há menos de um ano presente ali:) “nos últimos oito meses, a união”.

O coordenador da assembleia retomou: “Hoje nos sentamos para pensar os rumos da nossa paróquia para os próximos quatro anos.” Salmo/ refrão cantado/ versículos lidos livremente. Proclamação do evangelho do dia pelo pároco que concluiu: “Todos somos convocados. Chamados a contribuir. Colocar em ação o que ouvimos do próprio Jesus.”

Não houve apresentação do vídeo da V APD e, para apresentar o texto-base em preparação a ela, o leigo que dirigiu a Assembleia, fez as seguintes considerações: O que nos leva a estar reunidos em uma tarde de domingo? Somos chamados a ser uma Igreja missionária, “em saída”, como diria Francisco – e destacou:

  • Idade dos católicos na Arquidiocese: diminuição do número de jovens.
  • CNBB – pede protagonismo dos leigos.
  • Importância da centralidade da Palavra.

Afirmou que aqui, na Arquidiocese de BH, funciona o sistema de Redes de Comunidades e de conselhos. Que naquela paróquia funciona uma equipe administrativa para que o pároco possa dar uma maior assistência pastoral.

Sobre a centralidade da Palavra: Depois do Vaticano II, há maior consciência que o importante não é só a Eucaristia, mas também a Palavra. Somos a Igreja da Palavra/ de Palavra (Opção Preferencial pelos Pobres)/ a Palavra (alicerçada em Jesus). Temos compromisso com a reconstrução do Reino.

Que instrumentos temos para nosso trabalho? Manual dos Conselheiros (2005) e Subsídio da IV APD.

Segundo esse coordenador, o modelo de igreja tradicional, as CEB’s, os movimentos pentecostais não respondem mais aos jovens.

E questiona: – O que você vê na sua pastoral que mais atrai os jovens?

– Nós estamos pensando no nosso jeito de acolher os idosos?

Em seguida a essa reflexão, divide a assembleia em quatro grupos para responder às questões:

  1. Quais são os desafios que a minha pastoral tem enfrentado nos últimos dois anos?
  2. Como o meu grupo contribuiu para a paróquia nos últimos dois anos? Quais as estratégias utilizadas para isso?
  3. Quais são as metas da minha pastoral para os próximos dois anos? Como essas metas contribuirão para o crescimento da paróquia?

Plenária:

DESAFIOS

Grupo 1

  • Cristãos, em geral, voam muito baixo na espiritualidade;
  • Necessidade de renovação;
  • Convivência entre nós;
  • Cursos: formato repetitivo, não favorecem o crescimento, não atrativos;
  • Inconstância dos sacerdotes, muita mudança;
  • Falta de comunicação e de integração entre as pastorais;
  • Músicos estão fora da liturgia.

Grupo 2

  • Falta falar a linguagem do jovem e do leigo;
  • Dificuldade de comunicação entre pastorais e entre comunidades;
  • Falta aprofundamento na espiritualidade;
  • Falta disponibilidade;
  • Três padres nos últimos dois anos…

Grupo 3

  • Diminuição do número de membros;
  • Falta de disponibilidade das pessoas;
  • Jovem não se vê como a cara da Igreja.

Grupo 4

  • Falta espaço (abertura) da liturgia para as demais pastorais e como essas pastorais não se engajam na liturgia, não tem um lugar para divulgar sua ação;
  • Falta integração das pastorais;
  • Falta comprometimento dos cristãos na vida da comunidade;
  • Trazer mais pessoas para trabalhar nas pastorais;
  • Faltam espaços atrativos para os jovens fazer retiros. Tudo é caro. Como segurar os jovens?

CONTRIBUIÇÕES/ ESTRATÉGIAS

Grupo 1

  • Busca de responder aos apelos.

Grupo 2

  • Abertura do retiro quaresmal para as comunidades (mas pouca participação);
  • Rede de comunidades está funcionando melhor

Grupo 3

  • Visitas;
  • Evangelização nas casas;

Grupo 4

  • Formação de novos membros;
  • Sensibilização para promover cursos diversos;
  • Formação de uma pastoral missionária.

METAS

Grupo 1

  • Valorização das lideranças.

Grupo 2

  • Formações, retiros;
  • Melhoria da comunicação para maior participação nos eventos;
  • Disposição para ir ao encontro das pessoas: Igreja em saída (precisamos ser mais missionários);
  • Compreensão da linguagem do jovem e do leigo. Encontros mais característicos. Dar mais participação às crianças, adolescentes e jovens.
  • Não deixar que as coisas morram depois da 1ª eucaristia

Grupo 3

  • Integração das pastorais (jovens nas demais pastorais)

Grupo 4

  • Buscar novas pessoas para ajudar;
  • Mais agilidade dos coordenadores para transmitir as informações (para haver mais tempo para preparar bem as atividades);
  • Crisma: Cada mês, como um estágio, durante dois anos, os jovens participarem de todas as pastorais da paróquia (porta de entrada: as pastorais)

Na reunião havia mais de sessenta pessoas, 1/3 das quais homens (21).  E somente seis jovens que, no entanto, se fizeram ouvir.

Segundo o leigo, que conduziu a assembleia, a APD segue o método: VER – JULGAR – AGIR, mas o coordenador não fez qualquer referência ao questionário lançado pela arquidiocese em preparação à próxima Assembleia do Povo de Deus. Após a escuta de todos os grupos, mencionou algo que não foi citado por nenhum deles e comunicou que, ali, a Pastoral da Saúde será a porta de entrada das demais pastorais de toda a paróquia. Assim, se alguém for visitar um enfermo, saberá, em casa deste, se há pessoas que necessitam se preparar para os sacramentos, por exemplo, e encaminhará as demandas para as diferentes pastorais.

O passo seguinte foi um convite a que aqueles que desejassem representar a paróquia nas instâncias seguintes da V APD, se oferecessem para isto. Três pessoas se apresentaram e o coordenador escolheu, sem eleição, portanto, as duas representantes da paróquia, sem dar uma razão para isso.

Então, o rapaz preterido trouxe alguns questionamentos à baila, dizendo que deveriam ser considerados ali. Primeiro, questionou a centralização dos conselhos, afirmando que além de consultivos deveriam ser, também, deliberativos. Depois opinando que as CEBs ali tem que ser retomadas. O coordenador, por sua vez, reafirmou enfaticamente que “as CEBs não atendem à nossa realidade, no contexto geral”.

Uma leiga interveio: “Nós não somos criancinhas. A Igreja tem que aprender a ouvir nossas críticas. Nós colocamos como princípio nosso desejo de criar Rede de Comunidades, e agora temos que retomar tudo de novo. Cada vez que troca o padre, parece que temos que retomar tudo de novo!”

O coordenador prosseguiu, sempre com justificativas intermeadas de afirmações como: “vocês tem que ter autonomia”, mas as decisões, ao menos no que concerne àquela assembleia paroquial, partiram dele, que concluiu pedindo a cada grupo para encaminhar a síntese para o e-mail da paróquia.

Encerrou-se com a Oração da V APD.

Tânia Jordão.

IMG_1287

IMG_1289

IMG_1297

IMG_1298

IMG_1295

IMG_1300

IMG_1306

IMG_1308

IMG_1311

 

 

 

 

 

 

IMG_1291

 

 

 

IMG_1302

IMG_1312

IMG_1315

 

 

 

 

Você sabe o que pensa o Papa Francisco sobre educação?

29nov2015--papa-francisco-abencoa-criancas-durante-sua-visita-a-um-campo-de-refugiados-em-bangui-na-republica-centro-africana-o-pontifice-pediuao-governo-de-transicao-e-a-seus-cidadaos-que-se-inspirem-1448806051958_956x5

O PENSAMENTO DE PAPA FRANCISCO SOBRE EDUCAÇÃO

Torna-se necessária uma educação que ensine a pensar criticamente e ofereça um caminho de amadurecimento nos valores.

(Papa Francisco, EG 64)

Introdução

Saúdo a todos os organizadores e participantes do 24º Congresso Interamericano de Educação Católica. Agradeço o convite para esta conferência de abertura. Compreendo que a escolha de meu nome é, antes de tudo, um reconhecimento do compromisso com a “educação católica” da parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil por meio da Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura e a Educação na efetiva parceria com a ANEC.

Considerar “o pensamento do papa Francisco sobre educação” é  tema muito oportuno para a reflexão sobre “A Escola Católica no século XXI”, tema geral deste Congresso. O horizonte eclesial do momento tem a marca da esperança. Papa Francisco, desde o início de seu ministério como bispo de Roma e papa, tem provocado em todos os setores eclesiais e, acredito, em cada um de nós, o desejo mais intenso de conversão pessoal, eclesial e pastoral. Penso ser legítimo considerar que há espaço para falar também de conversão da “educação católica”. Papa Francisco pontuou no recente Congresso Mundial de Educação Católica que a maior crise da educação na perspectiva cristã é o fechamento à transcendência. É estranho e paradoxal, mas há situações em que a escola católica ou a universidade católica se fecham à transcendência. Lembremos que o Documento de Aparecida também explicita que “a escola católica é chamada a uma profunda renovação” (337).

A novidade eclesial desses tempos veio pelo resgate da esperança já estampada no sorriso de Francisco. Veio ainda pelo seu compromisso efetivo de construir novas respostas, elaboradas com os ouvidos e o coração atentos à Palavra de Deus e à realidade que nos circunda. Assim, seu modo de pastorear a Igreja reafirma mais uma vez que “nada do que é humano é estranho à missão da Igreja” (cf. Paulo VI). Nesse sentido, a educação é objeto de especial interesse para nós, homens e mulheres atravessados pelo Palavra do Evangelho. Por isso, estamos aqui.

Entendi que não me caberia aqui recuperar a história de Jorge Maria Bergoglio como educador. Em sua trajetória como membro da Companhia de Jesus, ele exerceu diferentes funções como educador, professor e formador. Tomei, então, como referência o período de seu pontificado. Para esse trabalho fiz um recorte orientado pela pergunta: a partir de seus pronunciamentos, como Papa Francisco compreende a educação? Portanto, o caminho foi recorrer à palavra dele, escutá-la atentamente e aí descobrir as grandes linhas de seu modo de pensar a educação. Meu trabalho não é outro senão deixar falar o próprio Papa Francisco. E exorto a todos os senhores que se deixem interpelar por suas palavras. Ele próprio, na Exortação Evangelii gaudium, nos apresenta um desafio, dizendo explicitamente: “torna-se necessária uma educação que ensine a pensar criticamente e ofereça um caminho de amadurecimento nos valores” (EG 64).

É importante observar não apenas a capacidade pessoal do Papa Francisco de ensinar com muita clareza, de modo direto e breve, sempre com o recurso de imagens, mas também os seus gestos que captados pela mídia se tornam logo “virais”. Aqui vale um princípio: o Papa nos ensina por palavras e por gestos.

Nesta apresentação não vou citar a fonte das citações encontradas. Seria por demais enfadonho. No texto que será disponibilizado poderão ser encontradas as respectivas citações.

Uma indicação

Considero importante a seguinte indicação. O modo como Papa Francisco pensa a educação não está dissociado de sua experiência pessoal como homem cristão e nem de sua compreensão acerca da identidade e missão da Igreja. Portanto, há uma articulação interna e implícita entre cristologia-antropologia-eclesiologia-pedagogia. Essa articulação não pode ser negligenciada. Em outras palavras, a experiência de fé em Jesus Cristo lhe dá uma compreensão do ser humano e da missão da Igreja que ilumina decididamente seu modo de pensar a educação. Compreendo que isso é fundamental para pensar a educação católica, ou seja, articular a proposta de educação católica na relação com as verdades fundamentais da fé cristã.

Desse modo, os grandes temas do ensino do Papa Francisco desdobram-se também no seu pensamento sobre educação. Vamos poder observar como esses temas ressoam e indicam caminhos para a escola católica que busca se renovar.

Oxalá, todos que aqui estamos, tenhamos o mesmo sentimento do Papa Francisco, assim expresso:

Nós estamos aqui porque amamos a escola. E digo “nós” porque eu amo a escola, eu amei a escola como aluno, como estudante e como professor. E depois como bispo (Discurso aos estudantes e professores das Escolas Italianas, 10.05.14).

 A apresentação está organizada em cinco grandes temas, a saber:

  1. Importância da educação;
  2. A escola;
  3. Os educadores;
  4. O pacto educacional;
  5. Horizontes da educação segundo Francisco. 

(Atenção: Clique em cima de cada item para abrir cada um dos temas desenvolvidos.)

Conclusão

A capacidade de incluir sempre o outro é um traço extraordinário na pessoa do Papa Francisco. Vejam como ele encerrou seu diálogo com os jovens em Cuba:

E peço que rezeis por mim. E se algum de vós não for crente – e não pode rezar, porque não é crente – que ao menos que me deseje coisas boas. (Saudação aos jovens do Centro Cultural Padre Félix Varela, Cuba, 20.09.15).

Se Papa Francisco estivesse aqui estou certo de que pediria que rezássemos por ele. Assim, tomo a liberdade de pedir aos senhores que rezem pelo Papa Francisco.

E concluo com um convite. Releia os extratos dos pronunciamentos do Papa Francisco que aqui apresentamos. Deixe, mais uma vez, interpelar-se pela palavra do Santo Padre. Tenho esperança de encontrarmos em suas palavras preciosas indicações para pensar “A escola católica no século XXI”.

Muito obrigado!

 

DSC04603(4).jpg

 

+ Dom João Justino de Medeiros Silva

Bispo Auxiliar de Belo Horizonte

Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura e a Educação

Coordenador do Observatório da Evangelização – PUC Minas

 

 

Ps. 1. Acesse ao Power Point A EDUCAÇÃO SEGUNDO PAPA FRANCISCO, carinhosamente disponibilizado pelo autor.

Ps. 2. Este texto apresentado no 24º Congresso Interamericano de Educação Católica – “A Escola Católica do século XXI”.